Cenário sagrado em movimento

“Se tudo é teatro no mundo barroco, as igrejas são cenários, as procissões são óperas tristes... enquanto no campo de batalha desenvolve-se o “teatro da guerra” e o “teatro das operações”, e as festas são o exercício apoteótico da carnavalização”. Affonso Romano de Sant’Anna. Barroco, do quadrado à elipse
 

Texto Marcos Martins
Fotos Francilins
 
 
O Barroco como um espelho oval que desloca o espectador e torna-o parte ativa do cenário cerimonial, dominado por curvas e volutas. Este fenômeno se desdobra até a contemporaneidade, colocando em jogo a transformação da rigidez clássica num movimento lúdico que abraça o labirinto e a ascensão. É um convite ao peregrino para que participe de uma obra aberta que visa à perfeição do ser na fusão de suas faces paradoxais.

A semana santa mostra de maneira exemplar esse jogo entre ocultamento e revelação. Por ela podemos ver o barroco desprender-se dos monumentos arquitetônicos, sofrer uma metamorfose e tornar-se festa popular e procissão.  Ela é um dos horizontes de nossa cultura de festejos e nossa arte espetacular. O barroco, não o que dura na pedra, mas o que é performance provisória, invoca a violência do sagrado.  O teatro da crueldade marca seu lugar: sangue, coroas de espinhos. Soldados ridicularizam e açoitam o prometido Filho de Deus. A encenação da semana santa exibe uma situação apoteótica da luta primordial entre o sublime e o diabólico.

 
Aparente simplicidade da Paixão do Salvador
 
Em minha cidade sempre houve uma oposição paroquial entre os partidários do Senhor dos Passos e os de Nossa Senhora das Dores. O rito dessa forma luxuosamente encenava esta guerra na procissão do Encontro da quarta-feira de cinzas. Seguir as procissões da Semana Santa é colocar em movimento o cenário sagrado. Abrir as portas ao movimento de peregrinação, onde cada curva acrescenta um passo no drama e uma paisagem viva que lhe acolhe.

As muitas armas estilizadas e o excesso de ardor na representação dos odiosos torturadores e flageladores fazia com que os atores cegos pelo papel açoitassem o pobre ator barbudo no papel de Cristo de maneira muito pouco cênica. E ouvíamos por trás da narração sagrada o ator clamar: vocês estão me batendo de verdade! Isso sem falar naqueles que insistem, mais hereticamente, em ser flagelados e crucificados literalmente.

Chama a atenção daquele que participa desse teatro sacro, a aparente simplicidade da Paixão do Salvador e sua tradução solene em exagero ornamental e na vaidade do luxo, recursos que apagam a fronteira do mito e da vida! A festa barroca faz deslizar, em elipse, significados complementares de abundância e jejum, de pompa fúnebre e aleluia. O enredo desse espetáculo fala da morte que triunfa para logo em seguida ser driblada pela ressurreição.

A história primeira desse rito terá um desdobramento importante do lado de cá do Atlântico. Os viajantes, surpreendidos com a variedade das festas religiosas e com a devoção que o povo nelas manifestava não deixaram de registrar suas observações.

 
Encenação realista
 
A natureza das Minas Gerais colabora com o espetáculo sombrio. As Quaresmeiras floridas colorem de roxo a paisagem. Roxo, cor oficial do luto cristão, que recobre os altares, as vestes dos oficiantes e atinge a índole dos fiéis. Estes são convidados a uma introspecção em vista da tragédia que se anuncia e caminha de rito em rito ao clímax, que numa sucessão alucinante, empenha o Cristo que será preso, humilhado, açoitado, ridicularizado. Seminu e sangrando, carrega sua cruz e é pregado nela! Tendo sua mãe trespassada de dor à sua frente, agoniza na hora fundamental em que seu sacrifício resgata a humanidade.

É preciso não esquecer a dor e ela é fixada através de sua encenação realista a cada ano. Os signos da violência são preenchidos de uma piedade que lança mão do macabro e do sombrio porque estes são a condição para que a luz do mundo nasça da negra desesperança. O mundo, por um instante fica, sem seu Deus, é hora de Vigília e o mal parece ter triunfado em toda parte.

O espetáculo barroco mobiliza as emoções dos devotos pra esse movimento de ascensão das almas, assim como o Cristo concebido na forma humana, saído do ventre de Maria, mobiliza os homens de forma que alcancem a divindade.

 
Tema da paixão e da realeza
 
O viajante francês Saint-Hilaire nos informava que às comemorações de 1817 somava-se a celebração da coroação do Rei Dom João IV de Portugal e do Brasil que teria lugar no dia de Páscoa. “Em seguida às duas filas de penitentes, que, na maioria, eram mulatos e negros livres, vinha um andor sustentado por quatro pessoas, no qual estava uma imagem de tamanho natural representando Jesus Cristo carregando a cruz. Em seguida a esse andor, caminhava um sacerdote que levava o Santíssimo, e grande multidão caminhando sem ordem fechava o préstito. A quinta-feira santa é considerada nesse lugar como uma das maiores festas do ano: nesse dia não se trabalha, e se celebrou...uma missa com música, à qual assistiram em traje de gala as pessoas de maior consideração do local”.

Pouco mais de um século depois, Melo Morais Filho, em 1940, registra entre as Festas e Tradições Populares do Brasil, a cerimônia de Lava-pés durante a Semana Santa. Então ele, o Imperador, curvava-se e lavava os pés de miseráveis, recolhidos nos cantos imundos do Rio de Janeiro da época. “Semelhando a vítima divina, dos papas, dos reis, dos mais Imperadores, dos Arcebispos e Bispos, dos Abades e Provinciais, Sua Majestade mantinha esses estilos, empanados presentemente por hálitos heréticos”.

O tema da Paixão e o da realeza se fundiram de maneira sui generis aqui no Brasil. A procissão recuperava a majestade, hierarquizando os devotos de acordo com sua posição dentro do espetáculo. Melo Moraes revela traços do Barroco, na configuração cênica das Igrejas, exalta o drama das lamentações, as trevas. Apenas o altar do sacramento iluminado, deserto e despido, as imagens cobertas, o silêncio dos fiéis. O apagar das velas confirmava a morte do Senhor “até que o círio do ápice ficava único como um pensamento que não morre”. Ele é conduzido então à penumbra e murmura-se o Miserere! A luz retorna e as matracas gritam, finda a vigília e entoam-se as aleluias da Ressurreição.

 
Travessia longínqua de eventos

A morte que se avizinha, como uma sombra que avança, uma cortina que desce sobre todos os passos do Senhor! Agora o corpo Dele jaz ali no Altar, deitado para que os fiéis beijem seus pés. Morto traído com um beijo! É preciso lembrar que a multidão preferiu Barrabás! E em Ouro Preto barrabás é o outro nome do inferno em que as almas se perdem com volúpia durante a madrugada, enquanto os tapetes se preparam, para que na manhã seguinte esses degradados filhos de Eva, emergindo de seus pecados possam ter suas vestes lavadas pelo perdão do sangue do Cordeiro. De forma que na próxima noite entrem puros de novo no barrabás.

E Verônica levanta alto seu lamento, exibindo a face dolorosa, o suor sanguinolento que imprimira no tecido a expressão do ultraje de um Deus feito carne e sangue para ensinar ao Deus-Pai que nunca tinha tido princípio nem fim, o sabor da existência humana, sua mais profunda miséria e sua mais elevada glória.

Essa travessia longínqua de eventos pouco a pouco preencheram de mito até nos alcançarem. E a essa dádiva recebida, construímos altares e entronizamos imagens; lançamos andores e estendemos tapetes, para que elas saiam de seus nichos e nos concedam a graça de caminharem entre nós por nossos próprios pés. Recebemos a história da graça e a ofertamos como cortejo de trevas, caminho de flagelos, num relicário precioso feito para durar o curto tempo da procissão e das celebrações. Quem participa da procissão encontra-se a si mesmo no drama daquele que podia ter sido qualquer de nós. Quantos são capazes de transcender seu sofrimento em Paixão?