O insustentável peso do minério

Reportagem Ana Carolina Diniz
Fotos Francilins

 
Paraíso cercado por montanhas e águas cristalinas que deslizam pelas encostas de imensos vales, a Serra da Gandarela — cujo solo, quase todo composto de minerais de ferro, desperta a cobiça da atividade de mineração —, abriga uma complexa e ainda bem conservada biodiversidade. Para preservar a Gandarela é discutida uma proposta de transformar toda a região da serra em Parque Nacional.

Sobrevoar a área do Quadrilátero Ferrífero, a mais importante província mineral do Brasil, que abriga cerca de 30 municípios mineiros, é senão passear por uma história de riqueza e prosperidade, vivida durante séculos, acompanhada pela triste herança da devastação deixada pela atividade mineradora.

Há mais de 300 anos, essa região vem sendo degradada por diversos ciclos mineradores, e nem por isso ela se tornou rica ou exemplo de desenvolvimento social. Muito pelo contrário, grande parte das cidades exploradas estão em plena decadência e, ainda hoje, sofrem com os impactos deixados pelos processos produtivos da mineração. Enquanto a riqueza é privatizada, os impactos socioambientais são sistematicamente socializados.
Voltada aos interesses imediatos, indiferente às consequências a longo prazo, a busca insensata dessas indústrias, compromete seriamente a capacidade do meio ambiente em responder às demandas das gerações futuras. Diante do cenário mundial catastrófico que se esboça referente ao futuro planetário, parece haver empresas que ainda se pautam pelo imperativo da rentabilidade imediata.

De uma área que compreende sete mil quilômetros quadrados, repleta de montanhas e formações rochosas, a terra vermelha dos mineiros das Minas vai aos poucos se desfazendo em forma de dinheiro. Foi o que já aconteceu com as serras do Curral, da Moeda, do Itatiaiuçu, da Piedade, do Rola Moça, da Ferrugem, entre tantas outras, e o que, num futuro bem próximo, pode ocorrer com a Serra da Gandarela.

Mina ou Minas?

Situada na região metropolitana de Belo Horizonte, entre os municípios de Caeté, Santa Bárbara, Rio Acima, Itabirito, Barão de Cocais e Raposos, a Serra da Gandarela consiste em um dos últimos remanescentes intactos do Quadrilátero Ferrífero, de inestimável riqueza hídrica, geológica, paleontológica, arqueológica e também de flora e fauna.

Nela são encontradas as maiores extensões de biomas como Mata Atlântica, Cerrado e Campos Rupestres sobre Canga Ferruginosas de toda a região. Esta última consiste em um tipo de formação rochosa que serve como um mecanismo de filtragem de água, que propicia formação de reservas naturalmente puras. Esse corredor ecológico também abriga espécies endêmicas e em extinção, e possui mais de 100 cavernas, cachoeiras, corredeiras, poços e lagoas que formam um conjunto com potencial turístico tão significativo quanto o da Serra do Cipó.

Nessas montanhas também está a “caixa d’água” que abastece as bacias dos rios Doce e São Francisco, que consistem numa das mais significativas fontes de fornecimento de água limpa para toda a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).

No entanto, o futuro desse santuário natural, bem próximo a Belo Horizonte, se encontra ameaçado pela implantação da Mina Apolo, um empreendimento da Vale S.A, que será instalada na vertente do Rio das Velhas e terá capacidade de produzir 24 milhões de toneladas de ferro por ano, algo similar à produção da Mina de Brucutu, em São Gonçalo do Rio Abaixo (MG).

Parque Nacional Águas do Gandarela

O projeto que prevê a exploração da serra com retirada e destruição da cobertura de Canga, além do uso da água das nascentes para lavagem do minério, e a construção de uma enorme barragem de rejeitos no Ribeirão do Prata, está na primeira fase de licenciamento, conhecida como Licença Prévia (LP).

Neste momento, são realizadas audiências públicas e discussões sobre os possíveis impactos, como já vem acontecendo em vários municípios afetados pelo projeto. Essa licença não autoriza a instalação do empreendimento, mas, uma vez concedida, é pouco provável que ele não vingue, já que o diálogo entre a empresa e as comunidades tende a diminuir.

Paralelamente a esse projeto de exploração do minério, também está em pauta, outra proposta baseada em estudos científicos realizados pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), que propõem a criação do Parque Nacional Águas do Gandarela, para exploração do potencial turístico da região, garantindo assim, a preservação do seu patrimônio natural.

Consciência e cidadania

Esta proposta já está sendo avaliada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)/Ministério do Meio Ambiente e dependerá do apoio da sociedade para se concretizar. Segundo Saulo Álvares Albuquerque, mobilizador do Projeto Manuelzão, é possível perceber um salto de consciência e cidadania das comunidades afetadas. “Nunca antes, na história da região, um projeto de mineração teve tanto envolvimento das comunidades e foi tão debatido, como este da Mina Apolo”, comenta.

Diante desse impasse que se coloca à sociedade é preciso pensar em processos de crescimento que permitam conciliar desenvolvimento econômico e proteção socioambiental.

Mar de lama

Enquanto os cidadãos de Santa Bárbara e Barão de Cocais temem pelo abastecimento público de água, que poderá ser seriamente comprometido com a instalação do empreendimento Mina Apolo, a cidade de Raposos (cerca de 15.500 habitantes) corre grande risco de ser soterrada por um mar de lama, caso haja algum acidente com a barragem de rejeitos prevista para ser instalada na cabeceira do ribeirão da Prata, há mais de 270 metros, acima da cidade.

Além de interromper o fluxo natural do ribeirão, com o rebaixamento do lençol freático e a consequente diminuição da vazão e a contaminação de suas águas, que abastecem a cidade de Raposos e onde estão várias cachoeiras que oferecem opções de lazer a toda a comunidade. A barragem comportará 141 bilhões de litros de uma mistura de resíduos sólidos e água proveniente do processo de beneficiamento do minério.

Sobre a implantação do Projeto Apolo, a Companhia Vale, em nota, esclarece que “o empreendimento está em fase de licenciamento, seguindo rigorosamente os trâmites legais. O projeto abrange os municípios de Caeté, Santa Bárbara, Raposos e Rio Acima. O Estudo de Impacto Ambiental já foi protocolado na Supram. Cumprindo o processo de licenciamento, a previsão é iniciar a implantação em 2011 e começar as operações em 2014. Na fase de obras devem ser gerados cerca de dois mil empregos e na operação aproximadamente mil postos de trabalho. Cinco Audiências Públicas para discutir o projeto com as comunidades já foram realizadas nos municípios de Caeté, Raposos, Nova Lima, Rio Acima e Santa Bárbara. A Vale tem uma larga experiência na implantação de projetos de mineração e sempre esteve totalmente aberta tanto ao debate público, quanto com autoridades, entidades e instituições representativas da sociedade. A exemplo de todos os projetos anteriores, a Vale estuda a implantação de Unidades de Conservação na região de abrangência”.

Muito além do minério

Passear pela Serra da Gandarela é percorrer um mosaico de ecossistemas conservados, com diversidades biológicas e estruturas geológicas de relevante significado e considerável riqueza paisagística. Vigiado pelos picos do Itabirito e do Itacolomi, pelas serras do Curral, Piedade e Caraça, este imenso paraíso, ainda pouco conhecido, esconde mamíferos como o Lobo Guará, a Anta e tem potencial para abrigar a Onça Pintada, e também além de acolher espécies arbóreas, como jacarandá, candeia, braúna e peroba.

A imponência de seu relevo, que privilegia altas declividades por onde despencam águas cristalinas, formando dezenas de cachoeiras, algumas com mais de cem metros de altura, faz desta serra um recinto privilegiado para exploração do ecoturismo, uma atividade econômica que utiliza de forma sustentável o patrimônio natural e cultural da região.

De acordo com documento publicado em 2008 pelo Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais (IEF), a Serra da Gandarela configura-se como uma região de alta relevância, identificada como área prioritária de preservação permanente do setor sul da RMBH:

“Trata-se de uma ampla região com baixa ocupação antrópica, havendo extensos e diversos ambientes naturais preservados. Concentra-se neste Setor
um grande número de cursos d’água contribuintes da margem direita do rio das Velhas, representando significativo volume de água utilizado no abastecimento da população da Região Metropolitana de Belo Horizonte”.

Rica em nascentes de água com os melhores padrões de qualidade do mundo, a Serra da Gandarela é o mais importante manancial de abastecimento do Rio das Velhas, acima da captação de Bela Fama, região que fornece cerca de 60% da água consumida por Belo Horizonte e 45% da água que abastece a Região Metropolitana.

Último reduto ambiental

No seu interior também está o Conjunto Natural, Paisagístico e Paleontológico Bacia do Gandarela, tombado pelo município de Santa Bárbara. Nele é possível encontrar depósitos de fósseis, sobretudo de espécies vegetais, que remontam a história das grandes mudanças climáticas e ambientais que ocorreram entre de 10 e 40 milhões de anos atrás. Essa região ainda revela vestígios da ocupação colonial, com seus caminhos, minas antigas e casas fortes, integrando assim, o roteiro do Ciclo do Ouro de Minas Gerais.

Como o último reduto ambiental da Região Metropolitana de Belo Horizonte, rico em biodiversidade, cavernas, cachoeiras, lagoas, sítios históricos, paleoambientais e hídricos, a Serra da Gandarela requer medidas de proteção urgentes para que o seu patrimônio natural seja preservado. Utilizar recursos naturais sem comprometer sua preservação, fazer proveito da natureza sem devastá-la e buscar a melhoria da qualidade de vida de sua população torna-se uma operação obrigatória para que as próprias organizações de empreendimentos minerários prosperem.

A exigência total da rentabilidade imediata pode ainda dominar, mas não continuará assim indefinidamente. Mesmo que o desenvolvimento realmente sustentável ainda esteja longe de dispor dos meios técnicos e sistemas reguladores dos quais necessita, ele já começa, aqui, a alimentar as controvérsias públicas sobre a atividade mineradora e o futuro da região, alterando assim, certas práticas que antes eram impensáveis.



Serra da Gandarela: Grandes extensões de Campos Rupestres sobre Canga Ferruginosas, um tipo de formação rochosa que serve como um mecanismo de filtragem natural de água, que propicia a formação de reservas naturalmente puras.

Festa a Nossa Senhora da Cruz, em Cruz dos Peixotos. Nas festas religiosas, a população local também reza pela preservação das nascentes, dos bichos e das plantas.

A Serra da Gandarela guarda as mais importantes (e uma das últimas) reservas da vegetação de canga ferruginosa do Brasil.

A imponência do relevo da Gandarela, que privilegia altas declividades por onde despencam águas cristalinas, formando dezenas de cachoeiras, algumas com mais de cem metros de altura, faz desta serra, um recinto privilegiado para exploração do ecoturismo.

Passear pela serra da Gandarela é percorrer um mosaico de ecossistemas intactos, com diversidades biológicas e estruturas geológicas de relevante significado e considerável riqueza paisagística.

A paisagem árida da atividade da mineração, decorada pelos exóticos eucaliptos.