A saudade além da ausência

Euclides Guimarães

Nenhum povo pode reivindicar para si a exclusividade sobre um sentimento, mas sabemos que os estados de espírito variam de um povo para outro. Mesmo considerando o aspecto altamente subjetivo da sensibilidade, mesmo com o desconto das diferenças individuais, psíquicas, etárias, sexuais, e os aspectos metabólicos ou orgânicos, ainda assim, há uma forte acentuação social no modo como cada povo vivencia sentimentos. Talvez por isso entendamos a saudade como um sentimento brasileiro, algo que não pode ser reduzido à simples “falta que alguém sente de outro alguém ou de algo que está distante”. É certo que, na saudade, algo se acrescenta ao mero sentir de uma falta. Acredito que esse algo possa ser descrito como fábula, ou seja, o potencial imaginativo que preenche o vazio que a falta estabelece, a poesia que se alimenta dessa dor.

Na história do Brasil a saudade é um elemento fundador. Povos vieram deixando suas terras e trazendo a falta que elas lhes fazia. No caso do colonizador português era uma perda definitiva, pois ele não pretendia, como os povos peregrinos que conquistaram a América do Norte, fazer das novas terras reedições utópicas de seus costumes originais. Seu passado então repousava no limbo dos tempos perdidos, tempos que apenas restam latejantes no coração. A distância alimentava o desejo de rever seu lugar de origem, mas era preciso voltar em condições diferentes daquelas em que partira. Era, assim, uma saudade cheia de futuro, tendente a nublar as lembranças, uma vez que nada era para ser revivido. Quando pensava em sua terra, o colono português pouco via do que houvera deixado para trás. Suas fabulações eram de reencontrar, no futuro, uma aldeia diferente para consigo, que o acolhesse como gente importante e lhe ofertasse aquilo que nunca dantes: reconhecimento e pompas.

No caso dos africanos, a saudade de uma mãe da qual se foi arrancado alimentou um rico conjunto de representações idealizadas que fez de nosso território uma nova África simbólica, estetizada, glamourizada e exuberante. Trata-se então de uma saudade feliz, que opera como uma limpeza d’alma, dialogando fabulosamente com a lógica implacável do sistema a que foram inadvertidamente destinados. Pode parecer estranho falar de uma saudade feliz, mas acontece que o objeto da saudade, estando distante, só se faz presente como abstração; quando a imagem de um “lá” perdido serve para tornar suportável um “aqui” sofrido, é no sonho que mora o lado feliz da vida. O africano no Brasil se tornou festeiro e fez de suas festas visitas simbólicas ao seu torrão de origem. A saudade foi, portanto, a sementeira de sua alegria.

Quanto ao índio, pouco se conhece sobre seus modos de sentir, visto que sua cultura, de tão massacrada, em muito se perdeu. Mais que se perdeu: ficou reduzida a uma série de clichês e preconceitos. Contudo, um pequeno assopro nessa nuvem plúmbea, como aquele proporcionado pelas descobertas dos arqueólogos e dos etnólogos, permite que se desvele um conjunto de culturas mítica e logicamente inspiradas, solidárias, afetivas e, provavelmente, felizes. Isso é tão diferente do que vivemos hoje, que fica difícil — e arriscado — imaginar como a saudade era sentida, vivida ou ritualizada. Mas é sabido que a sabedoria ameríndia convive de forma potente com a dicotomia vida e morte, com os desaparecimentos e as mudanças, redimensionando a falta, transformando-a em saudades plenas de significados.

A antropofagia, fatídico ritual que tanto serviu, desde a época do descobrimento, para alimentar a ignorância sobre o que é um programa de índio, talvez nos dê uma boa referência para uma — ainda que vaga — compreensão da contribuição indígena para nosso modo de sentir saudade. No caso da lendária cultura tupi, o ritual normalmente tinha como objeto um inimigo capturado, a quem se devotava respeito e admiração e se devorava no calor de um complexo conjunto de ritos, onde caçado e caçador eram associados à cadeia alimentar da própria natureza. Ao cabo de tudo a digestão, simbolizando a assimilação da força do inimigo, de sua coragem, se mostrava como a forma mais sublime de devolver um corpo à “circulação do grande todo”.

A antropofagia se mostra assim como um modo totêmico de manter vivo aquilo que não se quer perder. Pauta-se assim por uma saudade plenipotente. Mas outras formas de saudade, estas esvaziadas de sentido e de qualquer tipo de plenitude, os índios estavam condenados a sentir, na medida em que se ampliava seu contato com os povos que invadiram suas terras: uma saudade que, em última instância, viria a ser a saudade de si mesmos, resultante da perda de sua própria essência cultural, produto de uma forma genocida de colonização.

Dos encontros e desencontros sucedidos entre os povos seminais, vimos brotar formas potencializadas de lidar com a falta. De cada um advém uma constelação de ritos que extraem da ausência densos significados para se levar a vida. Podemos dizer que a saudade à moda brasileira reúne a força simbólica do modo de fabular sobre a falta de todas as culturas que a formaram. O primeiro brasileiro não era africano, nem europeu, nem índio, mas foi criado em meio aos relatos e aos ritos de todos eles, construindo sua própria imagem como produto das saudades sentidas por seus ancestrais: saudade daquilo que ele não viveu. Some-se então uma saudade aventureira herdada do português, uma saudade festeira herdada do africano e uma saudade antropofágica herdada do índio, acrescente-se a isso uma preeminência do lado “fábula” sobre o lado “falta” e o que se obtém é uma grande capacidade de lidar com a ausência, expressa intensamente na religiosidade, na arte, na sociabilidade e na ritualística da vida cotidiana.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC-MG.
 




A saudade à moda brasileira reúne a força simbólica do modo de fabular sobre a falta de todas as culturas que a formaram.