Os sertões pelas suas veredas

Fotos Acervo Instituto Moreira Salles / Maureen Bisilliat
Por Maureen Bisilliat

A João Guimarães Rosa

"Comecei a conhecer os sertões pelas suas veredas. Tudo iniciou em 1963, quando ganhei de um amigo um exemplar de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa — não sem a observação de que talvez não conseguisse compreender a linguagem especialíssima do autor. Não só compreendi como mergulhei nas águas daquele mar de palavras — o sertão não viraria mar? —, inspirada e instigada a investigar a relação direta de Rosa com os gerais de Minas Gerais.

Desloquei-me para lá e, ao voltar de cada viagem, ia visitar o escritor, então chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras do Itamaraty. Levava, a cada encontro, um calhamaço de fotografias captadas nas terras do autor de Sagarana, e, atrás de cada uma, ele anotava detalhes — nome, idade, solteiro, casado ou viúvo, lugar de encontro, como e quando etc. —, recebendo através das imagens mensagens dos gerais.

No final de nossas reuniões, ele sempre me acompanhava até o elevador e me desejava uma boa próxima viagem, dizendo estar certo de que eu, como irlandesa, iria compreender os eflúvios poéticos dos gerais, devido à semelhança entre aquela região e a Irlanda (“Irlandesa Cigana” foi, aliás, como ele me apelidou, teria ele entrevisto alguma ancestralidade cigana nos meus cabelos longos, roupas amplas, sandálias no pé?).

Anos depois desses nossos encontros, fui visitar sua viúva, dona Aracy, no prédio onde eles tinham morado em Copacabana, Posto 6. Lá, ela me levou até uma pequena sala, entre os rochedos e o mar, e contou que fora ali que Rosa escrevera seu Grande Sertão. “Noite após noite”, confidenciou-me, “eu levava para ele duas ou três trocas de pijama, pois enquanto escrevia transpirava muito, banhando-se em suor. Ele me dizia que recebia a obra assoprada, sendo ele apenas receptor.”

 

“Equivalências fotográficas”

Fotógrafa e documentarista, Maureen Bisilliat é diretora do Pavilhão da Criatividade do Memorial da América Latina desde sua criação em 1989. Nascida na Inglaterra chegou ao Brasil em 1952 e aqui se radicou, considerando ser este o seu país. Iniciou na fotografia em 1962, tendo atuado por dez anos nas revistas Realidade e Quatro Rodas, em atividades de fotojornalismo.

Estas “andanças” resultaram na elaboração de um projeto que traçou as “equivalências fotográficas” dos mundos retratados por Euclides da Cunha, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto e Adélia Prado. Posteriormente, publicou em livros os resultados desse traçado. De 1972 a 1977, visitou com freqüência o Xingu. Em 1979, lançou, em co-autoria com os irmãos Villas Bôas, Xingu/Terra, instalada na XIII Bienal de São Paulo (1975). Em 1988, foi convidada por Darcy Ribeiro para contribuir na criação de um acervo de arte popular latino-americana, do qual nasceu o Pavilhão da Criatividade.

Seu envolvimento com a Casa de Detenção Professor Flamínio Fávero começou com a documentação, em vídeo, dos trabalhos da equipe do Teatro no Presídio (1986-89) tendo continuado com o projeto Talentos Aprisionados (1998-2001) e encerrando com a organização da publicação AQUI DENTRO / Páginas de uma Memória (Memorial da América Latina / Imprensa Oficial do Estado, SP 2003).

Em 2003 o Instituto Moreira Salles adquiriu seu acervo fotográfico publicando, em outubro de 2009, um livro sob título FOTOGRAFIAS / Maureen Bisilliat. Esta publicação foi acompanhada por uma exposição, apresentada inicialmente no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro e atualmente em cartaz na Galeria Sesi/Fiesp, na cidade de São Paulo.



Foto Maureen Bisilliat / Acervo Instituto Moreira Salles. Cruzando rio na chegada ao pé da serra das Araras, próximo de Montes Claros, MG, 1966.

Foto Maureen Bisilliat / Acervo Instituto Moreira Salles. Retrato de Manuel Nardi, inspirador do conto “Manuelzão e Miguilim”, de Guimarães Rosa, Andrequicé, MG, 1966.

Foto Maureen Bisilliat / Acervo Instituto Moreira Salles. Boiada, do ensaio A João Guimarães Rosa, MG, 1966.

Foto Maureen Bisilliat / Acervo Instituto Moreira Salles. Homem em sua casa perto de Lassance, MG, 1966.

Foto Maureen Bisilliat / Acervo Instituto Moreira Salles. Gentes em suas casas perto de Lassance, MG, 1966.

Foto Maureen Bisilliat / Acervo Instituto Moreira Salles. Recém-casados, Serra das Araras, MG, 1966.

Foto Maureen Bisilliat / Acervo Instituto Moreira Salles. Gentes em suas casas perto de Lassance, MG, 1966.

Foto Maureen Bisilliat / Acervo Instituto Moreira Salles. Recém-casados, Serra das Araras, MG, 1966.