Antropofagias

Por Euclides Guimarães

 
A cultura brasileira surgiu na mistura e nela se formou. Do primeiro ao último brasileiro, pesa sobre nós a necessidade da vacina antropofágica, entendida esta como uma forma de ler, admirar, comer e se deixar influenciar pelo que vem de fora, digerindo tudo de acordo com as modulações proporcionadas por nossas raízes.

Nas raízes já se fincaram grande parte dos bens e dos males que viveríamos nos séculos seguintes. Nelas estava nossa habilidade para lidar com o estranho, combinando constantemente o que nunca havia sido combinado antes, deglutindo influências de tradições intercontinentais, extraindo dessas combinações algumas de nossas peculiaridades culturais. Nelas estava nossa vocação para a miscigenação, que faz de nós um povo especialmente dotado para a adaptação ao exótico, tornando-o logo-logo familiar. Mas também nelas estava uma hierarquia rígida, construída e mantida em nome dos interesses de uma ordem mundial na qual sempre nos inserimos como servidores e não como beneficiários. Apesar de ser o Brasil uma das principais fontes das imensuráveis riquezas que passaram a ser despejadas na Europa a partir da descoberta das Américas, ou talvez por isso mesmo, nunca pudemos existir como “um povo para si mesmo”. As sucessivas colonizações da economia global nos legaram pobreza e complexo de inferioridade.

Essa síndrome, que ainda nos ameaça, se inicia pelo fato de nossa existência como povo ser anterior à nossa existência como nação. Mesmo que de forma fragmentária, devido em parte à extensão territorial, em parte aos diferentes ciclos econômicos de nossa formação, já éramos um povo de cara própria no tempo da independência. Contudo, para se construir um conjunto de mitos e histórias que pudessem funcionar como um erário cultural, um amálgama para a identidade nacional, surge um primeiro projeto com D. Pedro II. O rei então criou as academias de arte, financiando artistas para dar forma a esses mitos. Em suas telas e textos, antigos conspiradores torturados pela coroa portuguesa, elevam-se à condição de heróis, a exemplo do mártir da independência, Tiradentes. As raízes indígenas e as raízes negras também passam a ser reconhecidas, mas sua idealização romântica as desviava totalmente de suas características originais, aproximando-as esdruxulamente dos modelos europeus de bom comportamento.

Contra os modelos europeus de bom comportamento divulgados pelas “elites vegetais”, fizemos foi antropofagia. O ritual ameríndio de cozinhar o inimigo e comer-lhe a carne encaixa perfeitamente na nebulosa de significados que são os ingredientes da vacina antropofágica. Com ele aprendemos sobre a potência transformadora da deglutição e o sentido amplo do ato de comer.

Uma segunda forma de antropofagia já era praticada pela espontaneidade de nossa cultura popular. Trata-se da incrível operação de desmanche e remanejamento dos bens culturais importados, sua releitura, sua reciclagem, sua mastigação e sua transformação segundo a ótica dinâmica das negociações cotidianas. Eclode em diferentes tempos e lugares, com destaque para as periferias das grandes cidades, as regiões portuárias e os espaços férteis de sua efervescência: a praça pública, os terreiros dos mucambos, os cortiços, as favelas. Foi a antropofagia que comeu o pandeiro árabe e o vomitou brasileiro, que transformou a senzala, de lugar da tortura, em berço da festividade, que pôs anjinhos mulatos na igreja de São Francisco em Ouro Preto e que fez o malandro da Lapa ser o negativo fotográfico do homem chique da Cinelândia: o branco de terno preto invertido no preto de terno branco. Foi enfim, e continua sendo, a grande carnavalização da vida, que amolece suas durezas, balança suas hierarquias, faz graça da desgraça e picardia de seus pudores morais.

Em sintonia com o encanto radical das vanguardas modernas, que desde a Europa já a endossavam, desejosa de expurgar aquele tal complexo de inferioridade, disposta a desmascarar as leituras europeizadas de nossa ancestralidade, surge uma terceira antropofagia, dessa vez como movimento cultural, estabelecendo uma meta definitiva para a cultura brasileira: ser nós mesmos sem purismos, abertos ao mundo e a tudo o que seja capaz de nos instigar. Ser nós mesmos entre todas as influências, sob a proteção da vacina antropofágica.

O brasileiro é um povo arteiro, de suas faltas extrai a base de sua arte, que assim também se faz base de sua festividade, de sua alegria, inversão da dor; de sua fantasia, inversão da crueza do real que se lhe abate, de sua preguiça, inversão da ordem produtiva brutal em que se insere.

O modernismo antropófago foi uma tomada de consciência do poder de nossa arte. Tendo sido produto de um hibridismo cultural singular e inusitado, não se pode dizer que se manifestou através de uma arte popular, mas é certo que se aproximou carinhosamente das mais autênticas raízes nacionais, justamente aquelas que até então mais pareciam motivo de vergonha que de orgulho.

O resultado do encontro entre modernistas libertários e novas tradições populares foi base simbólica e energética para a consolidação de um orgulho nacional. Mas os ventos da modernidade sopram por muitos lados. Uma grande frente de progresso viu os eflúvios desse encontro se desdobrarem em novos ícones para a identidade nacional. Um novo projeto, tendo agora Getúlio Vargas como maestro, acrescenta novos ícones à sisuda galeria de heróis e tipos nacionais. Emerge ainda um conjunto de megafones para os bens culturais, as mídias, a começar pela indústria fonográfica e o rádio, a que vem se juntar o cinema, a propaganda, as revistas ilustradas etc.

Nasce assim o Brasil pop, como o país do carnaval, terra do samba, do futebol, da capoeira, da mulata, do malandro. Evidente que nenhum mito escapa de sua condição fantasiosa e que há muito romantismo nas entranhas da arte moderna. É certo ainda que as apropriações pelas mídias empobrecem os símbolos, na medida em que os imerge num mundo onde tudo se governa pela lógica da produção e consumo. Mas, para lidar com a profusão de símbolos que os próximos tempos trariam, novas antropofagias viriam, como a Tropicália nos 60 ou o Manguebeat, nos 90. Serão assunto de nossa próxima edição.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC-MG.





"Apesar de ser o Brasil uma das principais fontes das imensuráveis riquezas que passaram a ser despejadas na Europa a partir da descoberta das Américas, ou talvez por isso mesmo, nunca pudemos existir como “um povo para si mesmo."