Senhor das artes

O cineasta e artista plástico belo-horizontino diz que se sente muito mais do que um mineiro, sugere um roteiro de viagem por Minas Gerais, elogia a “inquietação cultural” de sua cidade natal, fala do cinema brasileiro, “o melhor cinema do mundo”, e afirma que a arte contemporânea significa a libertação da arte. Para Neville D’Almeida, “Minas nunca, jamais, em tempo algum, deixará de estar na vanguarda”.

Por Asaad Abrahão
Fotos Jean Yves Donnard



Como um mineiro, de Belo Horizonte, que partiu daqui há muitos anos, qual é a relação do senhor com Minas Gerais?

Minha relação com Minas Gerais é intensa, forte, apaixonante … Ela é, como dizia Drummond, impossível de se explicar. Eu me sinto muito mais do que um mineiro, eu me sinto um minério.


Na sua condição de “muito mais do que um mineiro”, convido o senhor a sugerir ao leitor um belo roteiro de viagem por Minas Gerais.

Eu aconselho uma viagem de carro para desbravar as Minas Gerais e parar um pouquinho em cada cidade. É impressionante, mas cada cidade de Minas tem uma história diferente, um charme muito característico, algo especial mesmo! Ele pode começar sua viagem pela Serra do Cipó, passar por Conceição de Mato Dentro, mas não sem antes ter conhecido a inexplicável Gruta de Maquiné em Cordisburgo, terra do grande Guimarães Rosa. Mas, ao seguir essa trilha, hoje chamada Caminho dos Diamantes da Estrada Real, vá à linda Lapinha em Santana do Riacho, um povoado paradisíaco, que fica no sopé do Pico do Breu e junto a um grande lago de águas azuis. Continue a explorar essas montanhas verdes e intrigantes , corte estradas tortuosas e chegue ao vilarejo do Tabuleiro, distrito de Conceição do Mato Dentro, onde está a maior cachoeira de Minas, a cachoeira do Tabuleiro, com mais de 250 metros de queda. Na outra ponta do município, conheça a bucólica vila de Córregos, dona de uma linda capela em estilo Barroco. Continue a viagem e passe em Santo Antonio do Norte, outra pequenina vila muito interessante. Ande mais alguns poucos quilômetros em meio às serras, se deslumbre com a paisagem vista do alto, e chegue em Itapanhoacanga — distrito de Alvorada de Minas, cidade próxima ao Serro —, um minúsculo lugar que guarda dois lindos templos barrocos, uma capela e uma igreja. É impressionante como essas pequenas vilas ainda preservam valiosos patrimônios históricos e culturais, como a intensa religiosidade e força das manifestações folclóricas. As festas em honra a Nossa Senhora do Rosário são comemorações tradicionais de toda essa região. As cablocadas, as marujadas e os congados são manifestações de extraordinária beleza cênica. Já a cidade do Serro é parada obrigatória para admirar o seu magnífico casario preservado e a beleza da igrejinha de Santa Rita, lá do alto. Diamantina é o ápice, Patrimônio da Humanidade, uma beleza sem precendentes. Não há muito o que falar de Diamantina, a História fez lá o seu registro de memória. Portanto, esse é um roteiro simplesmente magnífico, que vai encantar a todos os viajantes, aqueles que gostam de desbravar belas trilhas. Por outro lado, não posso deixar de citar as outras grandiosas cidades históricas como Sabará, Congonhas, Mariana, Ouro Preto, Tiradentes e São João del Rei. São destinos turísticos fabulosos, repletos de atrativos, que seguramente estão entre os mais relevantes do mundo. Um programa maravilhoso é chegar em Ouro Preto e, no domingo de manhã, pegar o trem para Mariana para ouvir o orgão Arp Shinitger na Matriz da Sé.

A verdade de Minas é que cada cidade, cada lugar, cada prédio histórico tem uma personalidade. Cada casa que você entra em Minas oferece uma mesa farta … tem os quitudes, os bolos, uma chaleira, o café, o leite, o queijo, o pão de queijo. São costumes inigualáveis do povo de Minas. As pessoas te recebem maravilhosamente bem, com um sorriso largo no rosto.

Isso é Minas … Minas é Barroco, Minas é moderno, Minas é paixão, Minas é paisagem, Minas é minério, Minas é cultura, Minas é a soma de todas as coisas, Minas é a vanguarda do Brasil. Aqui começou o Barroco, que era a vanguarda do mundo, arte universal. A arte moderna aqui encontrou o seu mais valioso abrigo, graças a Juscelino. Niemeyer surgiu aqui na Pampulha antes de todo o mundo. Agora Niemeyer volta com o grandioso projeto da cidade administrativa. Hoje Minas tem a arte contemporânea, o Inhotim está aqui. Minas nunca, jamais, em tempo algum, deixará de ser uma nação vanguardista.


O que o senhor diz de sua cidade natal? Como o senhor vê BH sob o ponto de vista da movimentação cultural?

Belo Horizonte é símbolo da inquietação cultural de Minas Gerais. BH reúne um grupo de pessoas, jovens de todas as idades, donos de enorme inquietação, de um conceito de cultura, de arte e de alegria. Em Belo Horizonte, as coisas estão sempre acontecendo, ininterruptamente. É uma cidade cada vez mais apaixonante. Nesta capital das alterosas também existe uma inquietação existencial, fato que torna o mineiro um ser único, um ser brasileiro diferenciado justamente por manifestar o desejo de ter mais vida, de dar mais amor, de adquirir mais cultura, mais informação, mais conhecimento e mais sabor. A essência do mineiro, a sua maior característica, é a inquietação existencial que se mistura à inquietação artístico-cultural. São essas inquietações que movimentam a capital de todos os mineiros.


O senhor tem uma instalação, a Cosmococa (criada em parceria com Hélio Oiticica), no Inhotim. Qual é a sua opinião sobre o lugar?

O Inhotim é um lugar maravilhoso, fruto de um visionário, um mineiro chamado Bernardo Paz. Aliás, só mesmo um mineiro para construir aquilo tudo; só em Minas para caber algo do tamanho do Inhotim —um espaço gigantesco, cinco milhões de metros quadrados —, um museu integrado à natureza, um espaço de arte em harmonia com a natureza, lá está a arte contemporânea do mundo e todos os seus grandes artistas. O Inhotim tornou-se um paradigma para o mundo. É Minas irradiando arte para o planeta e nos mostrando as imensas possibilidades da arte contemporânea e os seus mais complexos desdobramentos.


E quais seriam os principais desdobramentos da arte contemporânea?

A arte contemporânea, essa maravilha, é o encontro da arte com a tecnologia, é o encontro da arte com a música, é o encontro da arte com o cinema, com a literatura, com a fotografia, com o vídeo, com a ecologia. A arte contemporânea é o ponto máximo em que a arte chegou até agora. A arte, anteriormente, tinha a sua grandeza, a sua beleza, a sua genialidade estampada em espetaculares pinturas nas igrejas, em telas, em esculturas, em gravuras e em tantas outras criações absolutamente fantásticas e universais. A arte contemporânea surgiu para abrir todos os espaços possíveis e inimagináveis por meio do uso e do abuso desta coisa maravilhosa que é a instalação espacial. A arte contemporânea usou todas as tecnologias neste formato avançado e profundo da arte. A arte contemporânea significa a libertação da arte. É no Instituto Inhotim que a arte contemporânea tem a sua expressão máxima como espaço aberto e como espaço livre. Tudo isso aconteceu em Minas Gerais. A nossa terra está no mapa mundial das artes, o Inhotim é a capital mundial da arte contemporânea e este incomparável lugar fica a a menos de uma hora de BH, na cidade de Brumadinho.


Como o senhor explica a Cosmococa?


A Cosmococa foi um trabalho maravilhoso criado junto com um grande artista plástico brasileiro chamado Hélio Oiticica. Eu sempre agradeço a Deus por ter tido a oportunidade de ter realizado essa obra em parceria com Hélio Oiticica. A Cosmococa é o que chamamos de “programa in progress”, o quase cinema. Trata-se de um conceito que criamos em 1973: a arte não acaba em si, ela nunca termina. Você faz um trabalho e ele nunca estará pronto, ele nunca vai terminar, ele sempre terá um desdobramento. A Cosmococa, graças a Deus, faz parte da invenção da arte contemporânea. Dois brasileiros — um carioca, o Hélio Oiticica e eu, um mineiro —, então morando em Nova York, fizeram parte da invenção da arte contemporânea. Foi a primeira vez que surgiu uma intervenção espacial, nós fizemos uma transformação em um espaço. Pela primeira vez na história da arte foi realizada uma “instalação”, uma projeção nas quatro paredes e no teto com trilha sonora e ambientação. Criamos uma cenografia, uma projeção e demos o nome de “quase cinema”. O que é o cinema? É a imagem em movimento projetável numa tela. A Cosmococa é a imagem fixa — porque a fizemos em projeção de slides — em movimento projetado em todos os espaços do ambiente. O cinema é imagem em movimento e o “quase cinema”, a Cosmococa, é a imagem fixa em movimento. Essa imagem vai sendo passada e na medida que ela passa de uma parede para a outra e depois para outra, ela cria uma linguagem. Então repito: pela primeira vez na história da arte foi criada esse tipo de intervenção espacial envolvendo diretamente o cinema. É como se fosse um cinema com cinco telas. É como se fosse um cinema que você não tem que ficar sentado olhando pra frente. Na nossa idéia, na nossa concepção, a gente quer o espectador instalado confortavelmente, da melhor maneira possível. A nossa obra, o espectador pode ver sentado, deitado, de pé, de qualquer jeito, o mais confortável que for possível para ele. De onde ele estiver, em qualquer posição, ele estará vendo porque a imagem estará em todos os lugares, justamente porque é um cinema com cinco telas. É uma proposta de mudar a relação espetáculo/espectador, de quebrar, de romper esta rigidez na relação. Nós transformamos o espectador em participador. Ele pode rolar no chão, dar uma cambalhota, ficar sentado ou deitado. O espectador pode fazer tudo. Aliás, fomos muito mais longe ao quebrar o paradigma de que uma obra de arte é aquele objeto valioso proibido de ser tocado. Na nossa visão, colocamos o seguinte: isto é arte, portanto, participe, se envolva, mexa-se. Na Cosmococa existe uma profunda relação do espectador com a obra de arte.


A Cosmococa foi criada num período histórico complicado. Como a obra repercutiu na época?

Pois é! A gente ali, em 1973, numa ditadura no Brasil, censura, tortura, prisões ilegais e morando em Nova York sem quase nenhum dinheiro, trabalhando muito e, às vezes, até passando algumas necessidades, conseguimos fazer esse trabalho. Aliás, um trabalho que não foi aceito por ninguém, não foi reconhecido por ninguém e que demorou 20 anos para ser instalado pela primeira vez. Passamos duas décadas em expectativa, mas criamos uma obra de arte que ainda continua nova e inovadora. O Hélio Oiticica morreu sete anos depois, muito jovem, mas se transformou no nome mais importante da arte contemporânea mundial. Tudo o que existe no Inhotim hoje e nos museus de arte contemporânea espalhados ao redor do mundo, tem um pouco de Hélio de Oiticica. Por sinal, fico muito feliz em anunciar que vamos inaugurar em 2010 no Inhotim um edifício de mil metros quadrados com as cinco instalações da Cosmococa. Nunca imaginei que isso pudesse ser feito em Minas e, de repente, tudo isso está acontecendo. Para mim, tudo isso é uma prova de que Deus existe. Acredito muito e sempre agradeço a Ele por ter tido a possibilidade e a coragem de ter feito a Cosmococa (junto com o Hélio) e também por ter feito todos os meus filmes. Acho que é porque eu nasci em Minas Gerais.


Como diretor de filmes consagrados como “Matou a família e foi ao cinema”, “Sete gatinhos”, “A dama do lotação”, “Rio Babilônia” e “Navalha na Carne”, dentre outros sucessos, qual é a sua análise do momento atual do cinema brasileiro?

O Brasil tem uma vocação cinematográfica enorme e uma vocação audiovisual gigantesca. As novelas são a prova disso, pois são vendidas para o mundo inteiro. O cinema brasileiro também está predestinado a conquistar o mundo, e só não o faz por questões comerciais e pelo monopólio comercial, principalmente do cinema norte-americano. O cinema brasileiro vive uma grande fase, tem crescido e se desenvolvido em grande velocidade. A missão do cinema brasileiro é ser uma extensão da nossa cultura, do nosso país. A nossa cultura é muito ampla, muito vasta, cada região do Brasil tem a sua personalidade. Então, a função, o papel do cinema brasileiro, é retratar todos os aspectos, todos os segmentos da cultura brasileira — e não só de um único eixo. É preciso descentralizar a produção totalmente, acabar com essa coisa do cinema ser feito só no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Os polos de produção precisam estar presentes em todas as regiões, em todos os estados. Quanto mais o cinema brasileiro mostrar o Brasil, mais forte ele vai ficar. O cinema brasileiro não para de crescer e eu o considero o melhor cinema do mundo. Só acho triste quando você tem a oportunidade de viajar e vai a grandes centros mundiais como Buenos Aires, Paris, Londres, Moscou, Berlim, Roma ou Nova York e pergunta se tem filme brasileiro em cartaz. A resposta é quase sempre não. Isso é muito triste porque eles precisam do cinema brasileiro mais do que nós precisamos dos filmes deles. Esses países, esses povos, essas culturas e civilizações vão ser muito mais felizes quando assistirem filmes brasileiros. Eles precisam ver filmes brasileiros, eles precisam conhecer o cinema brasileiro. Em suma: eles precisam ser mais felizes.


O senhor tem novos projetos de trabalho?


Eu estou com uma série de projetos na área das artes plásticas. Inauguro uma exposição no Rio de Janeiro, no Oi Futuro do Flamengo, no dia 16 de novembro de 2009, chamada Taba Amazônica. É a primeira instalação que se relaciona com a arte indígena. É uma taba em que o primitivo e o futurista se fundem, é uma projeção digital da cultura indígena com música e dança. É uma projeção da taba inteira — teto e paredes — onde as pessoas chegam e ficam imersas dentro da cultura indígena. Eu estou imensamente feliz em fazer, pois é a primeira vez na arte contemporânea que surge uma obra que faz essa ligação com a arte indígena. Quando um branco civilizado faz um risco na parede, ele diz que é arte. Quando um índio faz um desenho, o branco diz que é artesanato. Não é. É arte. Os índios, na verdade, são os primeiros artistas e nós devemos muito a eles — principalmente aos índios brasileiros.
 
 

 



"Fico muito feliz em anunciar que vamos inaugurar em 2010 no Inhotim um edifício de mil metros quadrados com as cinco instalações da Cosmococa."