Culto às almas

A crença e a fé no poder das almas ali enterradas movem para a vida numa grande festa — realizada no dia 15 de agosto desde os tempos do Brasil Colônia — a pitoresca localidade de Cemitério do Peixe, encravada no município de Conceição de Mato Dentro.


Por Laura Ordóñez
Fotos Francilins  

Era noite de fevereiro, sob o céu estrelado do sertão mineiro e, do alto do morro, avistamos pela primeira vez o "Cemitério das Almas do Peixe". A pequena cidade estava ali embaixo toda iluminada, silenciosa, com sua igreja, o cemitério e as quase 300 casinhas brancas com telhados de barro emolduradas pelas caudalosas águas do Rio Paraúna e a imponente Serra do Camelinho. Havíamos percorrido 250 quilômetros desde Belo Horizonte pela estrada que leva a Diamantina e, 60 quilômetros antes de chegar à cidade histórica, pegamos um desvio à direita por um caminho de terra.

Depois de 40 minutos, paramos então para contemplar aquele "presépio", localizado no município de Conceição de Mato Dentro. Subitamente, alguém bateu na janela do carro. Que susto! Era o "Zezinho", uma das duas almas vivas do vilarejo, um guardião, que, como o vento, chegou sem anunciar. Passado o medo recíproco, ele nos guiou pelas ruazinhas de grama abundante com suas casas desocupadas, muitas delas com as portas e janelas abertas. Quando chegamos ao cemitério, a mensagem gravada na placa do cruzeiro interpelou-nos como se fora a serena Morte anunciando: "Ó tu que vens a este cemitério, medita um pouco nesta campa fria: eu fui na vida o que tu és agora, eu sou agora o que serás um dia". Estávamos na Cidade das Almas!


Peregrinação

A crença e a fé no poder das almas ali enterradas são o motor dessa particular "cidade" e da festa que a faz florescer ano pós ano. "A gente é devota às Almas demais da conta! Dos nossos velhos que estão tudo aqui enterrados", afirma João Domingos. A Festa às Almas e a São Miguel, que acontece na semana de 15 de agosto, transforma drasticamente o panorama de solidão, silêncio e tranqüilidade do vilarejo. A aridez do mato seco e hostil junto ao amarelo abundante e generoso das flores dos ipês anunciam a peregrinação dos mais de cinco mil romeiros, desde os mais diversos cantos, para se encontrarem no Cemitério do Peixe. Como jabutis, as famílias literalmente carregam suas casas nas costas. Trazem colchões, cobertores, mantimentos, panelas, enfim, tudo o que é necessário para que uma casa temporária com muitas pessoas funcione. Os peregrinos valem-se dos mais variados meios de transporte para chegar: vêm a pé, a cavalo, com carros-de-boi, carroças, bicicletas, motos, carros, ônibus e caminhões lotados.

O senhor Graciliano, 86, aproveita a viagem com a mulher, filhos, genros, noras, netos e até o cachorro, para ensinar ao seu bisneto a difícil ciência de tocar o carro-de-boi. Já Dona Ana Moreira, com 60 anos, depois de quatro horas de caminhada, atravessa o rio com grande parte da mudança em cima da cabeça, trazendo na bagagem a expectativa do reencontro com o seu povo. "Tem gente que até pára de tirar leite, larga o serviço e vem embora. Eu tenho um tio que trabalha na fazenda, se não dão folga para ele vir à festa, ele larga o serviço e vem assim mesmo... Ele prefere perder o serviço que perder a festa!", conta André, morador da região, entre risos.


Origens africanas

O culto às Almas no Cemitério do Peixe, segundo a memória oral do povo, remonta aos tempos do Brasil Colônia. Diferente da Festa aos Mortos no México, cujas raízes são indígenas, a Festa às Almas no interior de Minas Gerais evoca origens africanas. "Antes de qualquer missa no local, à beira do rio Paraúna, havia pequenos cultos, orações e fogueiras acesas do pessoal da raça negra, em louvor aos seus mortos enterrados ali... o lugar já era utilizado como cemitério há pelo menos 300 anos", conta João de Vinim, fazendeiro da região.

Afirma-se que, no começo do século XX, Antônio Francisco Pinto, o "Canequinho", doou as terras onde está a cidade para as Almas e registrou na Mitra de Diamantina. Por pertencerem às Almas, essas terras não estão à venda. Religioso e poderoso financeiramente, ele incentivou a atividade comercial entre romeiros e promoveu a entrada oficial da Igreja Católica na festa, que se torna Jubileu. Devido a isto, São Miguel, o arcanjo defensor das almas no purgatório, que luta contra o demônio e salva os justos para a imortalidade, é incorporado ao culto e torna-se padroeiro da região.


Fé enraizada


Independente das transformações ao longo do tempo, a fé se renova e permanece enraizada nos corações dos romeiros. "Igual tá meu pessoal ali, meu pessoal mais velho que morreu: acabou, né? Virou osso, virou pó..., acabou. Mas a fé que a gente acha é que ela tá ali e ela não tá... cada um já subiu pra seu lugar que Deus colocou… então a gente tá naquela fé às Almas, mais ali não tem alma, não tem nada... mas o pedido que a gente faz ela ouve", explica Lotinha, mãe do Zezinho, que tem três gerações sepultadas no Peixe, incluindo o marido. Os festeiros, ou seja, as pessoas que a cada ano organizam a festa, chegam antes para realizar a preparação do vilarejo. Cortam a grama, pintam as casas, arrumam a igreja e o cemitério, que, como se soubesse do evento, exala o perfume dos jasmins que crescem entre os túmulos. As casas enchem-se de pessoas, os fogões de lenha são acesos, centenas de barracas são levantadas, botecos começam a funcionar, assim como a delegacia. Velas, cigarros, flores e terços são caprichosamente usados como oferendas e enfeites nos túmulos, no altar e no cruzeiro central. Desde o primeiro dia, os romeiros visitam o cemitério para cumprir promessas e fazer pedidos aos parentes enterrados ali. Há inúmeras versões em torno da origem do Cemitério e da pequena cidade que se construiu em torno. Uma delas diz que por essa região passava uma rota de contrabando, via secundaria à Estrada Real, e que os portugueses construíram por ali um quartel militar para fiscalizar o tráfico de ouro, diamantes e metais preciosos.

Sagrado e profano

Segundo consta, o nome do povoado vem do enterramento de um altíssimo número de policiais, que morreram por causa de uma intoxicação com peixe estragado, criando-se o cemitério para os defuntos. Outra das histórias conta que um escravo chamado Peixe desapareceu enquanto transportava um diamante para o seu senhor. Apesar dos rumores de furto, o português, que confiava muito em seu serviçal, saiu em sua procura e o encontrou morto onde hoje está o cemitério, com o diamante guardado. Em ambas as versões, a data da morte, dos policiais e do escravo, é 15 de agosto. Dizem que a primeira missa católica foi celebrada nessa data, que coincide com o dia da Ascensão de Nossa Senhora. Ainda que o cemitério seja bem visitado este mês, devido ao Dia de Finados e, em 29 de setembro, devido ao dia de São Miguel, a grande comemoração acontece em agosto.

Sagrado e profano se mesclam durante as celebrações às Almas e a São Miguel, sendo os dias mais intensos sábado e domingo. O sufocante calor do dia e o vento frio da madrugada passam inadvertidos para os romeiros que não querem perder nem um minuto, como diz Eunice em meio à confusão: "A gente aproveita mesmo a festa para ver todos os nossos parentes, os amigos, os conhecidos e fica só por conta disso".

Sábado à tarde, inicia-se a festa religiosa com a chegada da cavalgada. À noite, a Folia é saudada com a queima de fogos de artifício, durante a condução da bandeira de São Miguel até seu levantamento no mastro. Na "rua do fogo", as cantigas religiosas cedem lugar ao sertanejo e ao funk estridente emitido por poderosos alto-falantes, para desespero do padre. Não é à toa que uma das músicas mais cantadas diga "beber, cair e levantar!".

Travessia de regresso

O domingo começa com a missa das sete horas, em nome das Almas. Às onze acontece outro sermão para aqueles que não conseguiram acordar. No entardecer do domingo, depois da procissão luminosa em volta do vilarejo, inicia-se o fechamento da festa. Os romeiros empacotam novamente suas casas e se aprontam para a travessia de regresso. As famílias que cruzam o rio expressam nos seus rostos a alegria vivida nos últimos dias e muita disposição, apesar do cansaço, para encarar o caminho de volta. Maria dos Anjos carrega orgulhosa as rosas vermelhas que ganhou do namorado, mostrando que não só as Almas foram presenteadas. Pela saída da estrada de terra o panorama é de muita poeira e agitação. Entre a bagunça e a arrumação, alguns motoristas de ônibus buzinam histericamente para apressar aos romeiros atrasados que não querem partir.

Nessa festa são as Almas dos familiares mortos que reúnem os parentes vivos, dando continuidade aos vínculos sociais e afetivos. O festejo também é a promessa do futuro, do encontro no ano seguinte, como diz a despedida entre os romeiros: "Até o próximo ano, se Deus quiser!".



Mais de cinco mil romeiros, vindos desde os mais diversos cantos, se encontram no Cemitério do Peixe para celebrar a sua fé nas almas.

Sagrado e profano se mesclam durante as celebrações às Almas e a São Miguel, sendo os dias mais intensos sábado e domingo.

A Festa às Almas no interior de Minas Gerais evoca origens africanas. Independente das transformações ao longo do tempo, a fé se renova e permanece enraizada nos corações dos romeiros.

Travessia de regresso: as famílias que cruzam o rio expressam nos seus rostos a alegria vivida nos últimos dias e muita disposição, apesar do cansaço, para encarar o caminho de volta.