As mais preciosas riquezas

A região metropolitana de Belo Horizonte ainda guarda estações e parques que encantam pela rica biodiversidade — abrigam exemplares raros da fauna e da flora —, oferecem amplas possibilidades para a pesquisa científica, tem enorme potencialidade turística e garantem preciosos mananciais de água para abastecer toda a região.

Por Rúbia Piancastelli
Fotos Paulo Baptista/João Marcos Rosa


 
Belo Horizonte, a capital dos bares, essa todos conhecem. Mas a preciosidade das reservas e estações ecológicas nos arredores da capital, com seus mananciais abundantes e espécies raras, vegetações típicas e até mesmo ruínas de outros séculos, ainda são pouco conhecidos.

A menos de 30 minutos do centro da cidade há uma grande ocorrência de Unidades de Conservação (UC’s) e importantes mananciais de água que abastecem grande parte da Região Metropolitana de BH. As principais são o Parque Estadual da Serra do Rola Moça (PESRM), a Serra da Moeda e a Estação Ecológica de Fechos.

Saindo do nível local e pensando de forma ainda mais abrangente, esses territórios abrigam relíquias vegetais e animais, além de formações raras no Brasil. Um exemplo são os campos sobre canga ferruginosa, encontrados apenas no Quadrilátero Ferrífero, em trechos da Serra do Espinhaço e no Pará, em Carajás. “Tanto o Rola Moça, Moeda e Fechos, tem ocorrências importantes de canga ferruginosa. São valiosos porque estão numa área muito restrita do território nacional, sendo que 40% de sua totalidade já foi dizimada. Isso indica ainda mais a necessidade de preservação dessas áreas”, afirma Francisco Mourão, biólogo da Amda (Associação Mineira de Defesa do Ambiente) e membro do Conselho do Parque Estadual da Serra do Rola Moça.

Cerca de 11mil hectares de campos sobre canga ferruginosa espalhados pelo mapa brasileiro revelam espécies vegetais como as canelas de ema, orquídeas, cactáceas, além de compostos como a sempre-viva e quaresmeiras. Dentre os principais responsáveis pela destruição de cerca de sete mil hectares, estão a mineração, a expansão urbana e obras de infra-estrutura.

Entre o Cerrado e a Mata Atlântica

As principais áreas da região metropolitana são o Parque Estadual da Serra do Rola Moça nas dependências de Brumadinho e Nova Lima (cerca de 3.900hec.), a EE de Fechos em Nova Lima (603hec.), e a Serra da Moeda em trechos de Moeda e Brumadinho. Todos estão a cerca de 20 km de Belo Horizonte. Todas fazem parte de um sistema maior, a Cadeia do Espinhaço.

O Rola Moça, a EE de Fechos e a Serra da Moeda estão em áreas limítrofes de distribuição dos biomas Cerrado e Mata Atlântica. Há ocorrência ainda de campos altimontanos, quartzíticos, rupestres e graminosos. Todos constituem manchas expressivas de biomas cujo nível de endemismo — presença de espécies típicas — é alto.

Cada tipo de vegetação dessas unidades de conservação tem suas propriedades particulares. O Rola Moça, por exemplo, é um dos únicos parques de domínio público que protege a vegetação de campos sobre canga ferruginosa. “Há 15 anos, quando essas áreas foram protegidas, dava-se pouco valor às suas riquezas vegetais e animais. Ultimamente, tem crescido o número de instituições que trabalham com esse ambiente, especialmente para realizar pesquisas”, observa Francisco Mourão.

Já as porções de Mata Atlântica, considerada uma floresta estacional semi-decidual, ocupa os fundos de vales e grotas, dentre outros locais. Nessas áreas, uma fauna específica revela o habitat original de onças pardas e tamanduás bandeira. Outras espécies como o lobo-guará, a lontra e o mico-estrela, também habitantes do Rola Moça, são exemplos da diversificação e do nível de risco de extinção das espécies.

Espécies em extinção

Para se ter uma ideia da riqueza da fauna e seus exemplares ameaçados, apenas na EE de Fechos foram identificadas 33 espécies de aves, dentre eles o sabiá-laranjeira, perdiz, tangará e soldadinho. Dentre essas, seis estão em extinção: chibante, mutum-do-sudeste, capoeira, macuco, pavó e jacu. Na turma dos mamíferos, são 20 espécies identificadas, como a raposa-do-mato, sagui, caxinguelê, gambá-de-orelha-branca, caititu, tatu-galinha, cuíca e cachoro-do-mato. As duas espécies em extinção são o gato-do-mato e o macaco sauá.

De uma forma geral, o conjunto da paisagem do Rola Moça, da EE de Fechos e da Serra da Moeda se diferencia pelas características geológicas e topografia acidentada. Em ambas as áreas é forte a vocação para a pesquisa e para ações de educação ambiental junto às comunidades da região — lembrando que a EE de Fechos, por ser unidade de proteção integral, tem como objetivo a preservação da natureza e a realização de pesquisas científicas, portanto é de acesso muito restrito à população em geral.

Salve a Serra da Moeda

Com destaque especial, a vizinha Serra da Moeda tem uma história estritamente ligada à Minas e ao Brasil. Antes mesmo da ocupação portuguesa nos anos 1600, a região foi palco de ocupações pré-coloniais, fato atestado pelas inscrições rupestres encontradas em suas grutas. Trata-se de um patrimônio espeleo-arqueológico que ainda reúne diversas grutas sem identificação. Sobretudo, Moeda ainda é marcada por ocupações modernas (do século XVII) que talharam seus trechos com fazendas, exploração mineral e cultivos agro-pecuários.

Ainda assim, Moeda mantém uma impressionante diversidade biológica e genética. Suas formações vegetacionais incluem matas de galeria e capões, além dos campos rupestres e sobre canga — já citados como ocorrência no Rola Moça e na EE de Fechos —, responsáveis por abrigar mais de um terço das famílias botânicas existentes no Brasil (citam-se as cactáceas, orquídeas, bromélias, ervas e arbustos). Esses trechos de campo sobre canga ferruginosa, estão cada vez mais pressionados pela BR 040 e a expansiva ocupação urbana.
Além das belezas naturais, atrativos históricos como as ruínas de um antigo forte — mais conhecido como Forte de Brumadinho (mais especificamente localizado na Serra da Calçada, contígua a Moeda) —, persistem no local desde o século XVIII. Além da antiga construção, um aqueduto que levava as águas das grotas para a mineração ilustra um passado que um dia poderá ser revisitado, assim que a proposta de criação de uma reserva particular for aprovada.

Além da proteção da área histórica, a Amda e outros organismos civis tem feito grande movimentação para preservar trechos restantes da Serra da Moeda. Dentre as propostas, está a criação de um sistema de áreas protegidas, atualmente em discussão junto ao Instituto Estadual de Florestas (IEF). Esse trabalho envolve os terrenos de áreas particulares, onde se pretende negociar a formação de uma grande estrutura de proteção junto a proprietários. Ronda ainda uma polêmica desses órgãos com a prefeitura da cidade de Itabirito, que deseja instalar um centro industrial sobre a região de campo sobre canga. “Isso seria algo destrutivo, impensável em termos de destruição ambiental”, conclui Francisco Mourão.

Abundância serra abaixo

Enquanto alguns contabilizam ganhos com o que seria destruído na natureza, outros usam parte de seu lucro para preservar ou recuperar áreas — seja essa atitude obrigatória por lei ou de iniciativa própria. A Copasa, por exemplo, é responsável por toda a região de Fechos, pois capta água de seus mananciais para o abastecimento dos bairros mais altos de Belo Horizonte. Ali mesmo desenvolve trabalhos como reconhecimento e perpetuação de espécies nativas, pesquisas nos biomas, com espécies animais em extinção e outras iniciativas mais.

Sobre a riqueza aqüífera da região, explica-se. O Parque Estadual do Rola Moça protege seis mananciais de água, sob o nome de Áreas de Proteção Especial: Taboão, Rola Moça, Barreirinho, Barreiro, Mutuca e Catarina. Já a EE de Fechos tem uma importante bacia — a do ribeirão de Fechos, também protegida. “São mananciais de pequeno e médio porte de grande importância: por um lado o fator qualidade da água e por outro sua localização. As fontes estão em altos níveis no relevo e assim a maior parte do transporte é feito por gravidade”, explica Francisco Mourão.

Plano de Manejo

Mesmo sendo protegido por lei há mais de 15 anos, o Plano de Manejo que identifica as atividades necessárias ao gerenciamento e manejo do Rola Moça e de Fechos ficou pronto apenas em 2002. Realizado de forma conjunta por entidades públicas (como a UFMG) e privadas (como a PUC, empresas e consultores), o trabalho foi coordenado pela Fundação Biodiversitas.

Dentre as conclusões, a principal é de que o meio está ainda muito descaracterizado quanto a sua formação original —constatação feita após pesquisas e diagnóstico dos recursos naturais, físicos e bióticos, além das interferências humanas. A partir desses dados foram elencadas propostas para as áreas tanto de uso público quanto de conservação, que permitam visitação, mais pesquisas e recuperação.

Além da necessidade de revisar constantemente o Plano de Manejo, a superintendente técnica da Fundação Biodiversitas, Gláucia Moreira Drummond, destacou — na época do lançamento do trabalho — o desafio que é o de mudar a percepção e a atitude da sociedade em relação à área.

Um dos detalhes do Plano que merece constante atenção é a demarcação das áreas do parque, quesito que ainda apresenta pontos de confusão. Francisco Mourão, como membro do Conselho do Rola Moça explica: “Insistimos com o IEF para que ele conclua o processo de regulamentação fundiária de compra de áreas. Aproximadamente 90% das áreas do Rola Moça e de Fechos são de domínio público. Os cinco a dez por cento restantes são ainda de propriedade particular, o que gera uma situação de dificuldade quanto ao controle da área como um todo”. Esse restante de área particular é foco principalmente de criação de gado, o que agrava os problemas de incêndio devido à prática do pastoreio.

Passivos ambientais

Outro velho problema é o da mineração, que na década de 80 consumiu e depredou grandes áreas da região do Quadrilátero, onde se localizam as Unidades de Conservação citadas. A antiga extrativa Paraobeba — hoje a mina de Casa Branca, iniciou suas atividades de forma irregular, licenciada pelo Copam e questionada por órgãos como a Amda. Após decisão judicial de paralisação das atividades, viu-se o tamanho do passivo ambiental gerado —uma cratera e barragens instáveis até pouco tempo atrás. Hoje, a empresa que assumiu os direitos minerários da região, a MMX, está fazendo a devida recuperação, iniciando um processo de licenciamento ambiental para operar de forma legal. Espera-se que, com essas medidas, haja uma reabilitação definitiva da área.

Outras antigas minas que estão tentando se licenciar são a Santa Paulina e a Mar Vermelho, hoje operada pela empresa Rio Verde. O ideal é que, depois que as medidas forem tomadas para a reabilitação das minas, essas sejam incorporadas às Unidades de Conservação, constituindo corredores ecológicos que interligam Fechos, Rola Moça e Moeda.

Como atividades em curso que priorizam a conservação e preservação do Parque Estadual da Serra do Rola Moça e de Fechos, estão a Campanha Anual de Combate e Prevenção de Incêndios Florestais; o levantamento preliminar da fauna de pequenos e médios mamíferos e da avifauna; o Plano de Reintrodução de Espécies da Avifauna — aquelas ameaçadas de extinção; levantamentos florísticos, de anfíbios, pequenos mamíferos e morcegos, além de biossegurança institucional.



Foto Paulo Baptista. A menos de 30 minutos do centro de Belo Horizonte há existem preciosas Unidades de Conservação (UC’s) e importantes mananciais de água que abastecem grande parte da Região Metropolitana.

Foto Paulo Baptista. Rola Moça, Moeda e Fechos tem ocorrências importantes de canga ferruginosa, uma formação muito rara no Brasil.

Foto Paulo Baptista. Os mananciais de pequeno e médio porte são de grande importância pelo fator qualidade da água e por suas estratégicas localizações.



Foto João Marcos Rosa. Relíquias vegetais e animais, além de formações raras no Brasil, estão abrigadas nas reservas do Rola Moça, de Fechos e na Serra da Moeda.

Foto João Marcos Rosa. As Unidades de Conservação abrigam importantes espécies da fauna e da flora, inclusive as ameaçadas de extinção.