Novas antropofagias

Por Euclides Guimarães

 
A Vivemos num tempo de grandes mixagens culturais. Com o crescimento exponencial das redes onde circula a informação, estar aqui ou no Japão já não faz tanta diferença. O mundo encolheu e, com isso, o familiar e o exótico já não se demarcam por fronteiras territoriais. As culturas estavam circunscritas em limites que as ciberculturas não reconhecem. Esse esfacelamento de fronteiras é, sem dúvidas, um grande diferencial da contemporaneidade. A Pós-modernidade se inicia pela perda de raízes, pela fusão de culturas, pela diluição de identidades nacionais em processos difusos de identificação. Os mitos fundadores, antes restritos aos mártires religiosos ou cívicos, podem agora servir a outros referenciais, como equipes e craques das grandes ligas esportivas, estrelas do cinema e da música, grifes e marcas. Em torno desses novos ícones começam a brotar novas epopéias.

Um tipo de músico que até a pouco não era possível é o DJ e falo isso não por causa dos equipamentos e dos recursos tecnológicos, mas pelo universo de sons com que ele se obriga a conviver e que se esmera em utilizar. Entre fragmentos de bens culturais oriundos de lugares e épocas diferentes, o DJ extrai um compósito que deve energizar o espaço onde se apresenta. Maracatu e rock, ska e samba, bolero e merengue, tango e pop fundem-se nesse inusitado bojo do repertório que de sua pick up emana. Se considerarmos que essa é mesmo uma grande marca da contemporaneidade, devemos considerar também que a cultura brasileira já nasceu pós-moderna.

Isso quer dizer que sempre vivemos o dilema do DJ, uma formação caleidoscópica, uma erudição fragmentária, de onde se origina a conversão da antropofagia física em antropofagia cultural. Desde os primeiros brasileiros, nem índios, nem africanos, nem europeus, mas saudosos de uma ancestralidade perdida, deixamos de ser ninguém entre fabulações e mixagens, DJs da vida. E assim seguimos, reinventando-nos a cada etapa da grande história, até chegarmos aos nossos dias.

A complexidade de nosso tempo deriva em grande medida dos acontecimentos globais que se sucederam à II Guerra, transformando o planeta numa grande aldeia de consumidores. No entanto, tudo isso se deu num ambiente de polarização ideológica radical, no contexto da chamada Guerra fria. Ou bem se era de direita ou de esquerda e não assumir uma ou outra posição significava ser considerado hipócrita e não confiável por ambos os lados. Em tempos de guerra amor e ódio se acentuam, morre-se e mata-se em nome de causas, por patriotismo, por ideologia, mas quando essa guerra é fria, também os ânimos, aos poucos, se esfriam.

Foi um tempo de CIA e KGB, de DOI-CODI e MR-8, de espionagem e articulações secretas, de clandestinidade e tortura, principalmente no Brasil, onde se vivia uma ditadura militar. Estudantes eram quase naturais inimigos da ditadura, sobretudo porque havia um grande intercâmbio de idéias entre as universidades e a estudantada de todo o Ocidente carregava a herança vanguardista do questionamento e do inconformismo. Embora fosse já um tempo de empresas multinacionais, os socialistas eram mais internacionais ainda, aparelhando-se em hierarquias de obediência cega, não muito diferentes da própria ditadura que combatiam. Foi um tempo de raciocínios militarizados em ambos os extremos dessa dualidade. Em tempos de ideologias explícitas um extremo e outro são puristas e o purismo naturalmente conspira contra o espírito antropofágico.

Tudo o que pudesse estar ligado ao imperialismo e à nova forma de colonização pelos costumes, como ocorreu com a expansão do american way of life, era altamente condenado pela juventude de esquerda, mesmo que ela própria não conseguisse escapar das tentações dos automóveis, motos, TVs, guitarras e aparelhos de som, dos primeiros esportes radicais como o surf, ou as delícias da praia, do sunday ,do marshmallow, da coca-cola, dos motéis recém- inventados, e dos alimentos enlatados de um novo templo chamado supermercado.

Recuperar e reciclar a antropofagia das vanguardas modernas foi a maneira lúcida com que, em fins dos sessenta, um bando de novos bárbaros confrontou essa polarização, fazendo baião com guitarra elétrica, aceitando o que vem de fora e ao mesmo tempo comendo e deglutindo tais referências, mesmo que isso tenha custado vaias e incompreensão por parte de um público que, achando-se revolucionário, não percebia as limitações de seu próprio purismo.
Um artista muito versátil e inovador, o carioca Hélio Oiticica, criara uma instalação a que denominou “tropicália”. Nesse ambiente figurava toda a profusão de novidades que a cultura popular brasileira havia incorporado ao seu cotidiano: toalhas de mesa xadrez adornadas com flores de plástico, cortinas em fios multicores, nylon, caixas d’água de amianto e aparelhos de TV, a fórmica, o tijolo furado, tudo disposto num ambiente de profusão de cores das florestas tropicais, permeado por inscrições poéticas e perturbadoras. Na entrada, uma cabine “penetrável” trazia a inscrição: “a pureza é um mito”. Difícil imaginar dito mais oportuno, impossível calcular a grandiosidade do efeito de tão singela inscrição, mas foi daí que brotou o tropicalismo. Estava, portanto, reeditada a vacina antropofágica.

Com o tropicalismo a cultura brasileira reencontra seu poder de fabulação, nublam-se as fronteiras entre o Cult e o brega, entre a direita e a esquerda, o sagrado e o profano, o exótico e o familiar. Fica assim assegurado o passaporte para a liberdade de criação, para uma primazia da percepção, para o despertar de novos códigos estéticos. Sem perder de vista a necessidade da denúncia das forças que nos oprimem, os tropicalistas inventam um modo lúdico de ser engajado e por isso, a meu ver, despertam mais uma vez nossa verve antropofágica. Para as décadas seguintes esse caminho permaneceria aberto.

Os próprios tropicalistas e tantos outros puderam gozar dessa liberdade, (e)levando a música brasileira a resultados inenarráveis. No entanto, assim como a antropofagia nos livrou do engajamento cego, mais tarde teria que combater o relativismo letárgico.

Com o fim da guerra fria vieram tempos gelados de desesperança e estagnação cultural. Era a hora da antropofagia servir a um propósito inverso, despertar a construção de uma nova militância. Da lama do mangue em Recife brotaria uma nova versão da vacina antropofágica, que será assunto de nossa próxima edição.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC-MG.





Com o tropicalismo a cultura brasileira reencontra seu poder de fabulação, nublam-se as fronteiras entre o Cult e o brega, entre a direita e a esquerda, o sagrado e o profano, o exótico e o familiar.