Os mais belos cenários da pré-história
 
Quem trilhar o mesmo percurso que o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund seguiu na sua jornada para desvelar para o mundo a inestimável riqueza da região cárstica, vai conhecer lugares que reúnem belas paisagens e um vasto acervo de história natural, história e pré-história. Um roteiro de viagem, proposto pela Secretaria de Turismo de Minas Gerais, abarca cidades como Belo Horizonte, Lagoa Santa, Sete Lagoas, Pedro Leopoldo e Matozinhos. O roteiro sugere visitas a museus, parques, grutas e fazendas coloniais.
 

Reportagem Rúbia Piancastelli
Fotos Francilins
 
Para quem não conhece Peter Lund (1801/1880), o dinamarquês é considerado pai da Palentologia brasileira, e foi um grande estudioso de Botânica e Zoologia. Lund desembarcou em terras brasileiras em 1825, mais precisamente no Rio de Janeiro. Em suas excursões por diferentes estados coletou muitos materiais que eram enviados, quase todos, para o Museu de História Natural da Dinamarca. Mas foi em Minas Gerais, na região de Lagoa Santa, que Lund fixou moradia, permanecendo ali de 1831 até o dia de sua morte. Suas pesquisas arqueológicas lhe renderam a descoberta de fósseis em cavernas e espécies fito-históricas (ajudado pelo ilustrador Andréas Brandt e posteriormente pelo jovem botânico Eugene Warming). Após ter explorado mais de 200 cavernas e descrito mais de 115 espécies de animais — como o tigre dos dentes de sabre (Smilodon populator) —, foi em 1843 que encontrou, na região de Lagoa Santa, uma área cárstica que preservava vestígios de homens pré-históricos. “Lund foi um marco e um mito, pois propôs interpretações inovadoras no estudo da pré-história”, resume Ana Maria Mafesotti, historiadora especialista em Peter Lund.


Tradição e ciência

É verdade que grande parte da coleção do naturalista, com cerca de 20 mil itens, foi doada para o rei Cristiano VIII da Dinamarca. Mas amostras de sua dedicação ficaram no Brasil, lhe rendendo o devido reconhecimento pelo trabalho que desvendou riquezas científicas e culturais do patrimônio mineiro, especialmente do Cerrado.

O Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, em Belo Horizonte, presta sua homenagem e repassa aos alunos e visitantes de todas as idades os conhecimentos do pesquisador, expostos na ala ‘Peter Lund: Memórias de um Naturalista’. Como afirma a responsável pelo setor de educação do museu, Ana Cristina Diniz, “valorizamos a ciência e a nossa tradição, trazendo para o museu o passado e o tornando-o um espaço cultural e de convivência.” Mais de 400 pessoas, por dia, visitam e se encantam com artigos, objetos pessoais, fósseis (Nothrotherium maquinense ou a preguiça terrícola, de 1839) e outros elementos que compõem o trabalho pioneiro que lançou bases para as ciências da arqueologia, espeleologia e palenteologia no Brasil.


Formações espeleológicas

A região onde Lund fixou residência é rica em grutas e abrigos. Embora modificados pelo tempo e, infelizmente, pelo homem, esses espaços ainda encantam seus visitantes, com suas formações espeleológicas e espécies únicas que ali vivem. A Gruta da Lapinha, destino turístico muito conhecido, é a maior representante da região do Carste de Lagoa Santa, com seus 511 metros de extensão e 40 metros de profundidade. Sua beleza cênica revela um mundo subterrâneo belíssimo que compõe um dos mais importantes cenários das ciências naturais do país. As palavras de Lund sobre as cavernas da região:

"Todos estes deslumbrantes primores da natureza são realçados pelos mais delicados ornatos tanto de formas fantásticas quanto de bom gosto, franjas, grinaldas e uma infinidade de outros enfeites, cuja enumeração seria fastidiosa e incapaz de dar idéia da beleza do conjunto àqueles que não o viram com os próprios olhos”.

Parte da riqueza dos sítios arqueológicos, objetos pré-históricos, podem também ser vistos no Museu de Arqueologia de Lagoa Santa, que oferece oficinas de cerâmica pré-histórica e pintura rupestre; e no Museu da Lapinha, criado há 28 anos pelo arqueólogo húngaro, Mihaly Banyai, responsável pela reunir mais de 2.600 objetos e ossadas. Essas e outras atrações fazem parte do Roteiro Turístico do Circuito das Grutas da Secretaria de Turismo do Estado de Minas Gerais (SETUR).


Riquezas do Sumidouro

Muito antes das descobertas de Peter Lund no interior mineiro, os bandeirantes paulistas estiveram na mesma região. Dentre as diversas expedições de aventureiros, chegaram a Minas Gerais, em 1674, os homens da bandeira de Fernão Dias em busca da terra dos metais preciosos. Fernão Dias encontrou a região das minas, mas as tão desejadas riquezas só foram descobertas alguns anos após sua morte, no Sumidouro, em 1681.

Palavra de origem indígena que significa “água que some”, Sumidouro denomina hoje uma região pertencente ao município de Pedro Leopoldo, mais conhecida como Quinta do Sumidouro. Em parte de seus domínios está o Parque Estadual do Sumidouro, unidade de conservação criada em 1980 e que também pertence à vizinha Lagoa Santa. Em sua área de cerca de 1.300 hectares, uma vegetação composta de matas de galeria e cerrado é habitada por espécies de ipês, moreiras e jatobás do campo; mamíferos como o mico estrela, raposas, tatus; répteis como jibóias e jararacas; além de aves como codorna, gavião, siriema, biguá e pica pau, dentre outros. O passeio imperdível, agora se tornou ainda mais especial com a recente retirada do dique que atravessava uma de suas maiores atrações: a Lagoa do Sumidouro.

A Lagoa destaca-se por seus cerca de 15 km de perímetro, sendo uma cavidade natural que permite a passagem da água para o subterrâneo. Em seus arredores, pinturas rupestres datadas de mais de 400 mil anos representam a vida cotidiana dos antepassados que cravaram seus desenhos nos rochedos. Próximo ao parque, ainda em Pedro Leopoldo, a Casa Fernão Dias fica à beira da estrada e sua arquitetura remete à segunda metade do século XVIII. É lá que está a sede da unidade de conservação e onde se aprende um pouco mais sobre a história da região.


Fazendas, museus a céu aberto

O passado, além de ser guardado por museus, pode ser compreendido e vivenciado nas fazendas da região, que preservam relíquias como igrejas e outras construções de séculos passados, além de objetos e utensílios que fizeram parte dos costumes e que podem ser vistos até hoje nas cozinhas locais.

Na Fazenda Vista Alegre, localizada em Pedro Leopoldo, na região do vale do Urubu, há um acervo de peças utilizadas no meio rural que conduz o visitante a uma viagem sobre com é a vida no campo. “Fazemos aqui um turismo pedagógico e praticamos a chamada ecologia do campo, onde alunos e visitas não-escolares tem a oportunidade de ver, na prática, como funciona uma fazenda. Passeios e aulas são dadas meio à natureza, com observações da fauna e flora. Temos ainda um mini-museu que resgata a história dos objetos antigos, voltados para esse meio”, conta a turismóloga e dona da Fazenda, Marta Maria Garcia. Passeios de charrete e trator, caminhada ecológica, banho na Cachoeira do Urubu — tudo isso e outras atrações fazem parte do pacote. A Fazenda está inserida no Roteiro Turístico do Circuito das Grutas e sua sede em estilo colonial foi construída em 1940. Em seus domínios, uma área de 150 hectares é destinada a pecuária de corte e plantação de cana-de-açúcar. Essas atividades complementam a possibilidade de o visitante vivenciar o meio rural de forma integrada à natureza.


Jagoara Velha

Ainda mais tradicional é a histórica Fazenda da Jagoara Velha, localizada no distrito de Matozinhos e fundada em 1724 pelo sargento-mor português João Ferreira dos Santos. Em seu passado de riquezas da época da extração aurífera, pertenceu ao capitão-mor Antônio de Abreu Guimarães que, para obter perdão da Rainha D. Maria I pelos atos de contrabando que realizava, comprometeu-se com a construção de uma igreja. Para isso, contratou o maior dos arquitetos e entalhadores da capitania — Aleijadinho, que ergueu a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Jagoara (iniciada em 1782). A obra nunca foi finalizada. Altar e púlpito, além das peças sacras, foram vendidos pelo inglês Mr. Chalmers, Superintendente da Mina de Morro Velho e dono da fazenda por um longo período. Hoje grande parte dessas peças estão na Igreja Matriz, em Nova Lima.

Desde 1975 a Jagoara Velha, tombada como patrimônio histórico, pertence à família de Lêda e Galeno de Andrade. Embora a igreja esteja em ruínas, Lêda conseguiu apoio da Usiminas para escorar as torres, protegendo o que restou desse significativo exemplar do barroco mineiro pouco conhecido e reconhecido no estado. “Não só a igreja como todo o conjunto da Jagoara carregam parte da história do ciclo do ouro, do século XVIII. Trata-se de um lugar de tal importância que tinha até legislação própria, determinada na época pelo Marquês de Pombal. Hoje, lutamos para manter a fazenda e esperamos que algum projeto possa nos ajudar a restaurar parte desse patrimônio”, afirma Lêda Torres de Andrade. Lêda, mineira de Bambuí, administra os cerca de três mil hectares junto com os filhos. No casarão onde vive, na Jagoara, construiu uma capela com sua arte: pinturas com as feições de anjos e santos com os semblantes de seus pais, filhos, netos e outros parentes. Os visitantes se encantam não só com a riqueza cultural, mas com os casarios coloniais, o moinho, um pequeno passadiço e a natureza exuberante.



O recém implantado Parque Estadual do Sumidouro, além de resgardar importantes vestígios arqueológicos e palentontológicos, é importante refúgio para aves migratórias importantes vestígios arqueológicos e palentontológicos, é importante refúgio para aves migratórias. Na foto, a Gruta do Balé com as pinturas rupestres que simbolizam o ritual de fecundidade.


Retrato de Lund por Eugen Warming, década de 1860. A imagem feita pelo naturalista dinamarquês foi um dos primeiros retratos fotográficos realizados em Minas Gerais.

Fazenda da Jaguara: as ruínas da Igreja, atribuída a Aleijadinho, compõem o complexo da Fazenda da Jaguara, que foi o principal entreposto fiscal entre a região das Minas e a saída para o mar baiano, no período da colônia.


Flores do carste eclodem no fundo das lagoas sazonais do carste.

O sítio arqueológico de Cerca Grande é o único tombado pelo IPHAN no país.


As pinturas pré-históricas da Lapa do Ballet, antes cobertas por pichações, foram recuperadas em projeto pioneiro no estado, coordenado pela restauradora Helena David.