Vanguarda contemporânea

O criador do Inhotim diz que a instituição que fundou em 2005 na cidade de Brumadinho (a 60 km de Belo Horizonte) se abre para novos conhecimentos e terá as suas dimensões triplicadas. Bernardo Paz afirma que o Instituto Inhotim é hoje uma referência mundial e está no centro do conhecimento contemporâneo.

Por Cézar Félix
Fotos Fernando Grilo

 

Vamos a uma pergunta óbvia: como começou tudo isso?

O Inhotim surgiu a partir de uma ideia, algo até empírico, de um bom planejamento e nós fomos fazendo e transformando. Porém, chega um momento em que devemos admitir que tudo isso que se transformou, que cresce e se desenvolve não pode mais ser fruto de uma única pessoa: passa a ser fruto de uma sociedade, de um povo. Passamos então para a parte mais importante: começamos a buscar as melhores pessoas, gente da melhor qualidade, de Minas Gerais, do Brasil e do exterior. Agora são essas pessoas que fornecem o conteúdo principal do projeto, que é o conteúdo da inteligência, o conteúdo da informação, da inclusão e da cidadania — a função primordial de um espaço como esse. O Inhotim é uma entidade privada, sem fins lucrativos e qualificada pelo Governo de Minas Gerais como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público. O Instituto Inhotim pertence hoje ao povo.


O Inhotim vai continuar a se transformar?

Esse é um espaço de criação. E a criação de arte contemporânea depende essencialmente de espaço. Hoje, o Inhotim ocupa uma área de 45 hectares, mas essas dimensões vão ser triplicadas. Para o artista que é convidado a criar uma obra de arte, nós deixamos que ele viaje por esses jardins, por todos os lugares para escolher a localização de sua obra. É uma coisa anárquica, não pode ser um algo planejado porque o local onde vai ficar a obra de arte é praticamente definido pelo artista. Então, o jardim é criado para acompanhar o lugar onde a obra vai ser instalada. Esse trabalho não tem limite, porque cada artista que chega ao Inhotim acha um lugar mais bonito do que o outro. Daí ele quer instalar uma obra aqui, outra ali e mais uma em outro lugar. O artista se encanta tanto que é difícil de segurar.


O senhor diria que o Inhotim é hoje uma referência mundial?

É uma referência mundial, mas vai se tornar a maior referência mundial em dois anos. Neste período, novos pavilhões e novos trabalhos que os artistas estão criando para o Inhotim estarão prontos. Os maiores artistas do mundo aqui estão e outros também virão. Aqui as obras de arte são mostradas de uma forma absolutamente inovadora, o que atrai irresistivelmente os grandes, os geniais artistas. Teremos ainda centros de convenções, de tecnologia, de ciência das águas, do clima e do meio ambiente. Vamos nos abrir para novos conhecimentos e já contamos com pessoas altamente capacitadas que vão nos ajudar a traduzir o nosso pensamento para o mundo.


E quanto ao reconhecimento por parte da opinião pública, das instituições, da mídia e dos governos?

Quando você chega no ponto em que nós estamos hoje, o reconhecimento ocorre naturalmente, de uma forma ou de outra. É verdade que veio primeiro de fora para dentro. Temos grandes reportagens publicadas no The New York Times, no Der Spigel, no Le Monde e em uma série de jornais do exterior. É inegável que nós temos um sério problema bairrismo no Brasil, mas o eixo São Paulo e Rio de Janeiro aos poucos também se rende ao Inhotim. Nesse aspecto, não interessa o fato de o Inhotim ter surgido aqui. Surgiu aqui porque eu estava aqui e o criei aqui. Poderia ter acontcido em qualquer outro canto do país. Eu não o criei com a intenção de que se tornasse uma referência mundial, mas isso aconteceu em função da opinião pública. O Inhotim também recebe um grande apoio do governo Aécio Neves. O governador tem plena consciência de que um espaço como o Inhotim é essencialmente um vetor que traduz Minas Gerais para o Brasil e para o mundo.


De que forma acontece esse apoio por parte do governo de Minas?

Aécio tem uma clara percepção de que o que marca definitivamente qualquer governo — seja o de Minas ou o de São Paulo ou outro qualquer governo do mundo — é a cultura. Ele sabe que é a cultura que fica para a história. Aquele governante que não apoiar a cultura, vai perder a trilha da história e será esquecido. A cultura também se traduz em belíssimas arquiteturas, se traduz na arte contemporânea, na música, na dança, no cinema … Minas Gerais tem tudo isso. O governo Aécio Neves vai deixar como legado a Praça da Liberdade, um espaço totalmente dedicado à cultura, além de construir com Niemeyer uma espetacular cidade administrativa.


Uma questão prática é a melhoria do acesso ao Inhotim.

Sim, é verdade. O governo de Minas está construindo mais duas estradas até BR 040 passando por Piedade e por Casa Branca. Essas estradas vão favorecer o público, pois ele vai chegar ao Inhotim por uma via muito agradável, no meio das matas e das montanhas. As pessoas vão ganhar um outro caminho e vão ter uma outra visão de como é viajar para o Inhotim. Essas estradas também vão propiciar a criação de várias pousadas — já estão sendo criadas, que eu sei, seis ou sete pousadas. Nós, inclusive, já estamos divulgando no site do Inhotim quatro ou cinco delas. Essas pousadas obedecem um determinado padrão de qualidade, nada luxuoso, mas que todos tenham qualidade na hospedagem. É preciso também que ofereçam transporte para buscar e levar as pessoas.


O que o senhor observa na reação das pessoas quando elas estão no Inhotim?

A arte contemporânea é muito importante para as pessoas. A arte contemporânea é uma arte interativa, que permite que as pessoas participem dela. Essa interatividade cria janelas de oportunidades, de raciocínio. Cria também uma série de paradigmas que são importantes para a transformar o pensamento de uma pessoa — principalmente quando ela se vê dentro de um vasto espaço que, além de mostrar arte, é um amplo jardim botânico. No Inhotim as pessoas passeiam o dia inteiro, num lugar maravilhoso e contemplam as obras de arte com mais sossego, com a mente descansada. O Inhotim envolve e abraça as pessoas. Aqui elas perdem a dimensão do que acontece lá fora e ficam contentes, felizes — e isso é bonito de se ver.


Em função do Inhotim, o senhor diria que Minas Gerais está vanguarda do pensamento contemporâneo?

Minas Gerais é a vanguarda sempre! O Barroco foi vanguarda na sua época. Juscelino foi vanguarda com Niemeyer em sua época. Agora o Inhotim é vanguarda em sua época, pois é muito mais do que um museu, é um centro do conhecimento contemporâneo. Aqui no Inhotim se discute a realidade do mundo contemporâneo. O Inhotim é fruto de uma preocupação contemporânea.


 

 



"Quando você chega no ponto que estamos hoje, o reconhecimento ocorre naturalmente, de uma forma ou de outra."