Amplidão das águas
 
O Lago de Furnas, o mar mineiro, é um dos maiores lagos artificiais do mundo com 1.500 quilômetros quadrados de superfície e perímetro de 3.700 quilômetros. Cerca de um milhão de pessoas vivem nos 34 municípios banhados pelo lago, sendo que vários deles oferecem diferentes opções em atrativos turísticos. A região, inclusive, optou por investir no turismo como alternativa econômica.


Reportagem Patrícia Castro
Fotos Renato Soares


Por iniciativa do mineiro e então Presidente da República Juscelino Kubitschek, o estado de Minas Gerais foi contemplado com uma nova paisagem de águas. Tudo se deu a partir da construção da Usina Hidrelétrica de Furnas iniciada em 1958. Um colapso energético se anunciava ameaçando o país. Para JK, o empreendimento evitaria o apagão elétrico e serviria como medida de controle da inflação.

Construir uma usina do porte da de Furnas (uma das maiores da América Latina na época) exigiu a contratação de profissionais estrangeiros e a compra de equipamentos do exterior. Mas o jeitinho criativo dos brasileiros foi primordial na solução de muitos imprevistos técnicos.

Erguer a usina hidrelétrica implicou a construção de uma represa. Para construir a barragem, terras foram desapropriadas. Pessoas desalojadas. A insatisfação popular impeliu mobilizações, mas nada conseguiu frear a execução do projeto.

Conta-se que uma certa dona Clarisse de Souza Rodrigues deu muito trabalho aos advogados de Furnas. Nem mesmo a carta do presidente Juscelino foi capaz de demovê-la da ideia de não vender as terras. Dona da fazenda Corredeiras, que abriga hoje as instalações da usina e o bairro, ela lutou para não ser desapropriada. Usou não só a voz, mas também a carabina. Recusou dinheiro e as obras começaram com ela dentro mesmo do canteiro. Mas Clarisse acabou cedendo à oferta de um sobrado luxuosamente mobiliado no Rio de Janeiro.


Uma nova história

O projeto foi seguindo adiante. Em janeiro de 1963, o túnel que desviou o curso do Rio Grande para o seu represamento e funcionamento da usina, foi fechado. O Lago de Furnas começou a tomar forma. As águas proliferaram gerando praias, cachoeiras, moldando cânions. Mas isso sem poupar a inundação de grandes áreas que mudaram para sempre a história dos habitantes dali. Muitos deles inconformados com o rumo incerto a que teriam de se adaptar.

A sede do município de Guapé ficou praticamente submersa. A nova cidade foi construída próxima à antiga, em um local mais alto onde o lago acabou formando uma península. Já o distrito de São José da Barra ficou completamente embaixo d’água, dando lugar à "Nova Barra” que, a pedido do pároco local, foi construída pela Central Elétrica de Furnas na forma de um banjo. A história escrita pelas trilhas de bandeirantes, tribos indígenas e quilombos que um dia ali estiveram, também submergiu quando as águas subiram e reconfiguraram a paisagem. Era o início de uma nova história para os moradores dos 34 municípios da região banhada pelo lago artificial.


Os ganhos e as novas possibilidades

O lago tornou-se importante para o país em função do seu potencial energético. Os seus 23 bilhões de metros cúbicos de água produzem até 1216 megawatts de energia. O mar mineiro é um dos maiores lagos artificiais do mundo com 1.500 quilômetros quadrados de superfície e perímetro de 3.700 quilômetros. É cinco vezes maior que a Baía de Guanabara. Cerca de um milhão de pessoas vivem nos 34 municípios banhados pelo lago , sendo que vários deles oferecem diferentes opções em atrativos turísticos.

Antes do alagamento, a maioria das cidades tinha vocação agropecuária. A inundação das áreas produtivas levou as cidades margeadas pelo lago de Furnas a investir no turismo como alternativa econômica. Restou à população aproveitar os recursos que surgiram com a nova paisagem. Pousadas, hotéis, restaurantes, atividades náuticas, trilhas ecológicas e turismo de aventura passaram a movimentar a economia ao oferecerem opções para o turista. No lugar existem cerca de 260 empreendimentos turísticos, auxiliando na geração de empregos e impostos para os municípios. E o fomento ao turismo não deixa de se aliar à tradição mineira. Reminiscências dos antepassados persistem no artesanato, na tecelagem, na comida típica que sai do fogão à lenha e põe a mesa, na fumaça que voa das chaminés com cheirinho de café coado, na produção artesanal de cachaça, no ranger cantado dos tradicionalíssimos carros de boi — que teimam em circular pelas estradas de terra levando a produção agrícola — e na hospitalidade de sempre.

A paisagem em si já é um atrativo turístico: água a perder de vista (lagos, cachoeiras, praias artificiais, piscinas naturais) matas, fazendas, cânions, paredões rochosos. As lavouras de milho, café, batata e cana compõem uma colcha de retalhos que se contempla do alto da Serra da Tormenta no município de Carmo do Rio Claro. A beleza natural compõe o cenário para quem quer fugir da agitação e do estresse das grandes cidades. Na região, casas de adobe (tijolo de terra prensado e seco ao sol) são ainda muito comuns, conferindo um toque rústico por todo lugar.


Cânions, cachoeiras, passeios

Os cânions são grandes paredões rochosos com mais de 50 metros de altura. Na região de Furnas as águas formam reentrâncias e cachoeiras. Destacam-se a Lagoa Azul, Cascatinha, Cachoeira da Dri, Diquada, Diquadinha. O acesso a elas só é possível pelo lago. Para isso é necessário contratar os serviços locais que disponibilizam passeio de lancha. A excursão de chalana é outra opção para a travessia. A  embarcação tem lanchonete, banheiros e barco de apoio para atender um público de até 100 pessoas. O trajeto de chalana pelo Lago de Furnas dura três horas, incluindo a parada para banhos. O turista pode apreciar grandes paredões rochosos, cachoeiras e os cânions de quartzito de onde brotam algumas espécies de plantas do cerrado, como cactos e canelas de emas.

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Encantos a desbravar

As cidades que estão no entorno do Lago de Furnas são ricas em belezas naturais e oferecem vários atrativos, principalmente aqueles ligados às atividades de ecoturismo, turismo de aventura, pesca, passeios de barco e esportes náuticos. A região também é rica em história e tem grande tradição nas manifestações culturais como as festas populares, religiosas e o folclore, além do artesanato e da culinária típica.


Capitólio

A cidade reúne praticamente todos os atrativos turísticos que a região de Furnas dispõe, aliando beleza natural com atrativos ligados ao ecoturismo e atividades náuticas. A cidade abriga as famosas Escarpas do Lago, maior marina fluvial da América Latina. A estrutura que envolve o balneário de escarpas, embora lembre um condomínio fechado, é um bairro de Capitólio. A cidade possui ampla praia artificial com infraestrutura adequada para os banhistas: banheiros públicos, barracão para festas, duas quadras poliesportivas, quadra coberta e calçadão onde as pessoas aproveitam o final da tarde para caminhar. Vale a pena visitar o Morro do Chapéu, mirante natural a 1.293 metros de altitude. De lá se avista boa parte do Lago de Furnas e algumas cidades por ele banhadas. O topo é um planalto onde coexistem vegetação típica de cerrado, flores silvestres, nascentes de águas límpidas e fauna composta por tamanduás, lobos e tatus. Outro atrativo é a Trilha do Sol a cerca de 25 quilômetros do município. O local tem cachoeiras, piscina de água corrente e trilhas. Pousada e restaurante de comida mineira acolhem o turista. 

Parte da cidade de Capitólio ficou debaixo d’água depois da criação do reservatório. Agora, o mergulho na represa de Furnas é uma das atrações da cidade. A profundidade chega a 45 metros e diversas espécies de peixes podem ser admiradas.

Os tucunarés azuis e amarelos são os principais alvos da pesca esportiva. Os pequenos riachos encachoeirados da região têm dourados, tabaranas e traíras. Um fato curioso da cidade é o anúncio das principais notícias no alto falante da Igreja Matriz da cidade.


Carmo do Rio Claro

Carmo do Rio Claro teve 11 mil alqueires de terras férteis inundadas pela mudança da paisagem hidrográfica. A partir de então, sustentou-se na memória, na herança que permanece dos antepassados. As cores da tradição sobrevivem no artesanato que alinha os fios coloridos no tear e combina cores doces nas compotas. A qualidade desses produtos garante a exportação para os Estados Unidos e Europa. Carmo do Rio Claro também presenteia com trabalhos em cerâmica pintados à mão, licores, queijos e cachaças.

O passado do município também revive no folclore. Os visitantes e moradores convivem com as tradições da cultura popular que foram sendo transmitidas de pai para filho. O legado se manifesta na mistura de festa e religiosidade, mantendo viva a memória através das Companhias de Reis, Congadas, Moçambique. Pessoas simples, de fé inabalável, são os personagens das celebrações. Com vestimentas alegóricas, declamam e cantam a fé no menino Jesus ao som da sanfona e do pandeiro. Em dezembro, a cantoria invade casas sensibilizando as pessoas a fazerem doações.

Um dos principais pontos turísticos de Carmo do Rio Claro é a Serra da Tormenta com seus 1.287 metros de altitude e uma rampa natural para saltos de vôo livre e paraglider. 


São João Batista do Glória

São João Batista do Glória é uma cidadezinha típica do interior de Minas com seus sete mil habitantes. Trilhas, cachoeiras,  piscinas naturais, riachos  e lagoas desenham a paisagem. Segundo dados do Conselho Municipal de Turismo (Comtur), a cidade tem aproximadamente 130 cachoeiras. As de fácil acesso são ideais para o passeio com crianças. Para os aventureiros, o lugar também tem trilhas difíceis e geografia favorável para esportes radicais. Paraíso Perdido é um dos destaques do local. É formado por um complexo de cachoeiras de água cristalina, piscinas e pedras que fazem as vezes de tobogãs naturais. No Glória, como é carinhosamente conhecida a cidade, é possível encontrar sossego e aventura na mesma proporção.


Boa Esperança

A cidade guarda um importante patrimônio histórico. Vestígios do século dezoito ali permanecem testemunhando o período do descobrimento da região pelos bandeirantes que buscavam ouro. Do estilo de construção que marcou a época, existe ainda a Fazenda da Senzala à 15 km de Boa Esperança. Construída há mais de 250 anos, era uma das propriedades de José Alves de Figueiredo, fundador da cidade. O porão, antes senzala, atesta o período da escravatura no Brasil. A fazenda é aberta à visitação e, no local, um bar oferece refeições e petiscos. Para os amantes de esportes aquáticos, o Lago dos Encantos é ideal para pescar, velejar, andar de caiaque, jetski, ski aquático, lancha e barco. Vale ressaltar que o encontro da última etapa do Campeonato Brasileiro de Jetski acontece no município. O evento atrai uma multidão do Brasil e exterior.

Para quem gosta de voar e escalar, parapente e rapel. Para quem prefere caminhadas por terra, trilhas conduzem a cachoeiras e matas da região. Passeios à beira do Lago dos Encantos... encantam. O percurso é enriquecido com a vista da cidade, da Serra da Boa Esperança e das colinas com plantações de café, lavoura cultivada por quem perpetua a tradição no manuseio da semente, direto da terra, antes da invasão das águas. Céu, terra e mar. Infinitude que convive e convida para Boa Esperança.


Pimenta

Cidade próxima da Serra da Canastra, Pimenta abriga a fazenda do Juquita, propriedade da família Caetano. A família é dona da fazenda há cem anos e o lugar acabou se tornando ponto turístico. Isso porque lá tem cachaça fabricada em alambique, queijo feito na fazenda e pão de queijo igualmente caseiro. Uma pequena venda no local comercializa diversos produtos lá feitos, como compotas e conservas.

Em Pimenta destaca-se ainda Santo Hilário, um arraial de 400 habitantes. Ali a natureza molda o espaço para a prática de esportes radicais como rapel, trilhas de motos, motobike, vôo livre e caminhadas. A pesca esportiva, passeios náuticos e mergulho completam os atrativos.

A cachoeira da Quaresma é o cenário ideal de beleza e aventuras. Está localizada num lugar repleto de quaresmeiras, o que deu nome ao atrativo. Logo no início do trajeto que leva à corredeira, pequenas pedras formam pontes naturais que desembocam em um lago de água transparente. A Cachoeira da Quaresma tem duas quedas d’água. A primeira, com 30 metros de altura, é de fácil acesso. Já a segunda tem 70 metros e, para dela usufruir, enfrenta-se uma caminhada muito íngrime. Há ainda a Cachoeira da Fumaça, a Cachoeira Grande, Cachoeira do Lageado, Cachoeira do Genes e a Cachoeira da Usina. Além de quedas d’água, Pimenta guarda recursos naturais ainda não explorados, como salões no interior de algumas grutas e cavernas como a de Olhos D’água.

Uma opção de hospedagem em Pimenta é a Estância de Furnas, um centro de lazer e recreação voltado para a prática do turismo rural, ecológico e de aventura. Situada numa região privilegiada, a Estância disponibiliza diversas acomodações, entre apartamentos, chalés e casas de diferentes estilos.


Guapé

Guapé preserva sua tradição folclórica promovendo apresentações de grupos de Congo, Moçambique e Folia de Reis. Um dos principais pontos turísticos da cidade é o Parque ecológico do Paredão. Formado em uma fenda entre serras, oferece uma vista privilegiada, três belas cachoeiras, locais para banho, trilhas ecológicas, rapel e escalada. No local há uma estrutura montada para receber o turista com serviço de restaurante, banheiros, e área fechada para camping e estacionamento. Nos fins de semana de forte calor, principalmente nas festas de fim de ano, janeiro e carnaval, o parque recebe vários turistas atrás de beleza e agitação.

A cidade também presenteia o turista com a cachoeira do Macuco que nasce a 1.200 metros de altitude. A queda d’água se dá a uma altura de 46 metros. As águas são cristalinas e formam uma piscina natural própria para saltos e mergulhos. É possível acampar na área livre e de vegetação rala que ocupa o entorno da cachoeira. Pássaros e pequenos animais silvestres somam-se à natureza da região.

A cidade também é contemplada com o Chapadão, reserva que compreende as Serras do Macaco e da Rapadura. O ponto mais alto atinge 1.332 metros e é coberto por vegetação típica do campo. Em sua área existem diversas nascentes como a do Córrego Paredão, Pedra Vermelha, Água Limpa, Bonito, Alazão e Pedra Preta. Várias espécies de pássaro, lobo-guará, raposa e pequenos animais silvestres habitam o lugar. É cobrada uma taxa de visitação para conhecer o atrativo. O lago por si só é um convite para banhistas, passeios de lancha e barco. Alguns acessos à cidade são feitos por balsas. Além da contemplação da natureza, Guapé é naturalmente projetada para a prática de esportes náuticos, rapel e vôo livre. Lá foi realizado, em 2007, o I Campeonato Brasileiro de Acrobacias e o I Brasileiro de Parapente que reuniram pilotos de várias partes do Brasil e da América do Sul.

É importante destacar que o município oferece uma conceituada estrutura hoteleira com pousadas e hotéis às margens do lago. Restaurantes tradicionais ainda capricham na comida mineira. E como não pode faltar em Minas Gerais, a cachaça artesanal de Guapé é um aperitivo que nunca falta na mesa guapeense. Sobre a cidade, um fato inusitado merece atenção. Curiosamente (talvez o melhor termo seria ironicamente) o lema “Fluctuat Ne Mergitur” foi escrito na bandeira da cidade em 1924. A frase significa "Flutuarás, não afundarás". Décadas depois, Guapé foi inundada pelo Lago de Furnas, mas fez jus ao lema do estandarte: não afundou. Flutua numa paisagem ainda mais bonita.


Formiga

Formiga fica a 20 km do Lago de Furnas. Clubes, balneários, cachoeiras, lagoas, praia artificial e muita história atraem turistas para o lugar. Para preservar a cultura, o Museu Histórico Municipal Francisco Fonseca reúne materiais de diversas famílias formiguenses. Localizado na antiga Estação Ferroviária da cidade, tem um acervo com cerca de mil peças.

A Igreja Matriz de São Vicente Férrer marca o início da povoação do lugar. A obra foi iniciada em 1749, tempo em que ainda era a primeira capela do município. Feita de adobe, toras de aroeira e grandes blocos de pedra, seu estilo arquitetônico sofreu influências dos períodos Barroco e Rococó. As esculturas, entalhes e pinturas originais de seus altares foram trabalhos do artista veneziano Ângelo Pagnaco. A Igreja abriga ainda um enorme órgão de tubos construído por alemães e inaugurado em 1937. A cidade também é conhecida pelo Cristo Redentor situado no morro da Loreta.



Crepúsculo no Rio Grande, cujas águas formaram o Lago de Furnas.


Os magníficos cânions de quartzito são atrativos imperdíveis do Lago de Furnas. Navegar até eles é um passeio inesquecível.

Folia de Reis, uma forte tradição nas cidades que estão no entorno do Lago de Furnas.


O fomento ao turismo não deixa de se aliar à tradição mineira. Reminiscências dos antepassados persistem no artesanato, na tecelagem, na comida típica que sai do fogão à lenha e põe a mesa, na fumaça que voa das chaminés com cheirinho de café coado, na produção artesanal de cachaça, no ranger cantado dos tradicionalíssimos carros de boi — que teimam em circular pelas estradas de terra levando a produção agrícola — e na hospitalidade de sempre.

A vocação natural para o turismo convive com a produção agrícola como o cultivo do tabaco.


Vista panorâmica do Morro do Chapéu, em Capitólio, mirante natural a 1.293 metros de altitude.

A cafeicultura é uma das mais importantes atividades agrícolas da região, principalmente na porção sul do Lago de Furnas. As plantações de café, que originam um bebida de alta qualidade, são atrativos turísticos potenciais da região.