Acervo de obras-primas

O fabuloso Inhotim presenteia seu público com nove novas obras permanentes e paisagens nunca antes vistas. As monumentais obras são assinadas por Chris Burden, Doug Aitken, Edgard de Souza, Janet Cardiff & George Bures Miller, Jorge Macchi, Matthew Barney, Rivane Neuenschwander, Valeska Soares e Yakoi Kusama.
 

Por Rúbia Piancastelli
Fotos Francilins
 
O Instituto Inhotim, maior centro de arte contemporânea e jardim botânico do Brasil, oferece mais nove obras permanentes para seu público. Inaugurados oficialmente no dia 30 de setembro de 2009, cinco pavilhões e quatro instalações a céu aberto já podem ser visitados a pé ou em carros elétricos para até oito pessoas. Espalhados por cerca de 30 hectares, correspondentes ao total da área de visitação, os espaços são assinados por artistas reconhecidos nacional e internacionalmente. Mas os maiores beneficiados com essa ampliação do acervo e da área para ser apreciada são os visitantes, que podem desfrutar dos vários novos destinos.

Quem optar por se integrar à natureza poderá fazer uma caminhada de cerca de um quilômetro para chegar até as novas atrações, rodeados por florestas nativas que refrescam o caminho. Para quem prefere o conforto de ir sentado, um carrinho elétrico guia até onde está cada obra. Em poucos minutos, outro Inhotim é descerrado para a vista dos curiosos. As áreas verdes e novos lagos compõem o cenário que recebeu vidros, cimento, vigas de ferro, tinta e outros materiais que se transformaram nas nove construções.


Acaso e forma tridimensional

A primeira das novidades, concebida ainda em 2008, foi Beam Drop Inhotim, de Chris Burden, artista americano performático e extremamente criativo. Durante 12 horas, Burden soltou, como que caindo dos céus — só que de uma altura de 45 metros —, 71 vigas de construção em um poço de cimento fresco. Embora marcada por certa previsibilidade, a obra tem como característica principal o acaso, devido ao padrão aleatório com que as vigas penetravam no cimento. O curador e diretor artístico do Inhotim Jochen Volz, afirma que o processo foi emocionante: “A construção dessa obra foi brutal, uma espécie de anti-arquitetura. Na época não havia infra-estrutura para chegar até o topo, onde a instalação está hoje. E ao chegar, o acaso que dominou a obra nos deixou impressionados. Ficamos de sete da manhã às oito da noite acompanhando essa criação de Burden. Foi incrível, nunca tinha visto nada igual!” As vigas, que atingem até 15 metros de altura, podem ser vistas e tocadas, descortinando ainda uma maravilhosa vista ao seu entorno, pois está num patamar de maior altitude em relação ao restante do espaço do Inhotim.

A poucos metros abaixo da floresta de vigas uma piscina convida para ser admirada. Mas é muito mais que um retângulo branco com água azul e límpida: trata-se de uma aquarela do argentino Jorge Macchi que ganhou vida e transformou-se na obra Piscina (2009). Da ilustração de uma caderneta telefônica bidimensional, o criador pôde realizar, a convite do Inhotim, sua primeira obra em forma tridimensional, numa verdadeira escultura cujo índice alfabético mergulha, literalmente, nas águas da piscina. A obra — como outras das novidades recém-inauguradas — foi elaborada dentro do conceito inovador site-specific, que possibilita ao artista projetar suas ideias se apropriando do espaço e recurso oferecidos para a montagem.


Constante mutação

Aproveitando dos recursos do Inhotim para abrigar obras geniais, trazidas pelas mãos do trio curador formado por Jochen Volz, Allan Schwartzman e Rodrigo Moura, o artista americano Doug Aitken escolheu o miolo de uma floresta para instalar seu Sonic Pavilion (2009), uma construção única. No interior do pavilhão o espectador escuta a transmissão, potencializada por amplificadores, dos sons da terra. Sim, microfones geológicos de alta sensibilidade colocados em uma cratera de 200 metros de profundidade captam diversas ondas emitidas nas profundezas da Terra. A experiência é singular, pois não seria possível de outra maneira e talvez, nem em outro local — dado que são circunstâncias e sons únicos. A arquitetura de vidro, circular e com uma rampa em espiral que conduz o visitante ao centro da instalação, arremata a obra sensível, que, por ter uma característica de “ao vivo”, está em constate mutação, viva e respirando. Continuando a viagem pelos pavilhões, chegamos ao The murder of crows (2008), criação de Janet Cardiff & George Bures Miller. Também marcada por uma sonoridade ímpar, a obra conta com 98 alto-falantes montados em paredes, cadeiras e pedestais — num verdadeiro ambiente de orquestra — para emitir marchas, canções de ninar, textos falados e outras composições. O resultado dessa pluralidade de sons é uma narrativa onírica de cerca de 30 minutos, que desperta emoções igualmente diversas. O trabalho, inspirado na gravura “O sono da razão produz monstros” (1799), de Goya, explora a percepção audiovisual e estimula a ilusão do espectador, que entra na história por meio dos jogos sonoros emocionantes e quase reais. Para não esquecer e aproveitar a visita, Janet Cardiff tem outra obra instalada no Inhotim: “Forty Part Motet” (2001), na Galeria Praça.


Aço, vidro e contemplação

Dentro do conceito site-specific mais uma obra ganha vida no seio da mata. “De lama lâmina” (2004-2009), de Matthew Barney, ganha, aliás, vida dupla. Desdobrada de um projeto que teve origem na performance do artista americano com o músico Arto Lindsay, no carnaval de Salvador de 2004, a obra foi documentada em um vídeo longa-metragem e continuada com uma instalação montada dentro de dois domos de aço e vidro. O longa é exibido no Inhotim desde 2008, e o pavilhão geodésico recém-inaugurado abriga uma verdadeira guerra com influência do candomblé: de um lado, um trator ainda sujo de lama, símbolo da força e ferro — como o orixá Ogum —; do outro, uma árvore branca pendente do braço do trator – como Ossanha, orixá das florestas, plantas e natureza. Essa narrativa idealizada por Barney, em forma de uma grande estrutura, foi posicionada entre os eucaliptos para criar uma ambiência, completando a experiência do visitante. Passando da guerra entre forças para um ambiente mais suave, o espectador pode, literalmente, contemplar um céu de nuvens móveis. Esse é o sentimento que a artista belo-horizontina Rivane Neuenschwander pretende despertar com a obra Continente/Nuvem (2008). Instalada em uma residência de fazenda datada de 1874, a mais antiga construção que restou da antiga propriedade — hoje sede do Inhotim —, a obra cinética ocupa totalmente o teto da casa. Pequenas bolas de isopor se movem aleatoriamente pelo forro translúcido, dispersas por circuladores de ar que ajudam no desenho de formas abstratas, como nuvens no céu. A arquitetura simples da casa e a delicadeza da instalação sugerem uma contemplação intimista e lúdica. Outra obra da artista pode ser vista também na Galeria Fonte: “Word/World”, vídeo feito em parceria com o também renomado Cao Guimarães.


Jogo de sobreposições

Para completar o time das mineiras, Valeska Soares traz, com Folly (2005-2009), a adaptação de um antigo trabalho para um pavilhão especial. A vídeoinstalação, que já foi exibida no Museu de Arte da Pampulha, mostra dois bailarinos que se movem pela pista de dança, num jogo de sobreposições e imagens mágicas. Transpostos para dentro de uma construção octogonal semelhante aos gazebos de jardins, à beira de um lago, as imagens fantasmagóricas dos dançarinos são refletidos infinitamente pelos inúmeros espelhos. Para os bons observadores, uma brincadeira artística: enquanto os bailarinos são multiplicados internamente pelos reflexos, a natureza que circunda o pavilhão é refletida também pelos espelhos que recobrem a construção.

Voltando ao ar livre, as esculturas de bronze do paulista Edgard de Souza formam uma obra que não tem título, mas é pura expressão. São três das peças mais importantes do artista agora reunidas em meio a um jardim, posicionadas de forma interessante sobre o tablado de cimento liso. São representações da figura masculina, baseadas no próprio corpo de Edgard, numa auto-representação que exibe um detalhe: nenhuma tem cabeça. Em poses abstratas e fragmentadas, as imagens evocam a história da arte e convidam o observador a acompanhar as curvas sedutoras e um movimento que parece continuado pelas estátuas.


Esferas brilhantes

Já a instalação de Yakoi Kusama encanta os visitantes que sobem até a cobertura do novo prédio do Centro Educativo Burle Marx (onde há um novo café, teatro, salas para atividades educativas, biblioteca e mais espaços para exposições temporárias). Narcissus Garden (2009) é composto por 500 esferas brilhantes de aço inoxidável que flutuam sobre piscinas espelhadas, movidas pelo vento e circundadas por plantas aquáticas multicoloridas que também são refletidas pelas bolas. Aguçando o narcisismo que há em cada um dos humanos, Yakoi incita, com as esferas, o desejo de se olhar — daí no nome da obra, vindo de Narciso. A versão original dessa instalação foi apresentada pela japonesa na Bienal de Viena, com um detalhe provocativo a mais: eram três vezes mais bolas e todas estavam à venda por dois dólares, para quem quisesse comprar seu próprio narcisismo! A polêmica rendeu a Yakoi a expulsão da Bienal, mas, sua obra, ainda mais instigante, rendeu-lhe outros espaços, como o Inhotim.

Em meio a tanta arte fluindo meio a uma natureza exuberante, não é por menos que, pelo quarto ano consecutivo, o Instituto Inhotim recebeu a classificação máxima do Guia 4 Rodas Brasil. As cinco estrelas na categoria ‘Passeio' posicionam a atração entre as 28 melhores do Brasil, dentre destinos como o Cristo Redentor e Fernando de Noronha. Nas palavras do Guia Brasil 2010, o Inhotim é hoje "a maior combinação de museu de arte contemporânea e jardim botânico do mundo". Destaques foram dados para as galerias Cildo Meireles e Adriana Varejão, e a obra Forty Part Motet, da canadense Janet Cardiff.


110 mil visitantes

O Instituto Inhotim foi fundado em 2002 e aberto ao público em 2006, completa três anos como uma atração única e em constante expansão, funde arte contemporânea e jardim botânico; práticas de inclusão, educação e preservação; é um dos maiores centros de produção de cultura e inovação. Atualmente, podem ser vistas obras de Adriana Varejão, Arthur Barrios, Chris Burden, Cildo Meireles, Doug Aitken, Hélio Oiticica, Larry Clarck, Matthew Barney, Michel Majerus, Olafur Eliasson, Rirkrit Tiravanija & Navin Rawanchaikul, Rivane Neuenschwander, Tunga, Vik Muniz, dentre outros.

A 60 km de Belo Horizonte, a área do Instituto é composta por um espaço de reserva natural de 600 hectares de mata nativa conservada, um Parque Tropical com 45 hectares de jardins botânicos, além de cinco lagos ornamentais (mais 3,5 hectares). Em 2008, mais de 110 mil visitantes nacionais e internacionais puderam desfrutar do vasto acervo artístico e natural. Ao todo, mais de 480 obras compõem o patrimônio do Instituto Inhotim, sendo 30% delas disponibilizadas em exposições permanentes ou temporárias. Com as novas nove obras, a área de visitação foi expandida de 10 para 30 hectares. Em cada canto, mais uma surpresa encantadora para se ver, ouvir e sonhar.



O artista americano Doug Aitken escolheu o miolo de uma floresta para instalar seu Sonic Pavilion.


Beam Drop Inhotim, de Chris Burden. O artista americano soltou, como que caindo dos céus — só que de uma altura de 45 metros —, 71 vigas de construção em um poço de cimento fresco.

The murder of crows (2008), criação de Janet Cardiff & George Bures Miller, obra com 98 alto-falantes e uma incrível sonoridade.


Os curadores Rodrigo Moura e Jochen Volz junto a obra Piscina do argentino Jorge Macchi.

As esculturas de bronze do paulista Edgard de Souza.


Yakoi Kusama criou “Narcissus Garden” (2009), composto por 500 esferas brilhantes de aço inoxidável que flutuam sobre piscinas espelhadas.