Paixão e fé no Mato do Tição

A primeira vez no Matissão, não tinha festa, era o prenúncio dela. A pequena casa de adobe com um estábulo à direita e um grande terreiro batido por tantos pés, seria como qualquer outra, não fosse ali a sede do Quilombo do Mato do Tição. Tanto a ser dito, tanta coisa vista que os olhos custam a crer: O Matissão!

Por Marcos Martins
Fotos Francilins


Não parecia haver viva alma ali, apenas o bar mais acima emitia o rumor da diversão vespertina do sábado. Um segundo de dúvida nos perseguiu. A porta da casa, no entanto, se abriu e de lá de dentro como se nos esperasse, apareceu uma senhora esguia com imensos óculos, que viam muito mais do que se pode imaginar. Ela deixou a porta aberta e sentou-se no sofá e nós, ainda na estrada, aceitamos o convite.

Dona Divina de Siqueira nos recebeu, fazendo-nos sentar do lado dela, um de cada lado como guardas. O mais impressionante era a força de seu toque sensível. Suas mãos compridas e elegantes seguravam firmes em nossos braços enquanto conversava bem baixinho. Tanto recato para exercer a palavra vinha acompanhado de olhos brilhantes e curiosos que transmitiam uma impressão de imensa força contida em segredo, que seu sorriso deixava entrever, mas não desvendar.

Talvez ela tivesse entendido uma confiança em nós. Ou talvez fosse a experiência de receber já tanta gente vinda de longe em busca de suas palavras e rezas, tidos na mais alta conta pelos devotos de São João Evangelista.

Dona Divina é matriz e fundamento da herança dos Siqueiras e dos Pintos desde o tempo em que a mata virgem pegou fogo e virou o mato do tição, essa origem em brasa atravessada todo ano; desde a época que Jaboticatubas era Ribeirão.

Ela nos conta sobre a festa que sucederá dali a três dias. De como ela a herdou do Pai João Batista Pinto, que havendo encontrado a bandeira, recebera a notícia de que o artefato encontrado não podia ficar dobrado. Esse, o compromisso originário, a obrigação com a festa de São João! Há o candombe que acorda durante as celebrações desse Santo. Mas não há apenas São João, toda a falange divina e dos seres mágicos é invocada e vem participar do altar que Dona Divina com simplicidade nos mostra.

A maior parte de sua casa é adornada com imagens e o quarto da frente foi convertido num vistoso santuário, em torno do qual toda a casa gira. Papel colorido esvoaçava como uma cortina de retalhos sobre nossas cabeças. Local de guardar os instrumentos do candombe, a bandeira em uso e a relíquia da primeira bandeira, guardada numa caixa ao lado do altar. As paredes são enfeitadas com papéis de seda rendados.

O quarto forma um relicário para o altar com todo o tipo de santo, capitaneados por São João e Nossa Senhora do Rosário, e mais abaixo na hierarquia: São Jorge, São Sebastião, São Cosme e São Damião. O preto velho em sua postura ancestral, medindo como nossa anfitriã, com sabedoria, a passagem do tempo, escutando os sinais e oferecendo consolo com uma reza, um passe, uma benzedura.

Dona Divina conta que a festa é muito trabalhosa e que o povo dela tem um congado, um Moçambique lá em Vespasiano e que vem pra animar a festa. Quando perguntada sobre o costume de passar a pé pela brasa, ela responde apenas: não é graça, é fé, se tiver que passar, vai passar! E todos de sua família passam sem o fogo os tocar. Ela completa: não se pode esquecer de dar o viva! antes de passar! O viva! que vem de tempos remotos, o viva! que enche o Matissão de significado através da oferta festiva e sacrificial.

Enquanto conversávamos, do nada começaram a aparecer crianças, aquela penca de netos e lá fora, a um barulho de chegada, Dona Divina nos alerta de que seu filho chegava começando a trazer os sinais da festa por vir, toras de madeira que seriam sacrificadas ao fogo. Após o encontro e muitas fotos, tomamos um café e recebemos um abraço especial daquela senhora de setenta e oito anos. Como uma pessoa tão miúda podia num abraço envolver toda a gente?

Três dias depois, estávamos de volta. Chegamos perto das onze da noite. A paisagem era outra. A noite operou a transformação e a multidão de pessoas estava em forte contraste com o vazio da primeira visita diurna. O fogo, por sua vez, transformava a noite e lançava seu calor e sua cor vermelha nos rostos de todos. E lançava brasas no céu noturno, fagulhas que iam rumo à escuridão, dissipando-se nela.

A reza seguia monocórdia, num só coração, intercalada de cantos e muita gente espremia-se dentro da casa, tentando se aproximar do altar. A ladainha das vozes abafadas, algumas mais agudas a puxar o Ave Maria. A hora se aproximava e uma agitação tomou conta da multidão. E eis, que surgiu na porta a bandeira e o candombe entoou seus cantos em torno do sítio onde o mastro ia ser fincado. As velas iam se acendendo, a bandeira foi presa ao mastro e foi sendo erguida sobre a cabeça de todos enquanto fogos de artifício salpicavam o céu. A fogueira no céu e a fogueira na terra estavam unidas pelo mastro de São João. O terreno foi devidamente consagrado! O Moçambique saudou o mastro e deu uma volta inteira pelo terreiro. O cenário estava dedicado e os atos mágicos deixaram a platéia e os protagonistas em estado de alerta; todos preparados para o milagre da travessia do caminho de fogo.

Vinham a seguir os homens encarregados de desfazerem a fogueira e espalhar as brasas para estender o tapete incandescente para os fiéis passarem. A operação fez com que o calor abrasasse; todos espremidos entre uma parede de gente e aquele chão de fogo. Abria-se uma arena ardente que atraía todos os olhos. Os devotos se concentravam numa reza interior, conversa de antepassados, encontro consigo mesmo e a fé. Os primeiros a passar foram as crianças, todas sem sinal de chamusco. E a seguir os corajosos e os que deviam promessas e assim foi até meia noite e meia. Alguns se queimaram e ganharam o riso da multidão, sem perder o respeito pelo voto pago nessa prova! Os que não se queimaram receberam aplausos. Não é feitiço, é Deus!

Quem fica imune àquele feitiço de cor e movimento? Quem se atreveria a enfrentar o fogo no instante em que ele é o senhor absoluto? Quem é capaz dessa entrega? Ser tocado pelo nkisi, pelo bastão do Moçambique e ser chamado a participar desta hoste coberta de relíquias e, por um instante, ao som dos tambus e goiás se tornar o lugar de conversão de todas as rezas e olhos enquanto oferece seu corpo como veículo de uma glória feérica? Afinal, a glória não consiste no prazer de poder fazer a oferta pública do gozo de pertencer a uma comunidade mágica? Quem pode mais é Deus do céu!

Ao fim da festa, senha de outras tantas até que o mastro desça e a bandeira chegue a ser recolhida, ficam as palavras de Dona Divina: Matissão é uma terra minha que não acaba! Será que só saio daqui quando morrer? Acho que não! Tanta gente vem conhecer e fica conhecida!




“… Mas não há apenas São João, toda a falange divina e dos seres mágicos é invocada e vem participar do altar que Dona Divina com simplicidade nos mostra”.


“Não é graça, é fé, se tiver que passar, vai passar!”

… e, por um instante, ao som dos tambus e goiás se tornar o lugar de conversão de todas as rezas e olhos enquanto oferece seu corpo como veículo de uma glória feérica?


… e espalhar as brasas para estender o tapete incandescente para os fiéis passarem. A operação fez com que o calor abrasasse; todos espremidos entre uma parede de gente e aquele chão de fogo.