Pulsa a noite no baixo centro
 
São pais de santos, paus de arara, são passistas
São flagelados, são pingentes, balconistas
Palhaços, marcianos, canibais, lírios pirados
Dançando, dormindo de olhos abertos
À sombra da alegoria
Dos faraós embalsamados

João Bosco/Aldir Blanc, O rancho da goiabada

 

Por Marcos Martins
Fotos Francilins
 
O centro da capital pulsa, o calor ferve, uma orquestra de barulhos urbanos se eleva numa ode ao movimento de tanta gente. Tanta pressa em tudo, tanta mercadoria pra olhar, comparar e comprar. Um mundo de vendedores anuncia que a China tomou conta de tudo e os badulaques piscam, gravam, filmam. O aglomerado de gente que vem das franjas da região metropolitana deságua no hipercentro.

O tumulto cresce com o avanço da tarde até o clímax das seis horas e o Ave, Maria! cede lugar ao repertório de sucessos. Ainda estamos sob a luminosidade do horário escaldante de verão. A massa assalariada se agita então para terminar sua jornada. O batalhão de balconistas, auxiliares, seguranças e entregadores, agora, disputam o retorno para casa. Os ônibus e metrôs que antes vomitavam gente desde a manhãzinha, agora com força renovada, engolem essa leva comum e a conduz sem muito conforto de volta para suas casas suburbanas.

Contudo, uma outra vida se instala com o fim do expediente em Belo Horizonte. A paisagem noturna que vai tomando conta do centro e convoca uma outra multidão que não se resigna ao roteiro de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Enquanto as portas do comércio se fecham, outras se abrem e algumas se transformam, oferecendo a glória efêmera da noite como redenção dessa vida mais ou menos.

Um pequeno passeio ilustra essa vida pulsante de brilho, riso, cerveja e mesa farta. Sem cair no chavão dos roteiros turísticos típicos da capital, essa mirada de flanair segue por recantos e requintes muitas vezes ignorados pela média cultura, pelo suposto bom gosto consolidado da zona sul. O centro carrega uma das muitas faces desta metrópole, uma face que revela um povo mais festivo que a famosa fleuma do mineiro faz crer. A devoção, aqui, transfere-se para as garrafas e as amizades. Um prazer sensual desnuda os corpos e os põem para dançar e suar muito.

Começamos pelo alto, pelo panorama de uma cidade que vai se dando conta de sua condição metropolitana.

Em janeiro de 1960, Humberto Cotta, abriu seu scotch bar, no último andar de um dos grandes edifícios que começavam a tomar conta da Avenida Afonso Pena. O Top Bar fica na confluência da Rua Tamoios, de frente para a tradicional Igreja de São José. Ele tornou-se logo no início o ponto de encontro dos deputados, já que a Assembléia ficava ali perto e muitos dos distintos cavalheiros foram colegas de classe do proprietário do bar. Humberto iniciou os estudos de Direito, mas sua vocação era para o Mundo, foi para os Estados Unidos, lá serviu o exército, sediado na França, em 1953 e 54, durante a Guerra da Coréia. Conheceu mais de quarenta países, quando retornou ao Brasil abriu o Top Bar que tornou uma das tradições românticas desta cidade.

Aos poucos, a clientela foi mudando de face, os casais ocuparam cada vez mais espaço e hoje, 50 anos depois, o bar exibe aconchegantes mesas para dois e uma vista espetacular da cidade que favorecem o clima amoroso, assim como uma pequena pistas de dança, para os casais dançarem baladas do amor demais. O Sr. Humberto nos diz que a procura nos fins de semana é intensa, a ocupação do bar é máxima, mas o auge é no dia dos namorados, quando forma-se uma grande fila nas escadas que levam ao terraço fechado que constitui o bar e na portaria do prédio outra fila se forma dos que estão tentando entrar. Os garçons, neste dia, atendem o triplo de mesas.

Descemos deste altar do amor e nos dirigimos para o coração da região central. A Praça da Estação, o lugar por excelência do trânsito. O encontro dos vários sistemas de transportes favorecem a proliferação de lugares de passagem, lugares em que as pessoas permanecem por pouco tempo e cujo público se renova incessantemente. A primeira sexta-feira do mês, ou a mais próxima do pagamento, são as indicadas para assistir o espetáculo do centro. Na sexta-feira o salário volatiliza-se, ou melhor, produz um prazer imediato e libera as tensões acumuladas das últimas semanas sem dinheiro. Comamos e bebamos que amanhã morreremos. A entrega é total, não sobra nada, a noite é toda consumida e consuma-se em frenesi.

A etiqueta popular exibe-se em muitos contatos, a fala muito alta, uma performance corporal que às vezes intimida, ou que manifesta a camaradagem de uma maneira bruta, mas que é sempre ótima anfitriã.

Recuando da praça, nesta mesma sexta-feira, quinto dia útil do mês, acontecia sob a sombra do viaduto de Santa Tereza, marco emblemático das aspirações metropolitanas, o desafio do hip-hop, esta expressão americana de ritmo e poesia que caiu no gosto das gerações recentes e que encontra lastro nos improvisos, emboladas e calangos. Maneira de encaminhar a violência pelas palavras encomendando versos instantâneos ao sabor da música sincopada. Chamamento pós-moderno de entidades e formação de uma hierarquia cujo mérito é o de um pensamento veloz e uma idéia firme. O desafio realiza uma das mais bem sucedidas ocupações urbanas, apropriando do dimensão oculta que jaz sob o viaduto de Santa Tereza, preenche-lhe de vida, forrando as suas paredes com grafites numa profusão de informação, tão variada quanto a gente que se aglomera ali vinda das periferias e que vai instaurando vários círculos de dança, rodas em que a street dance ecoa. Assim como os desafios de versos, há também os desafios coreográficos numa competição conhecida como Seven to smoke, em que sete competidores de dança vão se revezando contra um líder; quem ganha passa a líder, que perde vai para o fim da fila e quem permanece no fim da vila vira fumaça.

O conjunto variado dos modos de habitar a Praça e seus arredores compõe o tapete estrelado dos hábitos noturnos dos que perambulam pelo centro. Passemos ao Edifício central, separado do desafio hip-hop por uma eloquente Igreja Neo-pentecostal. Esse edifício ergue-se solitário ao lado do ermo da Praça, aquela vastidão que precisa periodicamente ser cheia de gente. A forma monolítica desta construção atende à funcionalidade de um comércio que habita seus corredores e reserva o seu perímetro externo para a profusão de bares que alegram a vida dos transeuntes e se valem da fartura de pontos de ônibus no seu entorno.

Ali as pessoas vão e vem, misturam-se. Cada bar, uma confraria que varia desde o rococó até o bar básico, balcão e estufa. A jukebox é onipresente, ela é o instrumento da democracia musical, todos têm sua vez e os vários grupos encontram a chance de criar seu ambiente sonoro. Aqui não é tanto um lugar de comer, apesar dos torresmos e tropeiros generosamente regados a gordura animal. Os balcões compridos convidam a dar passagem e de lá se segue rumo às profundezas do centro.

Vamos até à Olegário Maciel, mas antes passamos para ver os últimos prazeres da Guaicurus. Por lá o expediente se encerra. Na Santos Dumont, travestis ocupam seus postos. O nosso destino é o Vagalume Dance Show. Devidamente equilibrados pelas cervejas prévias, a chegada a este santuário, por si só, já vale ter chegado até ali. Da porta para dentro, o Vagalume é outra dimensão à beira da rua. Um balcão a perder de vista e mesas num ambiente extremamente iluminado conduzem o olho do visitante diretamente à porta no fundo do bar. Ela abre e fecha e nesse movimento de entrada e saída, a música ecoa de lá de dentro assim como escapam chumaços de gelo seco. Luzes coloridas piscam lá dentro. Uma outra dimensão se abre por aquela porta. O salão de bailes é uma bolha dentro da bolha que o Vagalume constitui na região central da cidade.

Os seguranças guardam aquela entrada misteriosa. Entra-se em passo decidido, vai-se até o fundo e lá se consegue a franquia para entrar naquele mundo que faz a gente esquecer o que acontece de ordinário lá fora. É um tempo sem tempo, ninguém vê a Hora, uma música puxa outra, que puxa mais uma dança, um sucesso, um revezamento de par. O giro de gente é incessante. O bailado é irrepreensível. Luzes negras projetam-se sobre a as paisagens bucólicas de cenas rurais pintadas nas paredes. A luz não incide diretamente sobre os frequentadores, conferindo o anonimato tão valorizado neste local. As pinturas fantasmagoricamente iluminadas criam a ilusão de um espaço maior. Ou será o efeito do conjunto sobre os sentidos? Mulheres de corpos fartos e homens avantajados afiguram-se entidades baixadas ali. A sedução do lugar é completa. Então quando menos se espera, a cortina corre e a banda, que canta todos os sucessos, sobe ao palco, silenciando a música mecânica. Os casais ocupam a pista de vez e ali dançam muitas histórias de vida, muitos amores e desilusões. Tudo gasto ali como no último baile de nossas vidas!

A sessão do descarrego que o Vagalume proporciona deixa os corpos extenuados e a euforia é como uma catarse. O ritmo frenético do dia é compensado pelo frenesi coreografado do pagode-funk-brega. É com o corpo cansado que nos despedimos de lá...

Mas a jornada ainda não terminou, depois do corpo-a-corpo no Vagalume e para encerrar com chave de ouro, vamos caminhando até o Mercado Novo. O Mercado Novo, empreendimento menos citado que o Mercado Municipal não deixa por isso de ter seus encantos e singularidades. Se algo há que se assemelhe a este lugar deve ser procurado na ficção de um Blade Runner. Durante o dia o segundo andar do Mercado Novo é ocupado por diversos ofícios.... Há até uma gráfica lá.

Mas o que nos importa é o espetáculo da madrugada, quando as hortaliças e folhagens são entregues. O movimento de caminhões e descargas faz o alarido no meio da madrugada e congestiona os corredores. O cheiro de salsa, hortelã, manjericão mistura-se ao das cozinhas, onde pratos rústicos e fortificantes são preparados. As panelas de pressão e caldeirões exalam e despertam a fome dos trabalhadores da noite e dos notívagos. Todos se sentam à beira de balcões de azulejos em meio ao burburinho enquanto cachaças e cervejas, nossos faraós embalsamados, cumprem seu papel digestivo. A grande comunhão desta ceia fecha com chave de ouro uma noite fabulosa. Esta noite viva que acontece despretensiosa, vela pelas dezenas de milhares de janelas dos milhares de apartamentos sonolentos e vai se apagando aos poucos, mas ainda resiste aos primeiros raios do dia, saudando os que levantaram para trabalhar cedo. Uma cidade dorme e outra acorda, elas se encontram e formam uma cidade só composta de muitas e a cada vez que perambulamos por ela, sempre há algo a se descobrir. A noite enche de sonhos os que dela participaram, sonhos que fazem o dia se mover na expectativa do que a próxima noite reserva.



O centro carrega uma das muitas faces desta metrópole, uma face que revela um povo mais festivo que a famosa fleuma do mineiro faz crer. A devoção, aqui, transfere-se para as garrafas e as amizades. Um prazer sensual desnuda os corpos e os põem para dançar e suar muito.




Da porta para dentro, o Vagalume é outra dimensão à beira da rua (...) Luzes coloridas piscam lá dentro. Uma outra dimensão se abre por aquela porta. O salão de bailes é uma bolha dentro da bolha que o Vagalume constitui na região central da cidade.