O rio de vários sertões

A Minas de Guimarães Rosa são várias. E entre essas Minas Gerais, a que o inventor da “literaturização” da cultura oral mais admirava era a sertaneja, onde a vegetação retorcida, seminua e árida encontrava nos límpidos rios seus acalentos de vida. E dentre esses suspiros molhados do sertão de Guimarães, o São Francisco sempre foi o de maior profundidade, de maior imponência. É em seu leito que muitos súditos derramam suas contribuições. Entre eles, o Velhas, o Paracatu, o Paraopeba, o Urucuia, o Verde Grande, o Correntes e o Carinhanha. Dando-lhe força e robustez para partir os sertões.


Por Gustavo Nolasco
Fotos Léo Drummond

O São Francisco é o mais sertanejo de todos os rios brasileiros. O sertão do Velho Chico são vários. Excluído seu trecho da nascente na Serra da Canastra até as cachoeiras de Pirapora e também a pequena zona costeira de sua foz, o São Francisco lambe com suas águas exclusivamente terras do semi-árido brasileiro. Do Cerrado das margens mineiras, passando pelas terras vermelhas baianas e rasgando a Caatinga de Pernambuco, Alagoas e Sergipe.

O contraponto vem do fato que é quase impossível imaginar um rio tão único e, ao mesmo tempo, com paisagens e ribeirinhos tão diferentes. Somente o São Francisco tem o dom para tal proeza.

Pensando em exaltar essas diferenças culturais, ambientais e turísticas de um São Francisco tão singular, surgiu o projeto Os Chicos. Por meio dele, até julho deste ano, serão percorridos os 2.700 quilômetros do Velho Chico, com o objetivo de pesquisar e documentar a cultura oral das cidades, ilhas e povoados ribeirinhos.

Em agosto e setembro do ano passado, foi pesquisado o trecho de Petrolina até a foz do São Francisco, entre os municípios de Piaçabuçu, Alagoas, e Brejo Grande, Sergipe. Já em abril passado, foram trinta dias de pesquisa no trecho do rio entre Juazeiro e a cidade de São Francisco, em Minas Gerais. Até o final de julho, a pesquisa será finalizada com as regiões da nascente, de Três Marias e de Pirapora.

Devido à logística e às condições sofríveis de navegação do São Francisco, ao transporte não ocorreu pelo rio e sim, por terra, margeando o rio e buscando personagens que pudessem ter suas histórias de vida refletidas nas águas às vezes claras, às vezes barrentas do Rio dos Sertões.

O desafio do projeto é combinar um bem natural vital para os sertanejos com a necessidade do homem de transmitir, pela oralidade, a sua cultura para as novas gerações. Assim, o projeto ousa lançar a semente para que se crie uma conscientização sobre a necessidade de imortalizar uma das maiores riquezas imateriais deste país: a diversidade cultural dos ribeirinhos do São Francisco.

O resultado final da pesquisa será transformado um livro, a ser lançado no final deste ano, com o patrocínio da Cemig, Copasa, BMG, CBMM e GM/Chevrolet. Mas algumas histórias já estão disponíveis pelo site www.oschicos.com.br

Você conhece um Chico?

E num rio de tantas riquezas naturais, a expedição em busca de belas histórias não poderia deixar de ter sua dose de aventura. Era preciso escancarar as diferenças culturais dos ribeirinhos, mas também marcar firme uma característica que pode ser encontrada em qualquer pedacinho habitado de barranca de rio: o amor pelo São Francisco. Para isso, o desafio era encontrar apenas personagens que se chamassem Francisco ou Francisca. E, assim, nascia “Os Chicos”.

A cada cidade ribeirinha pesquisada, se iniciava uma busca louca e complexa: “você conhece algum Francisco ou Francisca?”. Invariavelmente, a pergunta era o ponto de partida da pesquisa. Alguns moradores achavam estranho, mas a maioria das pessoas se encantava com a ideia de vasculhar a cidade atrás de Chicos e Chicas.

O objetivo principal é mostrar que o Chico de São Roque de Minas tem toda uma relação com o rio, uma cultura oral, folclores e histórias completamente diferentes de um Chico de Matias Cardoso, por exemplo.

E nos dois primeiros meses de pesquisa, foram entrevistados dezenas de personagens. São Chicas e Chicos vaqueiros, pescadores, guias turísticos, policiais, assassinos, atores, agricultores, padres, violeiros, romeiros, balseiros, políticos, jogadores de futebol, poetas, maestros, velhos, jovens e crianças.

Não só pelos livros e fotos se conhece o São Francisco

Muitos personagens têm sua vida confundida com o próprio São Francisco. É o caso de Chiquinho Amaral, morador da Ilha do Meio, que pertence ao município de Bom Jesus da Lapa, no extremo oeste da Bahia. Em 1944, aos cinco anos de idade, ele, sua mãe e seus quatro irmãos mais novos foram obrigados a abandonar a Caatinga do sertão quando já completavam dois dias sem uma gota de água para beber.

Foram uma noite e um dia de caminhada até se depararem com as águas do São Francisco, bem aos pés do Santuário do Bom Jesus. Chiquinho não conteve as lágrimas ao lembrar-se da sede e, ao mesmo tempo, do pavor que viveu em cada um dos passos daquela caminhada, pois poderiam se deparar a qualquer momento com uma onça faminta no meio da Caatinga.

A salvação através das águas do São Francisco foi paga com promessa por Chiquinho e seus irmãos. Sua mãe os colocou para rezar, cada qual com uma garrafa de água como oferenda, aos pés da imagem do Bom Jesus.

E não é só da história de sobreviventes da seca que vive o Santuário do Bom Jesus. Além de ser o segundo maior destino de turismo religioso do Brasil, ele foi considerado uma das mais belas paisagens naturais de todo o Brasil

A formação rochosa de aproximadamente 90 metros de altura, colada ao leito do São Francisco, possui um emaranhado de grutas e passagens internas esculpidas pela natureza e utilizadas pelos homens para receber cerca de 2 milhões de romeiros e turistas por ano.

Em todos os sertões do São Francisco, a devoção ao Bom Jesus da Lapa é imensa. São milhares de romeiros que chegam de barco, de pau-de-arara, cavalo e até mesmo a pé, para pagarem suas promessas.

Reza a lenda que mesmo os sertanejos que viviam às margens dos afluentes do São Francisco em Minas Gerais eram devotos do Bom Jesus e não deixavam de pagar suas promessas. Não podendo realizar as romarias até a Bahia, eles lançavam nas águas dos rios Paracatu e Urucuia potes de barro contendo seus ex-votos (objetos que simbolizam uma graça alcançada, como, por exemplo, muletas, fotos e miniaturas de casas) e até mesmo dinheiro. Ao desembocarem no Velho Chico e descerem por suas águas, estes potes chegavam até o pé do santuário, onde eram recolhidos e depositados dentro das grutas.

Já o mineiro João Francisco nunca pagou suas promessas dessa maneira. Há quase 10 anos, ele deixa a cidade mineira de São Francisco e rasga o sertão mineiro até Bom Jesus da Lapa. Capitão de Folia de Reis, todos os anos, ele leva o seu Terno (nome dado ao grupo de Folia de Reis) para dançar dentro do santuário. E, assim, paga suas promessas ao santo dos sertões do São Francisco.

Paraísos escondidos e outros nem tanto

Outro ponto forte na vida dos personagens de Os Chicos é a relação umbilical com verdadeiros paraísos que o São Francisco oferece para o turismo. Alguns deles já muito explorados e difundidos, como a nascente do rio no Parque Nacional da Serra da Canastra; as cavernas gigantescas do Vale do Peruaçu, em Januária; o passeio de Pirapora até o encontro com o rio das Velhas a bordo do Benjamim Guimarães, único dos mais de 40 barcos chamados “vapores” que já chegaram a fazer simultaneamente a navegação no São Francisco; a cidade histórica de Penedo, em Alagoas, e as dunas da foz, no encontro das águas com o mar.

Mas as ribeiras do Velho Chico ainda guardam tesouros de potencial turístico incalculável e ainda pouco aproveitado. Os cânions do São Francisco, por exemplo, são considerados o destino turístico mais belo de todo o rio. Com 65 quilômetros de extensão e profundidade que chega a 190 metros em alguns pontos, eles são o quinto maior cânion navegável do mundo.

Mesmo com toda infraestrutura de passeios turísticos, restaurantes e guias existente, até mesmo esse trecho do Velho Chico guarda paraísos pouco explorados. Um destes tesouros é o Mirante do Talhado, que só se conhece por terra, se embrenhando pela Caatinga.

O paraíso está localizado no povoado de Olho da Aguinha, no município alagoano de Delmiro Gouveia. Lá, com sua voz de vovô boa praça, Zé Francisco recebe os visitantes sempre de braços abertos e um sorriso por debaixo de um bigode simpático e ralo.

Há quatro anos, quando mudou para o povoado, Zé Francisco quis encontrar uma forma de acabar com o corte de árvores nativas e a caça de animais silvestres em sua propriedade. Para isso, aliou cultura e turismo. “Não poderia brigar com os caçadores, pois não nasci para ser o segundo Chico Mendes”, conta Zé Francisco, que criou uma rota ecológica pelo seu terreno, acompanhada de uma peça teatral encenada ao ar livre.

Os atores são crianças e jovens do Olho da Aguinha, que conviviam diariamente com a realidade das caças predatórias e as derrubadas de mata. Enquanto Zé Francisco vai fazendo a caminhada de aproximadamente um quilômetro por dentro da Caatinga, falando dos poderes medicinais das plantas e frutos nativos, as crianças surgem no meio das pedras, vestidas de índio e narraram as atrocidades cometidas pelo homem contra o São Francisco, sua mata ciliar e sua fauna.

O final do espetáculo leva os visitantes a um susto combinado com o êxtase da visão de um cenário natural indescritível. Deixando de súbito a mata fechada, Zé Francisco, no auge de seus 70 anos, caminha e se posta a poucos centímetros de distância de um paredão de 40 metros de altura, bem sobre os cânions do São Francisco. O vermelho da formação rochosa, combinado com o verde das águas, o azul do céu e a imponência dos paredões chegam a arrancar lágrimas de emoção.

E se enganam os turistas que acham ser aquela a maior loucura dele: Zé Francisco já desceu o paredão até as águas do Velho Chico fazendo rapel. Para ele, só mais uma forma de se integrar ainda mais ao meio ambiente.

Transpondo a cultura oral

O projeto Os Chicos constatou que a diversidade do São Francisco não se resolve aos seus incalculáveis destinos turísticos e aos inúmeros sertões que banha. Ele também guarda opiniões diversas de seus ribeirinhos. E um dos assuntos mais comentados é a transposição das águas do rio para os dois sertões: o cearense e o paraibano.

O cacique Chico Truká, da tribo que ocupa a Ilha da Assunção — a maior do São Francisco, com 18 quilômetros de extensão e 5.000 moradores — luta contra as obras da transposição que estão a poucos metros das terras de sua tribo, na cidade pernambucana de Cabrobró.

Já Francisco Guedes, ex-sargento da Marinha Brasileira que serviu no porta-aviões Minas Gerais, tem uma visão diferente do cacique. “Sou a favor da transposição porque antes dela, nunca se falou tanto em revitalizar o rio”, fala o marujo, que hoje realiza passeios turísticos pelo São Francisco, na cidade de Januária.

Essas são algumas das histórias e personagens documentados pelo projeto Os Chicos. Serão parte importante de um processo que precisa ser desencadeado para uma divulgação maior dos roteiros turísticos do rio São Francisco. Já que se dando importância e valor econômico às suas belezas naturais, será mais fácil aumentar o brado pela sua recuperação ambiental.

E o projeto Os Chicos veio para mostrar a necessidade não apenas de dar voz ao ribeirinho, mas sim de conhecer a história do ribeirinho. Quando se fala do São Francisco fica simples, mas quando se conhece os vários sertões que dependem de suas águas, a questão se torna mais profunda.

A conclusão não é nova, pois mesmo o maior intérprete da cultura oral dos sertões do Velho Chico já profetizava. “Gostaria de ser um crocodilo vivendo no Rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens”.
 


 

O “Velho Chico” corta o Cerrado das margens mineiras, passa pelas terras vermelhas baianas e rasga a Caatinga de Pernambuco, Alagoas e Sergipe.

“Capitão de Folia de Reis, todos os anos, ele leva o seu Terno (nome dado ao grupo de Folia de Reis) para dançar dentro do santuário. E, assim, paga suas promessas ao santo dos sertões do São Francisco”.

“Quando se fala do São Francisco fica simples, mas quando se conhece os vários sertões que dependem de suas águas, a questão se torna mais profunda”.

Capela à beira do São Francisco em São Roque de Minas na Serra da Canastra.

O desafio do projeto “Os Chicos” é combinar um bem natural vital para os sertanejos com a necessidade do homem de transmitir, pela oralidade, a sua cultura para as novas gerações.

“O Chico de São Roque de Minas tem toda uma relação com o rio, uma cultura oral, folclores e histórias completamente diferentes de um Chico de Matias Cardoso”