ANTROPOFAGIA BEAT

Por Euclides Guimarães

 
Um novo espectro assombra o sujeito de nosso tempo. É a tarefa de construir sua identidade, seu sistema de valores, um sentido para sua vida ou uma nebulosa de significados que o equivalha. Em outros tempos isso nunca foi tarefa, ao contrário, nos era dado pela família, pela igreja, pela comunidade local, pela escola. Mesmo que tais instituições ainda pairem por aí, o que mais nos (in)forma hoje são as telas e estas, seja nas versões das mídias tradicionais, seja nas das novas, transformam o mundo num grande cardápio de novidades sedutoras, numa sociedade planetária do (hiper)consumo, em síntese, num gigantesco hipermercado. É a sagração da cultura consumista, que fez do poder aquisitivo o símbolo maior da liberdade, do prazer e da emancipação do indivíduo.

Outras civilizações viveram sob a égide de sistemas fortes de valores compartilhados. Mitos e religiões marcaram as culturas pré-modernas, grandes identidades nacionais caracterizam o limiar da modernidade, a polarização direita esquerda marca o auge da modernidade. Em todas essas doutrinas estavam embutidos rígidos códigos morais. Em morais rígidas não existe liberdade. Sofre-se por ter-se de curvar às tradições. Contra esse sofrimento, o mix antropófago da civilização brasileira construiu vacinas. A cultura popular contra a truculência e a ganância do colono europeu, o modernista contra um patriotismo que forcejava para que nos adaptássemos à ordem produtiva da era industrial, os tropicalistas contra o purismo militar dos golpistas da direita e dos militantes da esquerda.

Agora chegamos a um tempo de valores relativizados, onde nenhuma doutrina parece poder mais ser tão opressora ou poderosa. Um tempo de consagração das liberdades individuais, em que cada homem se faz a si mesmo como produto de suas escolhas. Mas nesse contexto acaba por emergir uma nova forma de opressão: livres para sermos quem quiséssemos, vimo-nos no desamparo de só poder ser alguém mediante o crivo do sucesso profissional e do poder aquisitivo. As promessas de felicidade, quase sempre condicionadas ao sucesso de projetos pessoais e que, mesmo assim, normalmente não passam de promessas, lançam-nos num mundo de prazeres datados e etiquetados, que por certo nos ameaça com o risco do abandono e o perigo da exclusão. Mundo não mais de conservadores e transgressores, não mais de virtuosos e pecadores, não mais de mocinhos e bandidos, mas de consumidores e excluídos.

A exclusão ao consumo torna-se assim a maior de todas as ameaças e olha que ameaças não faltam a um tempo que se instaura justamente por uma nova forma de lidar com o futuro. Fomos modernos enquanto o futuro era predominantemente esperança, tornamo-nos pós quando o futuro se converteu em um conjunto de ameaças. Bomba atômica, destruição ecológica, mudanças súbitas no metabolismo do planeta, muito da fauna e da flora em extinção, novas epidemias, o estresse, a depressão, mas nada mais assustador que o medo de cair na vala comum dos perdedores.

Em tais circunstâncias a pobreza vê sua dignidade ameaçada.

O Brasil sempre foi um país predominantemente pobre, malgrado nababescas fortunas. Disso resultaram formas criativas de prazeres baratos. O próprio futebol não teria virado símbolo nacional não fosse a possibilidade de ser jogado descalço com bolas improvisadas entre trapos e meias sem par. Paus ou pedras podem formar um gol. Nossas festas, nossos ritos, trazem sempre a marca do improviso e da criação sobre a escassez. Mais ainda da recriação, pois foram ritos oriundos dos povos seminais que aqui ganharam formas especiais. Ser pobre nunca foi fácil, o trabalho é árduo, por vezes escasso, o futuro é sempre muito incerto, mas para nadar no córrego não gasta dinheiro não.

Acontece que na sociedade do hiperconsumo a pobreza se transforma em punição. A humanidade se divide em incluídos e excluídos. Àqueles o desfrute das escolhas, o eterno perigo das más escolhas, a chance constante de subir, o medo de cair. A esses a impossibilidade de acompanhar o ritmo frenético das mudanças. “O de cima sobe, o de baixo desce”.

A voz do mangue emerge nos anos 90, vinda de remotos terreiros dos confins da periferia de Recife. É a voz do pobre que deglute o mundo ao seu redor, vê de tudo, imerge pelo cenário urbano de neons e fedentinas, extrai das telas as cores e as informações, ouve de tudo, consome o pop, ama o rock, lê almanaques e, entre zines e canções, faz uma música que sintetiza tudo isso, alicerçada nas bases do próprio terreiro. Os tambores do maracatu marcam o compasso de uma nova antropofagia, que traz preciosas lições.

O mundo se globaliza, uma grande massa informacional se internacionaliza, fronteiras nacionais ficam desbotadas e permeáveis. Navegar no universo informacional, livre da ameaça de se cair na deriva, exige técnicas aprimoradas. Alimentar as raízes ao mesmo tempo em que se alimenta delas é um segredo que brota dos mangues como uma nova versão da vacina antropofágica. Mixar a partir de múltiplas referências é pouco, é preciso fazê-lo com atitude e identidade. E mais uma vez dar voz ao bicho que nasce aqui. Houve a vez da onça carnívora, houve a vez do jacaré, houve vez do jabuti, houve a vez da cobra-grande. O caranguejo representa o homem novo que emerge da lama do manguezal, que circula entre os resíduos brilhantes do lixo atômico, as garças e os urubus, tirando disso uma essência fina de sobrevivência e possibilidades. Assim se devolve a dignidade e a brasilidade aos lugares de onde ela não pode sair e lançam-na àqueles que ela pode ocupar.

Todas as antropofagias viveram disso, cada uma dialogando e comendo dos dados que o tempo traz. E todas se ligam num enlace cultural de onde uma vem da outra por contaminações subterrâneas de uma complexidade que “nem eles mesmos sabem explicar”. Nos anos noventa e século XXI adentro o cancioneiro nacional ganhou nova força. Sob a influência do pop de Recife, e muito ainda dos clássicos velhos tropicalistas, a música mais uma vez auto-retrata-nos com precisão. Hip hops tropicais e funks engajados, trios elétricos de paredes rítmicas, paulicéias que desvairam com raízes míticas, forrós zucados, tambores eletrizantes, tudo brotando do “barro do chão da pista onde se dança”. E das montanhas de Minas o que ecoa? Me parece que vem por aí um tal de barroco beat.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC-MG.





Sob a influência do pop de Recife, e muito ainda dos clássicos velhos tropicalistas, a música mais uma vez auto-retrata-nos com precisão. E das montanhas de Minas o que ecoa? Me parece que vem por aí um tal de barroco beat.