Reflexões sobre a capital jamais antes imaginadas

Nesta edição especial sobre a capital mineira apresentamos trabalhos de artistas que pensaram a cidade ou a utilizaram como cenário de suas obras. Laura Belém usa as plácidas águas da Pampulha para abrigar “Enamorados”, um casal de barcos num flerte onírico que envolve luz, paisagem e espectadores. Em ”Irmãs”, a dupla Marilá Dardot e Cinthia Marcelle promove um deslocamento poético do panorama ao intervirem na natureza dos ipês. A dupla mexicano-brasileira — Miguel Sepúlveda e João Castilho — gera um documento rasurado sobre a metrópole, provocado pelas sucessivas camadas de refração de olhares que resultam no “context 3”. Já Leonardo Costa Braga recicla a cidade e seus resíduos ao prepará-los para sua câmera fotográfica. Enfim, visões convergentes e divergentes, que fazem eclodir uma Belo Horizonte múltipla, jamais antes imaginada.
 

Irmãs
Por
Cinthia e Marilá | ação-proposição | 2003, Belo Horizonte | Ipês, papel crepon, mochilas, camisetas
 
Primeiro florescem os ipês roxos, exuberantes de cor fúnebre. Como se a morte fosse anterior à vida que virá com os amarelos, resplandescentes de luz. Por pouco tempo as duas cores coincidem na paisagem. Neste período as irmãs caminham de mãos dadas, cada uma veste uma cor e transporta a cor oposta. Misturam a vida à morte, a morte à vida, sem fim nem origem — as duas se complementam e andam juntas.

Irmãs é também um trabalho de pintura, diríamos uma “natureza viva”. Surpreender as expectativas aguça o olhar dos passantes (olhar embaçado pela velocidade, pelo destino a se alcançar). Usamos o contraste das cores complementares para tornar vivos os olhos à experiência cotidiana dos ipês nas ruas de nossa cidade. Uma vez aguçado, que este olhar atento — aberto, delirante — se estenda à ausência do fenômeno que o provocou: que os ipês nunca mais sejam os mesmos.

Cinthia (Marcelle) e Marilá (Dardot) trabalham em parceria desde 1998. Entre as exposições de que participaram com a dupla destacam-se: Liste 13 (Basel, Suíça, 2008); Sábado de Performances (Galeria Vermelho, São Paulo, 2003); Alfândega (Armazém 5, Rio de Janeiro, 2003); Programa Rumos Itaú Cultural Artes Visuais 2002/2003 (quatro exposições: Belo Horizonte, São Paulo, Fortaleza e Brasília).



Context 3
Por Miguel Sepúlveda & João Castilho

Context 3 é a terceira etapa de uma série de colaborações internacionais entre artistas onde o contexto local é o principal protagonista. O projeto consistiu na realização de um ensaio fotográfico documental sobre Belo Horizonte no mesmo momento em que foi contratado alguns detetives privados por meio de uma terceira pessoa. A idéia, segundo os artistas, “era que os detetives nos seguissem pela rua e visitassem o laboratório onde revelávamos nosso material e com base nessas informações reinterpretassem em seus relatórios o que havia nos interessado fotografar e o porque do tema que estávamos abordando. Interessava tornar evidente e poder comparar o que desde fora se pode ver, talvez de maneira supérflua, como um turista, mas com a possibilidade de apontar certos rasgos que possam passar despercebidos para alguém da comunidade local”.

João Castilho é artista visual, vive e trabalho em Belo Horizonte, Brasil. Realizou diversas exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior. Recebeu os prêmios Conrado Wessel de Arte, Prêmio Porto Seguro de Fotografia, Bolsa Funarte de Estimulo a Criação Artística e a Bolsa Pampulha. Em 2008 publicou o livro Paisagem Submersa pela Cosac Naify. Tem obras no acervo do Museu da Pampulha, no MAM da Bahia, no MAM de São Paulo e na Coleção Pirelli-Masp de Fotografia. Atualmente é mestrando em Artes Visuais pela UFMG e bolsista da Fapemig.

Miguel Sepúlveda é artista visual, natural de Monterrey, vive e trabalha na Cidade do México.

 


Lixo
Por Leonardo Costa Braga

Existe um pensamento muito antigo que diz que no lixo podemos descobrir a realidade de um povo. Essas fotografias são a busca por uma história do arquétipo da sociedade contemporânea através de objetos jogados fora pelas pessoas e recolocados de uma outra maneira na rua, compondo um cenário como uma interferência poética na documentação fotográfica. Ao mesmo tempo reflete sobre a possibilidade da transformação das coisas através da re-apropriação e continuidade do que ainda pode ter vida.

Leonardo Costa Braga se dedica a projetos com fotografia que questionam os conceitos e formas da inteligência na relação com os cuidados do homem consigo mesmo e o meio ambiente. Seus trabalhos foram apresentados em exposições no The New Life Berlin Festival, Centro Municipal de Fotografia do Uruguay, Museu de Arte Moderna da Bahia, Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre, entre outros. Recebeu o Prêmio Pierre Verger 2009 e Festival de Inverno de Bonito 2005.


Do nascer ao pôr-do-sol (e vice-versa)
Por Rodrigo Moura
Foto Pedro Motta

Em janeiro de 2002, eu voava para Belo Horizonte — para onde me mudara de volta, depois de um ano em São Paulo —quando, pouco antes de aterrissar no meio daquela úmida noite de verão, avistei da janela do avião algo estranhamente surpreendente para mim. Tratava-se de uma visão da instalação As Damas [The Ladies] (2002), de Laura Belém, iluminada nas colunas da Casa de Baile e refletida na Lagoa da Pampulha. Laura tinha sido minha colega, alguns anos antes, em um curso de desenho de Amílcar de Castro e inaugurara recentemente exposição no Museu de Arte da Pampulha, onde eu começara a trabalhar como curador assistente havia poucos meses. A visão aérea do trabalho, contudo, me tomou de assalto e me proporcionou uma sensação inesperada, renovada, daqueles objetos que eu já conhecia de cor. Até hoje associo essa pequena história ao meu principal sentimento sobre a obra de Laura: o de que ela opera nas surpresas e descobertas que o sujeito pode ter sobre os objetos, nas relações que a artista estabelece entre as coisas e as pessoas.

As Damas, por exemplo, repetia no Museu (ex-Cassino) e na Casa de Baile, três grandes saias de tecido vermelho que vestiam as fálicas colunas dos prédios de Oscar Niemeyer. Para acionar nosso lado voyeur, a artista instalara no Museu um telescópio, que ao mesmo tempo em que vencia a distância entre os dois prédios oferecendo uma visão da mesma obra montada noutro edifício (portanto uma espécie de espelho), isolava o espectador do espaço do Museu, num sutil, porém profundo, ato de suspensão que se relacionava com a própria experiência de estar naquele espaço (1).

Anos depois, voltamos a trabalhar no mesmo espaço. Enamorados [Enamored] (2004), um dos projetos que a artista desenvolveu então, propõe um outro tipo de diálogo, não mais entre os dois prédios com o espectador no centro, mas entre dois barcos-corpo — desta vez, colocados centralmente sobre as águas da Lagoa para contemplação. Diariamente, a partir do pôr-do-sol até a madrugada, os barcos, emparelhados cara a cara, trocam sinais luminosos alternados, como se conversassem ou flertassem. Significativamente, os holofotes ficam voltados um para o outro. A cada 20 segundos, um barco acende seu farol, continuando no escuro e iluminando seu par, cujo farol está apagado. Em estágios seguintes, os barcos se iluminam (e se ofuscam) simultaneamente e ficam juntos, também, no escuro. A obra faz uma série de alusões (algumas mais claras do que outras) aos jogos da sedução e às armadilhas do afeto. Nesse sentido, não é revelador que a luz emitida sirva antes para iluminar o outro do que a si mesmo? Para Laura, estão colocadas noções de “ausência/presença, além de metáforas de contemplação e amor” (2).

Paralelo aos seus projetos de instalação e escultura, mas mantendo a mesma atenção ao espaço em projetos site-specific, Laura Belém desenvolveu recentemente um conjunto de sound pieces. Antes de afiliar-se a um segmento específico das pesquisas contemporâneas com som, essas obras extraem sua originalidade de diferentes fontes estéticas. Encontramos nelas heranças diretas da música eletro-acústica, manipulações de objetos sobre mesa à la John Cage, apropriação e edição de material pré-existente, field recordings, gravação de atores lendo textos específicos criados ou apropriados pela artista, paisagens sonoras de contos de fadas e investigação técnica com quadrifonia e mixagem. Em algumas dessas peças, o pensamento sobre o lugar é central, e a arquitetura e a carga simbólica ou funcional dos espaços de execução e de exibição das obras atuam como parte inseparável.

Uma das primeiras dessas obras é Escultura (2001-2005) (3) pensada para ambientes externos de passagem ou contemplação (foi instalada a princípio no jardim de uma galeria, perto de um banco e de uma árvore). Diferentes ânimos e intensidades (categorias equivalentes na psicologia e na música) acompanham as alterações de humor típicas da mente humana. O áudio começa no canto hipnótico dos pássaros e é violentamente interrompido por um movimento seguinte, no qual ouvimos cachorros a latirem insistentemente. Reproduzida ao ar livre, a obra se mistura com a experiência comum de estar no espaço, invadindo a paisagem psicológica do espectador. Estamos, constante e repetidamente, diante de pólos extremamente opostos e distantes. A partir daí, a necessária tarefa de preencher esses vazios será exercida, sem descanso, pela nossa mente.

1. Para uma estética do olhar à distância, ver Rear Window (1954), Alfred Hitchcock.
2. Depoimento da artista ao autor, janeiro de 2005.
3. A obra faz um jogo de palavras intraduzível para o inglês entre escultura e escuta. Sua datação diz respeito à sua primeira montagem e à versão mais recente.

Venice Biennale – 51st International Art Exhibition
Texto crítico sobre o trabalho da artista Laura Belém