Arte Livre

Dono de postura libertária e olhar crítico, Sérgio Nunes faz inovações na aquarela e reafirma o seu amor pelo ofício.
 

Por Maria Lutterbach
Fotos Divulgação

 
Disposto a experimentações, mas fiel à pintura e ao desenho, Sérgio Nunes se declara livre para criar e transitar entre diferentes linguagens. Sem amarras, o artista desenvolveu sua identidade fazendo permanentes avanços na aquarela e se apropriando de outros materiais. Sempre para traduzir uma ideia latente, nunca por modismos. A escolha de seguir seus desejos e convicções como artista foi definidora de uma trajetória dedicada à arte figurativa, à abstração e ao diálogo entre as duas tendências.

Com técnica apurada no desenho, no qual se aperfeiçoou fora do país e durante a formação na Escola de Belas Artes da UFMG, Sérgio Nunes desde cedo se mostrou apto a capturar a alma de seus modelos. “Quando vejo uma figura , seja ela qual for, e me interesso por ela plasticamente, não decidi, não escolhi. Ela simplesmente surgiu. Não é uma 'escolha'. Para haver escolha deve haver dúvida", diz o artista. Foi assim, durante um passeio a uma cachoeira, em 1986, que se revelou para ele a imagem de “Duas Meninas Deitadas” (1990), um de seus mais célebres desenhos. Realizada a partir da lembrança do evento e de fotografias feitas naquele dia, a obra mostra amigas esticadas ao sol, num refinado trabalho de composição.


Muro em branco

Aos poucos, as figuras de fundamento realista começaram a ser povoadas pelos elementos abstratos da série “Anotações Caligráficas”, como linhas, palavras, manchas, signos e números. Também os materiais ganham misturas múltiplas: aquarela com grafite; guache e crayon; óleo e lápis de cor. Mais do que uma nova fase, esse encontro de linguagens e materiais, que levou o nome de “Anotações”, se tornou marca na obra do artista. “A partir de então, senti maior liberdade na concepção e na realização dos trabalhos. No trabalho figurativo envolvendo a ‘abstração’ e outros elementos e materiais, não há a necessidade que o quadro ‘normal’ tem de um ‘fundo complementar’. São ‘anotações’. Não preciso preencher tudo. Os elementos ficam separados pelo fundo plano, e procuro coordenar tudo isso estrutural e espacialmente”, explica.

Nesse sentido, Nunes relembra um conceito defendido por Marcel Duchamp: “Ele diz que usou o vidro e sua transparência para se desviar da necessidade que o pintor tem, em geral, de, depois que pinta o seu motivo, preencher ‘obrigatoriamente’ o restante da superfície do quadro”.

Estudando artistas como Duchamp e Toulouse-Lautrec — que pintava sobre cartão castanho, “ocupando” áreas não preenchidas do fundo; usando essas áreas como cor —, Nunes passou a enxergar a superfície do suporte como um grande muro ou espaço branco e vazio. Sem a necessidade de um “fundo complementar”, seu objetivo passou a ser harmonizar plano e espaço.


Inovações em Aquarela

Depois de mais de três décadas de uma atuação que abrange ainda o Teatro, a Performance, o Happening e a produção de Curta-Metragens no começo da carreira, Sérgio Nunes se dedica hoje a novas possibilidades com a aquarela, sua linguagem fundamental no momento. No atelier, no Cruzeiro, em Belo Horizonte, está interessado em fazer aquarelas maiores, na escala da pintura a óleo.

“Agora existem papéis de aquarela em maiores dimensões, em rolos de até 1,35 x 10 m, e excelente gramatura. Neste momento estou fazendo aquarelas de 75 x 105 cm, mas ainda não tão grandes quanto as que pretendo fazer, porque no Brasil o rolo desse papel de 1,35 x 10 m. não é vendido”, conta. Junto à pesquisa em aquarela, segue fazendo objetos, pintando, desenhando e dando continuidade às “Anotações” e à fase “marrom”, de figuras distorcidas, como “Fauno” (1985), e “O Alquimista” (1991). Tanto as “Anotações” quanto obras de outras fases do artista estão distribuídas em galerias, museus e no acervo de colecionadores espalhados pelo Brasil e exterior.


Arte pela arte

Em depoimento sobre sua vida e obra, no livro CIRCUITO ATELIER, editado pela C/Arte em 2005, Sérgio Nunes afirma que influências são saudáveis. “O importante é que a influência seja bem digerida, ou transmutada”, pontua. Assim, de forma consciente, ele lida com referências importantes para a sua criação, declarando-as, por vezes, em algumas obras. É o caso da aquarela “Anotações para Chuck Close – Leslie” (1999) e da tela “Carta a TW” (1993), que aludem aos pintores americanos Chuck Close e Cy Twombly.

Entre os nomes atuais que admira, o artista cita os mineiros Paulo Henrique Amaral e Eduardo Recife, o goiano Marcelo Solá e o italiano Giorgio Ortona. Com olhar crítico em relação a critérios vigentes de curadoria em grandes mostras, como as Bienais e a Documenta de Kassel, Nunes percebe também certa inclinação, em uma parcela de jovens artistas, em eleger linguagens em voga, em busca de 'sucesso imediato'. Em relação à arte atual, afirma: “A minha visão da arte contemporânea nunca foi negativa. Muito pelo contrário. O alvo das minhas críticas não é a arte contemporânea, e sim a ‘pseudo arte contemporânea’. Ou será que o trabalho que faço, por exemplo, não é contemporâneo só porque utilizo a pintura e o desenho e não os meios ditos ‘atuais’?, provoca.

O prestígio volátil das linguagens e tendências definitivamente não é uma preocupação para alguém que, por uma atração natural, se interessou desde sempre pelo desenho e pela pintura. “Nunca pintei ou desenhei em função de nada — seja fama, dinheiro, reconhecimento — que não fosse o meu amor natural por essas linguagens ou meios; o meu amor pela arte”.
 
 

Anotações - Bacias com Flores e Ervas - aquarela e mista sobre papel; 70 x 100 cm; 2007. (Categoria: aquarela). Coleção do artista.


A Orquídea Vermelha - Diagrama - aquarela e mista sobre papel; 46 x 58,5 cm; 2006. Coleção Ciro Cozzolino, São Paulo/SP. (Categoria: aquarela).

Duas Meninas Deitadas - grafite sobre papel; 17,4 x 33,7 cm; 1992. (Categoria: desenho). Coleção do artista.


Sem Título (vidros de Ginseng) - objeto: vidro, papel de etiqueta, fio dental, borracha, Ginseng líquido, prego - 6 x 2 cm cada vidro; 1979.

Fotografia do artista Sérgio Nunes (feita por Kátia de Salvo).