O voo da harpia

Sob uma plataforma ou pendurado a mais de 30 metros do chão, João Marcos Rosa realiza um trabalho pioneiro na fotografia brasileira: documenta a maior ave de rapina das Américas — a harpia. Dentre mais de 50 mil fotos, produzidas desde 2004, uma seleção com os melhores ângulos será publicada, em dezembro, num livro dedicado a uma das espécies raras do Brasil.


Por Rúbia Piancasteli
Fotos João Marcos Rosa

João Marcos Rosa é mineiro e fotógrafo, formado em jornalismo. Sob influência do avô João Rosa, tornou-se um apaixonado por fotografia ainda aos 16 anos, quando apreciava os livros recheados de belas imagens que eram mantidos em uma chácara em Nova Lima. Aos 17 comprou sua primeira câmera, uma Zenith e hoje, com quase dez anos de carreira, executa um trabalho pioneiro na fotografia: é especialista em clicar a ave de rapina mais possante das Américas — a harpia, chamada também de gavião real. O início desse trabalho data de 2004 quando João fez suas primeiras imagens das aves nas florestas alagadas de Manacapuru (AM) e nos bosques de terra firme de Parintins (AM), durante o primeiro estudo brasileiro sobre a harpia em seu habitat, coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).


Harpia em livro

Em 2005, após fazer o Curso Abril de Jornalismo e se tornar colaborador de veículos especializados, despontou aos olhos de Ronaldo Ribeiro, editor da National Geographic Brasil. “Ao ver as imagens da harpia, Ronaldo disse: é isso. Sua matéria está aí”, conta o fotógrafo. Foi mais de um ano fotografando os gaviões no Amazonas, Pará, Mato Grosso do Sul e Venezuela. O material, além de render matérias na revista e prêmios fotográficos com seus cliques na natureza selvagem, embasou a ideia da elaboração do livro sobre a harpia. Anos mais tarde, o projeto é retomado, junto a uma equipe especialíssima à qual João se uniu há alguns anos — cientistas e pesquisadores do Projeto Gavião-Real, do INPA.


Destruição do habitat


Desde 1997, quando foi descoberto o primeiro ninho da Harpia harpyja (nome científico do Gavião-Real), o grupo voltou-se para a conservação da espécie e proteção de seus ninhos, que hoje somam mais de 40 e são monitorados na Amazônia, no Pantanal e na Mata Atlântica. “O trabalho vai desde o planejamento de uma grande expedição até os pequenos detalhes para fotografar o animal, relata João.

Com berço na mitologia grega — as harpias eram deusas das tempestades, donzelas com corpo de abutre, garras de águia e cauda de serpente —, a espécie faz jus à imponência do nome e simbolismo da figura mítica. Com até 1,20 metros de altura e uma envergadura de até 2,1 metros, está no topo da cadeira alimentar, vivendo no dossel das florestas. Suas garras, as maiores dentre as aves, possuem sete centímetros de comprimento e uma força tal que a permite agarrar, matar e carregar presas com pesos equivalentes ao seu (o macho atinge até 6kg e a fêmea, até 10kg).

Hoje, a principal preocupação com a espécie está na destruição do seu habitat, devastado pelo comércio da madeira, pela caça, pecuária e a agricultura nas florestas tropicais da América Latina. Além do INPA, ONGs e organizações como a Crax —Sociedade de Pesquisa do Manejo e da Reprodução da Fauna Silvestre —, são responsáveis por monitorar e trabalhar para a preservação do ágil gavião-real.

Diversos pesquisadores e o fotógrafo João Rosa, sob a coordenação da Agência Nitro, preparam o lançamento de um livro dedicado exclusivamente à harpia. O fotógrafo que desde 1998 documenta a natureza e a cultura brasileira mora em Nova Lima e trabalha em Belo Horizonte, na Agência Nitro de fotografia, da qual é um dos fundadores. Seus principais trabalhos podem ser vistos na National Geographic Brasil, Espanha, EUA e Alemanha. Em 2005, recebeu o prêmio do Concurso Itaú BBA de fotografia.