Derradeiro silêncio dos cantadores

O processo de desaparecimento da língua africana na região de Diamantina está diretamente ligado à morte dos vissungos — cantos ritualísticos produzidos por negros descendentes de escravos.


Por Lúcia Valéria do Nascimento
Fotos Eustáquio Neves
 
Sendo a língua o elemento mais importante da cultura de uma comunidade, quando ela morre, perde-se o saber específico daquela cultura. Assim, tem-se constituído um dos maiores desafios da Lingüística — ciência que estuda as línguas, a linguagem humana — tentar salvar as línguas que estão em extinção em várias partes do planeta.

“É óbvio que temos de repensar seriamente nossas prioridades para que a lingüística não entre na história como a única ciência que assistiu despreocupadamente ao desaparecimento de 90% do campo a que se dedica,” explica Michael Krauss em The World Language in Crisis (1992).


Morte dos vissungos

Era voz comum que em algumas localidades próximas a Diamantina como Quartel do Indaiá — uma comunidade quilombola situada no distrito São João da Chapada —, e no povoado de Ausente, próximo ao distrito de Milho Verde, pertencente ao município do Serro —, as pessoas se comunicavam em dialeto africano.

O processo de desaparecimento da língua africana nesta região está diretamente ligado à morte dos vissungos — cantos ritualísticos produzidos por negros descendentes de escravos — que por sua vez, existiram enquanto houve contexto para a realização das práticas sociais em que eram envolvidos.


Cantos como práticas sociais

Os vissungos são de herança africana, e foram incorporados ao cotidiano da escravaria, em que eram entoados para aliviar os momentos extremamente árduos da mineração e nos funerais. Essas práticas sociais se caracterizam pela sistematização dos cantos que, além de terem uma forma definida, eram praticados de uma maneira ritualística, com sua execução sempre de acordo com o evento a que se destinava. Os cantos encontrados hoje, apesar de serem diferentes nas duas localidades (Quartel do Indaiá e Ausente), remetem às mesmas práticas, a saber: cantos de trabalho, de multa e de enterro.

Os vissungos encontrados em Ausente diferem em grande parte dos cantados em Quartel do Indaiá quanto às letras das músicas, mas não diferem quanto ao uso e às funções.

Os cantos de trabalho são de conhecimento dos cantadores do Quartel do Indaiá, que se lembravam de cantá-los durante os trabalhos de mineração quando era preciso carregar a roda para secar a água. Os cantos de multa eram entoados quando algum “freguês” (termo usado nas localidades mencionadas para se referir a qualquer pessoa que não pertencia ao grupo — provavelmente pessoa que vinha da freguesia) se aproximava e cruzava o terreno em que estavam trabalhando. Era uma espécie de cobrança de pedágio por deixar o freguês passar pelo local de trabalho dos escravos.

Com a abolição da escravatura, sem o trabalho grupal que anteriormente era exigido, essas práticas foram se dissipando. Hoje em dia é comum garimpar sozinho nas localidades no entorno de Diamantina. Isto nos leva a compreender o esquecimento dos cantos de trabalho e de multa sofrido pelos nossos cantadores Já os cantos de enterro, se ligavam a outra prática social. Era necessário levar o defunto que morria nas localidades mencionadas para o cemitério dos respectivos distritos. Como não tinham acesso a meios de transporte, como carro de boi ou similar, eles levavam o defunto enrolado num “banguê”, uma rede, amarrada em um pau, que era levada nos ombros por dois homens, e os acompanhantes, que revezavam o carregamento, iam cantando os vissungos ao longo do caminho. Hoje, com a pavimentação nestas localidades, com a chegada do carro (às vezes, funerário), não se faz mais necessária a realização desta prática social. Os cantos de enterro são totalmente diferentes nas duas localidades. De todas as três práticas, a que perdurou por mais tempo foi a prática do enterro, sendo registrada em 28 de Setembro de 2001, com a morte de “Bastião”, no Baú, próximo ao Milho Verde. E, posteriormente, com a morte do Crispim — “o encamendador de almas”, personagem do ensaio fotográfico publicado nestas páginas.

Os vissungos podem ser o resultado de um colapso lingüístico, de várias línguas africanas — sobressaindo o kimbundo. Os cantos, mais que cantos, eram uma forma de linguagem em que os escravos se comunicavam.

Os vissungos não estão desaparecendo somente pela morte dos cantadores; as práticas sociais que incluíam esses cantos foram dizimadas e com elas a prática lingüística utilizada para suas realizações.

Parte da cultura da população negra das comunidades de Quartel do Indaiá e Ausente, a saber, sua língua, encontra-se em franco processo de desaparecimento. As hipóteses levantadas para responder à pergunta sobre o que mantém ou destrói uma face da cultura, especificamente a língua, tiveram sua explicação a partir de fatores predominantemente sociais.


Os fatores que contribuíram para a destruição da cultura:


Primeiramente, a presença da Igreja Evangélica na localidade coibindo as práticas religiosas, os rituais e as manifestações em dialeto. Além disso, como já ressaltado, a falta de contextualização para o garimpo em massa (onde os negros eram obrigados a trabalhar em grupo), e a melhoria dos serviços de infra-estrutura, vêm sendo impeditivas à sobrevivência da língua.

A melhoria dos serviços de infra-estrutura nas localidades, como a abertura de estradas públicas, acabou por permitir a chegada do carro funerário. Essa realidade deixa pouca margem à prática dos vissungos de enterro.

Aponta-se também o comportamento da sociedade hodierna, em que os filhos já não se assentam com os pais como se costumava fazer, permitindo que houvesse repasse da cultura (histórias, rituais, vissungos, crenças, etc.) aos descendentes.

Outro fator responsável pela extinção da língua é a falta de prestígio em cultivar sua cultura. Os filhos da população negra não vêem interesse algum em estar cultivando suas origens. Não se interessaram em aprender os vissungos, tampouco o dialeto. A língua padrão, ensinada como a única possível para ascensão social, faz com que os membros das comunidades de fala rejeitem a língua ancestral.

Sendo as práticas sociais realizadas em grupo, e tendo havido a supressão destas práticas, restam aos cantadores as reminiscências que trazem na memória.

Otê! Pade-Nosso cum Ave-Maria, securo camera qui t’Angananzambê, aiô...
Aiô!... T’Angananzambê, aiô!...
Aiô!... T’Angananzambê, aiô!...
Ê calunga qui tom’ ossemá,
Ê calunga qui tom’ Anzambi, aiô!...

Transformou-se em:

Ê Pade Nosso com Ave Maria segura o kane, Oi Dandaiola...
Ah ê...
Ô kanunga me chama gerê ê...ê
Ô karan me chama gemá a...a...ê
Tê!
Tê...tê...tê...tê
Pade Nosso com Ave Maria segura o kane, Dandaia...
Dandaiê....ê
Ê...ê...
Ô kundero di ê num tem tempo
Oi vero o copo nuá tem tempo
Aiê!
Ô Kaíconde...ê...ê...ê
Ô kalúnga me toma bebê
Ô kalúnga me toma sambá...á
Êi...
Pê...rê...rê...rê
O mico kumbarano num tem tempo
Ô pu kumbarano num tem tempo
Ô...ê...ê...êi
kumbarauê... ê...ê... ê... êi
kumbará...
kumbarauê... ei... ê
kumbarauê... ê... êi.
Em Machado Filho, (1985:73) o Vissungo.