Grandes descobertas
 
Adentrar os sertões do Mato Dentro, desbravar as trilhas do Caminho do Diamante da Estrada Real, descobrir os encantos de pequenos vilarejos até chegar na antiga Vila do Príncipe do Serro Frio: uma grande viagem rumo aos primeiros momentos da história de Minas Gerais.
 

Reportagem Cacaio Six
Fotos Jean Yves Donnard
 
Ao percorrer as estradas sinuosoas do vasto sertão do Mato Dentro, a sensação é de estar adentrando trilhas do passado numa viagem quase real, uma viagem para reviver a história. Hoje, o chamado Caminho dos Diamantes da Estrada Real, é um dos mais belos e interessantes atrativos turísticos de Minas Gerais.

Depois de cruzar a ponte do Rio Cipó na Serra do Cipó rumo a Conceição do Mato Dentro, o viajante já está em trilhas outrora desbravadas pelos bandeirantes a partir do longínquo ano de 1702. Nesta época, as veias auríferas do Ivituruí, então recém descobertas, já registravam intenso movimento de aventureiros ávidos por fazer fortuna. Foram essas imensas reservas de ouro que deram origem à Vila do Príncipe do Serro Frio, hoje a cidade do Serro.

Os bandeirantes partiram então do agitado centro de mineração no efervescente Serro Frio rumo ao sul em busca de novas descobertas. Ao longo do caminho as bandeiras foram estabelecendo os primeiros povoamentos, pois ricas veias de ouro foram encontradas ao longo do Rio Santo Antonio e de seus afluentes. Foram então surgindo sucessivamente os arraiais de Tapera (Santo Antonio do Norte), Córregos, Conceição do Mato Dentro e Morro do Pilar.

Assim, nos primeiros anos do século XVIII, registrava-se o início da colonização dos sertões do Mato Dentro e, consequentemente, do interior brasileiro, tudo em função da abundância do ouro.


Bucolismo

A viagem desta vez é a redescoberta dos distritos de Córregos e Santo Antonio do Norte ou Tapera — pertencentes a Conceição do Mato Dentro — e de Itapanhoacanga, distrito de Alvorada de Minas.

O bucólico Córregos, encravado num vale acidentado e rodeado de serras verdejantes, cuja fundação aconteceu exatamente em 1702 com o nome de Nossa Senhora Aparecida de Córregos, é um lugar onde se tem a mais clara sensação de que o tempo definitivamente parou. Vale muito a pena apreciar (e registrar em imagens) a minúscula praça, a linda igrejinha — na verdade, é a Matriz de Nossa Senhora Aparecida — e os sobrados coloniais.

Sobre a Matriz, sabe-se pouco, inclusive sobre quem a construiu ou quem desenhou o projeto arquitetônico. O templo tem estrutura em adobe e madeira, e é composto pela nave, capela mor e corredores laterais e torre única central.

Pressume-se que a sua construção ocorreu entre os anos de 1745 e 1748. Porém, na fachada estão gravadas, em cima da porta, as datas de 1872 e 1956. Possivelmente, é uma referência às reconstruções que ocorreram na igreja.

No alto de uma colina, de onde se tem uma linda vista de todo o vale e do vilarejo, fica a singela capela de Nosso Senhor dos Passos, erguida em meio ao cemitério e cercada por um muro de pedras. Não se sabe absolutamente nada sobre a construção da capela, mas o seu estilo arquitetônico denuncia um longo tempo de existência, provavelmente desde o século XVIII.

Poucos quilômetros adiante seguindo pela estrada de terra sinuosa que adentra as muitas serras e Colinas do Espinhaço, chega-se a Santo Antonio do Norte, mais conhecido como Tapera, cuja formação também remonta os idos do ano de 1702. A única rua que lembra o período colonial é formada por várias casas de taipa e caiadas de branco. A Igreja de Santo Antonio se destaca na paisagem, mas também é uma incógnita as informações sobre a sua construção e projeto arquitetônico. Mas há alguns registros de que a igreja foi erguida em 1745.


Nossa Senhora do Rosário

A viagem segue, o carro enfrenta a estrada vicinal e singra as serras, são muitas curvas, e em vários trechos surge um marco da Estrada Real. Na paisagem ainda aparecem fazendas com belas sedes coloniais que remetem a um passado já muito distante, mas que ainda clama pela preservação de sua memória.

Eis então que surge Itapanhoacanga, a pequenina vila pertencente a Alvorada de Minas. Famosa pela felicidade que seus moradores demonstram ao comemorar a data em honra a Nossa Senhora do Rosário, na grandiosa festa do Rosário, Itapanhoacanga também se destaca por guardar um belíssimo e importante templo dedicado à fé cristã. Trata-se da Igreja do Rosário, datada de 1708. Construída em pedra pelos escravos, a igreja conta com três altares com talhas de meados do século XVIII. Outro detalhe interessante são as imagens de cor negra que compõem os altares. A exceção é a magnífica imagem Nossa Senhora do Rosário, esculpida em madeira pelos negros escravos que, aliás, é guardada fora da igreja por motivo de segurança.

A história registra que para constuir a igreja, os escravos trabalhavam somente durante as noites. Eles levavam gramas de ouro de seus senhores, ocultas nas unhas e nos cabelos, e as utilizavam para decorar a igreja.

A festa de Nossa Senhora do Rosário em Itapanhoacanga é um atrativo de grande relevância, e impactante pela beleza do desfile da caboclada, da marujada e do congado. Eles seguem em procissão pelas ruas da vila carregando a imagem de Nossa Senhora do Rosário até a igreja onde é celebrada a missa.

Outro rico patrimônio do vilarejo é a Igreja São José Itapanhoaganga, de 1760. Encanta os olhos e emociona o coração, os nove painéis de madeira no teto que retrata fatos da vida de São José. A igreja também guarda muitas imagens interessantes.


Serro Frio

Depois de passar por Alvorada de Minas e contemplar a pequenina cidade do alto da estrada que corta uma serra — destaca-se na paisagem urbana a Matriz de Santo Antonio, construída no século XVIII — chega-se ao destino final da viagem, à bela cidade do Serro.

Uma das quatro primeiras cidades da antiga Capitania das Minas Gerais, a então Vila do Príncipe é atualmente uma cidade histórica rica em preservação de seu patrimônio arquitetônico, muito característico das vilas setecentistas mineiras.

Certamente por essa razão que o Serro foi a primeira  cidade histórica brasileira tombada, em 1938, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.

É extremamente rico seu acervo de arquitetura religiosa colonial, pois reúne significativos conjuntos homogêneos, além da elogiadíssima ornamentação do interior das igrejas, principalmente no que se refere à pintura em perspectiva dos forros.

Também de grande beleza é o vasto conjunto de sobrados muito bem preservados. A cidade também é famosa pela quase incomparável riqueza de suas tradições folclóricas e festas religiosas, além do famoso e apreciado queijo típico do Serro.

Documentos da Prefeitura Municipal informam que o nome Serro vem da palavra indígena Ivituruí, que significa “serro frio”, uma denominação atribuída aos nevoeiros muito comuns na região causados por correntes de ar frio e que, geralmente, provocam baixas na temperatura.

E com a conquista do Serro, chega-se ao fim de uma grandiosa viagem por trilhas que acumulam história, cultura, deslumbrantes paisagens e também muitas aventuras. Para quem desejar conhecer a fundo este circuito do Caminho dos Diamantes da Estrada Real em meio ao sertão do Mato Dentro, não faltarão atrativos: de atividades de ecoturismo à deliciosa gastronomia, além dos mais aconchegantes meios de hospedagem. É turismo da mais alta qualidade.



Matriz de Nossa Senhora Aparecida no vilarejo de Córregos, distrito de Conceição do Mato Dentro.


Fazenda com sede em estilo colonial no sertões do Mato Dentro.

Vista de Alvorada de Minas no Caminho dos Diamantes.


Festa em honra a Nossa Senhora do Rosário, no distrito de Itapanhocacanga.

Serro, antiga Vila do Príncipe, com a Igreja de Santa Rita no alto.


Vista do casario preservado do Serro.