O eterno sonho da (pós) modernidade

Sobre o vale do Ribeirão do Arrudas, ao pé das suaves ondulações da Serra do Curral, num terreno composto de minerais de ferro e calcário, a área destinada à construção da grande cidade oferecia um raro espetáculo aos olhos. Do antigo arraial d´El Rei pouca coisa restou. Era preciso começar do zero, romper com o passado, para criar a primeira cidade planejada do Brasil: Belo Horizonte. Quase 113 anos depois, que serão completados em Dezembro deste ano de 2010, BH passou por desconstruções, reconstruções e contruções — tudo em meio a contradições, fragmentações, vivências e efervescências.


Reportagem Ana Carolina Diniz
Fotos Francilins e Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte/Coleção José Góes

Em 1890, Afonso Pena, então presidente das Minas Gerais, convida o engenheiro Aarão Reis para dirigir os estudos e as obras da nova capital do Estado. Nos anos seguintes até o ano de sua inauguração, em 1897, a cidade vira um grande canteiro de obras. Operários enchendo e esvaziando carroças, dinamites explodindo pedreiras, carros-de-bois trazendo grandes cargas de madeira, pedra, tijolo, telha e, claro, muita terra vermelha.

Aos poucos essa paisagem empoeirada vai se ordenando e ganhando ares de nova capital. Dentro dos limites da Avenida 17 de dezembro (atual Contorno), a cidade sonhada, moderna, higiênica e saudável vai sendo construída, sem relação com o passado.

Nada de casas feitas de pau-a-pique, ruas estreitas e praças irregulares. Ao contrário, a rigidez de seu traçado ortogonal, a imensidão das ruas e avenidas arborizadas e a harmonia de sua arquitetura eclética completavam as intenções do plano de uma cidade construída com vistas para o futuro. Nada deveria ser parecido com o passado colonial barroco. E de fato, por algum tempo, nada foi.

No plano original, a cidade estabelecia três zonas espaciais. A zona urbana, compreendida pela Avenida do Contorno, a zona suburbana, que circundava essa área e que serviria de futura área de expansão e, a zona rural, externa a essa última, destinada a se tornar o cinturão verde da cidade.


Contradições


No entanto, ao traçar no papel o seu plano de cidade, o engenheiro não previu que ela possuía vida própria, vontade própria. Foi assim, que mesmo antes que seu plano tomasse corpo, a cidade contrariou a ideia de seu criador, crescendo de fora para dentro, ou seja, fora dos limites da Contorno, numa área nem tão racional e moderna. Se em 1912, a área suburbana comportava 70% dos belo-horizontinos, a área central da cidade ainda era um imenso traçado caracterizado por uma uniformidade estarrecedora e um desolado vazio populacional.

Pouco a pouco, a cidade vai sendo preenchida. A recém-instalada Praça da Liberdade, sede do poder executivo, materializaria toda uma identidade moderna que a cidade tanto aspirava para si. Nos seus arredores, o bairro Funcionários, destinado a abrigar os burocratas e, perto dali, em uma área pantanosa, o Parque Municipal, que hoje conserva apenas um terço da sua área original.

Surgia a cidade anunciada nos jornais de todo o país. A capital moderna dos tradicionais mineiros das Minas. Uma cidade cheia de contradições, que já nasceu moderna, mas que ainda hoje mantém fortes laços com a tradição. Sagrada e profana, provinciana e impessoal foi assim que surgiu a primeira cidade sonhada do Brasil.

“Belo Horizonte é o centro corográfico do vale do rio das Velhas, calcário, ameno, claro, aberto à alegria de todas as vozes novas”. (Guimarães Rosa).

Vivências

Nas primeiras décadas do século passado, já era possível encontrar os primeiros vestígios de vida social na nova capital das Minas. A população formada pelos antigos curralenses, pelos servidores ouro-pretanos e pelos imigrantes europeus, pouco a pouco vai moldando o caráter desse mineiro considerado “o menos mineiro dos mineiros”.

Dos antigos habitantes do Arraial d´El Rei vem o ar discreto e sempre desconfiado. Do passado colonial barroco, a elegância e a timidez excessiva. Dos imigrantes, a coragem e a honradez italiana, misturada com a religiosidade e a personalidade taciturna dos portugueses. E dos Bandeirantes, o espírito desbravador e o costume de poupar riqueza, que durante décadas esteve escondida debaixo dos colchões das casas.

Toda essa população começa a povoar a imensidão vazia dos bulevares da cidade, criando os primeiros espaços de sociabilidade da vida urbana emergente. Operários, imigrantes, antigos moradores, engenheiros, arquitetos, paisagistas, intelectuais, artistas e boêmios cruzavam-se no vaivém dos passeios de bonde, nos footings da Praça da Liberdade, no subir Bahia e no descer Floresta, nas sessões de cinema no Avenida ou no Pathé (ainda na Afonso Pena) e no caminho das missas dominicais.

Efervescência

Foi nessa época também que um grupo de jovens escritores começa a “conspirar” quebrando a mesmice e perturbando a paisagem pra lá de pacata da cidade puritana. Esses jovens talentosos, chamados de modernistas, eram Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Emílio Moura, João Alphonsus, Martins de Almeida, Milton Campos e, mais tarde, Afonso Arinos e Cyro dos Anjos. Na época, apesar de Drummond ser apenas um jovem franzino, sonhador e tímido de Itabira, eram dele as críticas mais incendiárias aos bons costumes mineiros.

Paralelamente a essa efervescência cultural, a cidade crescia a todo vapor. Casas e prédios comerciais eram erguidos, rede de ensino público e rede hospitalar eram ampliadas e pequenas indústrias eram instaladas bem próximas à Praça da Estação. A economia de base agrícola e extrativista começava a se diversificar e a insuficiência da pequena área industrial fez com que a Cidade Industrial de Contagem emergisse como o parque industrial dos mineiros.

A cidade planejada com vistas para o futuro vai aos poucos se verticalizando. Antigos sobrados cedem lugar aos primeiros prédios e os carros ganham as ruas, dividindo o espaço antes exclusivo dos bondes. Da cidade empoeirada à cidade vergel, em sua busca cotidiana pelo progresso, pela modernização e pelo desenvolvimento, é assim que Belo Horizonte abre a década de 1940.

“Com prazer acompanhávamos a construção de Pampulha. Às vezes de lancha, para ver melhor teus prédios nas verdes águas refletidas. E depois, muito depois, como me senti reconfortado ouvindo, em Paris, do meu amigo DeRoche: “Ah! Pampulha... Foi o grande entusiasmo da minha geração!”” (Oscar Niemeyer)

Sonho de modernidade

Já no início dos anos 40, a cidade conta com 220 mil habitantes. É um período de intensa modernização e crescimento. A Praça Sete vira centro financeiro e as indústrias vão se deslocando para o eixo oeste, concentrando-se na recém-lançada Cidade Industrial. O traçado viário desenvolve-se e o bonde começa a perder a primazia para o ônibus.

Intensifica-se o processo de verticalização do centro. Edifícios públicos imponentes são erguidos, o perímetro urbano se expande e a cidade começa a exportar a sua Serra. Mas é também a década da modernidade, da Pampulha, da proveitosa parceria entre Kubitscheck e Niemeyer, que encontra em Belo Horizonte o espaço ideal para a realização de seus sonhos.

Com a missão, como na época de sua fundação, de simbolizar o progresso e o desenvolvimento mineiro, a cidade é guiada para o Norte, através da construção da barragem da Pampulha e seu complexo turístico moderno. Pelas mãos de Niemeyer, Portinari e Burle Marx nasce o marco da arquitetura moderna brasileira, uma obra revolucionária, onde liberdade e fantasia se juntam para romper com o passado provinciano. Além da Pampulha, o Conjunto JK e o Edifício Niemeyer, emergem no horizonte, transformando a paisagem da cidade e concretizando seu sonho de modernidade.

Já no plano das artes plásticas, a figura de Guignard e sua luta contra a tradição da arte acadêmica marcam uma época de experimentações e de encorajamento das diversas potencialidades contidas na individualidade de cada artista. Como artista, ele seria responsável pela inauguração do Modernismo nas artes plásticas e, como e professor, pela perpetuação desse espírito liberto nas gerações seguintes.

Por todos os cantos e esquinas da cidade, pregam-se novos tempos. A Universidade Federativa atrai milhares de estudantes do interior que passam a circular nos cafés, cabarés e livrarias da cidade. Dentro da área urbana, surgem os bairros de Lourdes, Santo Agostinho e Barroca e, fora desse perímetro, a Cidade Jardim e o Sion. A moradia vertical chega à cidade e os primeiros sinais de metropolização já se esboçam no horizonte.

“Cassetetes e revólveres me barram a subida que era alegria dominical de minha gente. Proibido escalar. Proibido sentir o ar de liberdade destes cismos, proibido viver a selvagem intimidade destas pedras que se vão desfazendo em forma de dinheiro. Esta serra tem dono. Não mais a natureza a governa. Desfaz-se, com o dinheiro uma antiga aliança, um rito da cidade. Desiste ou leva bala. Encurralados todos, a Serra do Curral, os moradores cá embaixo (...)”. (Carlos Drummond de Andrade)

Tempos de desconstrução

Sobre o governo de JK, a cidade desenvolve sua economia apoiada na bandeira “Energia e Transporte”. A frota de carros em circulação se amplia com a implantação da indústria automobilística mineira e os primeiros sinais de congestionamento das vias centrais já começam a aparecer. O charmoso bonde circularia pela última vez.

Belo Horizonte é agora reconstruída sobre os escombros de sua recente memória. Os arranha-céus ganham a paisagem e invadem os antigos bairros residenciais. Em nome do progresso, as generosas copas dos fícus na Avenida Afonso Pena são brutalmente arrancadas. Do tapete verde que ligava o rio a montanha já não resta quase nada. O homem se cala e a montanha se esvazia.

Da cidade racionalista do começo do século à metrópole em construção, Belo Horizonte começa a perder as suas cores. O caos urbano é um traço cada vez mais visível. A cidade não pára, ela se espalha por todas as direções. Seus antigos contornos já se fundiram há tempos, criando uma mesma massa corpulenta e robusta que se alastra através dos municípios vizinhos.

A aparência de constante improviso é uma das marcas mais característica dessa jovem metrópole. Os antigos espaços de sociabilidade consistem agora em meros lugares de passagem e a intensa vida cultural dos anos passados tenta resistir apesar da insólita rotina. São anos de exílios, de “milagre econômico”, de misérias e, também, de fortes ideologias.

Surgem os grandes conglomerados de consumo da cidade. Desprovidos de risco e desconforto, os shopping-centers substituem as degradadas praças e os violentos parques. As favelas se multiplicam nas encostas das serras e sitiam a riqueza. Um quarto da área total do centro da cidade transforma-se em estacionamento. O belo-horizontino abandona as ruas e se fecha cada vez mais entre concreto, aço e vidro.

Tempos de reconstrução

A quase centenária Belo Horizonte, já não se reconhece quando olha para trás. Com a paisagem do novo século surge também a emergência da cidade em se recriar. É preciso parar. Seus contrastes e conflitos exigem soluções claras e objetivas. A cidade clama por profundas mudanças de comportamento frente às exigências dos novos tempos.

Surgem programas de reformas das vias da área central e estruturação do sistema de transporte coletivo com a implantação do trem metropolitano, do complexo viário da Lagoinha, o túnel da Lagoinha e a implantação da Cristiano Machado.

Da primeira cidade planejada à terceira metrópole do país, Belo Horizonte tenta resgatar o que sobrou de sua memória. Inicia-se um programa de reformas e revitalização de seus antigos espaços públicos. Aos poucos as praças e os parques retomam o seu lugar de encontro e convívio social, dividindo o status de Ágora da mineiridade com o turbilhão de bares espalhados pelas esquinas da cidade.

E, o que diria Drummond, ao saber que a serra seria devolvida aos mineiros, quer dizer, o pouco que dela restou? Se estivesse vivo, talvez pudesse novamente desfrutar “a selvagem intimidade destas pedras” atravessando a portaria de acesso e controle do Parque das Mangabeiras, agora sem cassetetes e revólveres.

Fragmentação

A intensa ocupação e o uso desmedido do seu espaço físico natural revelam a urgência dessa megalópole em se redesenhar. A cidade cresce para o eixo Sul, privilegiando um tipo de urbanismo que se baseia em segurança, bem-viver e exclusividade. Cresce o número de condomínios fechados, o espaço onde o homem se reencontraria com a natureza.

A cidade agora abriga todas as tendências da arquitetura mundial, não há padrões nem estilos a serem obedecidos, tudo é plural. Mas apesar dessa abertura, a arquitetura contemporânea da cidade obedece à monotonia dos grandes paredões de concreto que impedem a passagem dos ventos frios e úmidos vindos do Sul. O clima ameno e temperado que atraiu os tísicos no começo do século 20, já não pode mais ser encontrado.

Agora, cada bairro tenta desenvolver a sua própria centralidade, criando autossuficiência de serviços públicos, comerciais e sociais. É a cidade a se fragmentar, se desmembrar para evitar o caos do sistema viário, do transporte coletivo abarrotado, da perda de tempo nos congestionamentos, da falta de espaço, enfim, da ausência de qualidade de vida.

O crescer ordenadamente se mostra uma grande falácia. A cidade cresce desigual, desequilibrada e desordenada. O homem sente toda a sua impotência diante desse organismo vivo, com vida e vontade própria, assim como Aarão Reis sentiria no começo do século passado. A pergunta que se coloca é mais sensata e menos apocalíptica: Como tornar Belo Horizonte mais habitável?

Tempos de construção

Quando chegou ao Brasil, no final da década de 1930, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss surpreendeu-se com a velocidade das transformações das cidades brasileiras. “Não só foram recentemente construídas, como estão para renovar-se com a mesma rapidez com que foram edificadas”.

Este trecho do livro Triste Trópicos, um registro de suas viagens ao interior do Brasil mostra o espanto do antropólogo francês, acostumado com a dinâmica europeia de urbanização, ao se deparar com a constante renovação das cidades do chamado Novo Mundo.

Apesar de descrever as cidades do começo do século 20, a frase de Lévi-Strauss ilustra perfeitamente a dinâmica urbana de algumas metrópoles brasileiras, em especial a capital mineira, que como nas primeiras décadas de sua existência, volta a crescer para o eixo Norte. Pelas mãos do mesmo arquiteto que projetou o Complexo da Pampulha, a cidade ganha mais um cartão-postal: a Cidade Administrativa Tancredo Neves.

A construção da nova sede do governo faz parte de uma tendência de crescimento do eixo Norte que começou com a transferência de voos para o Aeroporto Internacional de Confins, e mais tarde, pela implantação da Linha Verde. Além disso, o projeto visa assegurar o equilíbrio evolutivo da cidade, dispersando a concentração das atividades da área central e aproximando espacialmente atividades complementares, que antes eram distribuídas em 53 endereços da capital.

Paralelamente a esse projeto urbano, a cidade busca construir um ambiente cultural inédito com o circuito da Praça da Liberdade que contará com centros culturais, museus, memorial e espaços de conhecimento. Ao que tudo indica, parece ser o início do redesenho da cidade possível, quem sabe habitável.

Se Belo Horizonte caminha em direção ao equilíbrio e ao bem-estar, ainda é cedo para saber. Não se pode prever, mas certamente a capital dos mineiros das Minas e dos Gerais será dispersa e melhor que a atual. Caberá ao tempo revelar todas as suas potencialidades.
 


 

Foto Francilins.

Foto Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte / Coleção José Góes. Do antigo Curral d´El Rei, em foto de 1896, surgiu Belo Horizonte, a primeira cidade planejada do Brasil.

Foto Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte / Coleção José Góes. Vida urbana emergente: as pessoas cruzavam-se no vaivém dos passeios de bonde, nos footings da Praça da Liberdade, no subir Bahia e no descer Floresta, nas sessões de cinema no Avenida ou no Pathé (ainda na Afonso Pena) e no caminho das missas dominicais.

Foto Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte / Coleção José Góes. Início dos anos 40, BH com 220 mil habitantes: período de intensa modernização e crescimento; década da modernidade, da Pampulha, da proveitosa parceria entre Kubitscheck e Niemeyer.

Foto Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte / Coleção José Góes. Belo Horizonte, do alto, início da verticalização, 1948.

Foto Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte / Coleção José Góes. Nítidos sinais da efervescência cultural e econômica, BH se afirma como a capital de todos os mineiros.

Foto Francilins. Belo Horizonte tenta resgatar o que sobrou de sua memória (na foto o antigo prédio da Estação Ferroviária, hoje Museu de Artes e Ofícios): as praças e os parques retomam o seu lugar de encontro e convívio social.

Foto Francilins. A cidade busca construir um ambiente cultural inédito com o circuito da Praça da Liberdade (na foto, as curvas do edifício Niemeyer): início do redesenho da cidade possível.

Foto Francilins. O Palácio da Liberdade passa a ser a principal referência do Circuito Cultural Praça da Liberdade, mais um grande atrativo turístico da capital.

Foto Francilins. Como nas primeiras décadas de sua fundação, BH volta a crescer para o eixo Norte. Pelas mãos do mesmo arquiteto que projetou o Complexo da Pampulha, a cidade ganha mais um cartão-postal: a Cidade Administrativa (na foto que está na sequência).

Foto Francilins. Os edifícios Minas e Gerais da Cidade Administrativa.

Foto Francilins. Cidade Administrativa: projeto que visa assegurar o equilíbrio evolutivo da cidade, dispersando a concentração das atividades da área central e aproximando espacialmente atividades complementares, que antes eram distribuídas em 53 endereços da capital.