Um presente do passado

Mariana é cidade nascida do ouro, fundada em 1696, pioneira como a primeira vila, a primeira capital e sede do primeiro bispado, além de ser a primeira cidade projetada de Minas Gerais. Os seus 313 anos de história lapidaram fantásticos atrativos como 13 igrejas coloniais, a “Maria Fumaça” que corta os trilhos até Ouro Preto, os museus da música e de arte sacra, o divino som do órgão Arp-Shnitger nos concertos na Catedral da Sé e a Mina da Passagem. A aventura por Mariana pode continuar pelas trilhas, cachoeiras e belas paisagens naturais da zona rural.
 

Reportagem Patrícia Castro
Fotos Pedro David



Andar por Mariana é se encantar com os casarões coloniais tão bem preservados, com as convidativas praças, a atmosfera barroca das igrejas. Trezentos anos de história alinham –se no sobe e desce das ladeiras de pedra. Lugar onde a arquitetura dá alma à cidade, Mariana pode se tornar Patrimônio Histórico da Humanidade. Título merecido pelo passado, o valor cultural e a beleza que resiste, qualidades que fazem dela uma cidade única.  

Tombada em 1945 como Monumento Nacional, a cidade guarda 300 anos de história com suas 13 igrejas coloniais, os museus de arte sacra e da música, este com partituras e composições brasileiras dos séculos dezoito e dezenove. Além disso, continuam em atividade 13 bandas de músicas tradicionais, algumas com mais de 100 anos de história. Este ano a região tombada foi delimitada, passando a compreender o Centro Histórico, a Estação de Trem (Maria Fumaça) e, lá do alto, a imponente Igreja do Rosário.

Hoje com cerca de 51 mil habitantes, além de fazer história com suas relíquias e casarios coloniais, Mariana foi acolhida de importantes personagens da cultura brasileira. Entre eles estão o poeta e inconfidente Cláudio Manuel da Costa, o pintor sacro Manoel da Costa Athayde e Frei Santa Rita Durão, autor do poema “Caramuru”.
 
 
História
 
Nascida do ouro, a cidade foi fundada em 1696. Nas margens do ribeirão Nossa Senhora do Carmo, onde o metal foi encontrado por bandeirantes, desenvolveu-se um arraial. Logo se tornou primeira vila da então Capitania de São Paulo e Minas de Ouro. Era o início de uma série de pioneirismos: de primeira vila a primeira capital para depois ser sede do primeiro bispado e primeira cidade projetada de Minas Gerais. Verdadeiro berço da cultura mineira.

A cidade matriz do estado reserva peculiaridades, como as ruas paralelas, em linha reta e as praças retangulares que desenham a primeira cidade planejada de Minas Gerais. Para oficializar-se sede do bispado mineiro, veio do Maranhão o bispo D. Frei Manoel da Cruz num trajeto por terra que durou um ano e dois meses. Já o nome Mariana foi uma homenagem do rei lusitano Dom João V à sua esposa, a rainha Maria Ana D’Austria, quando a vila foi elevada a cidade.
 

Pedacinhos de história (por onde passamos)
 
A construção que hoje abriga o Centro de Atenção ao Turista (CAT) já foi a residência que hospedou Dom Pedro II no século dezoito. À época, o então imperador queria uma vista ampla da cidade e mandou construir um terceiro andar, o sótão. O casarão passou a ser o único com três andares de Mariana. A edificação fica na rua mais importante da cidade, a Rua Direita.

As casas do lado esquerdo desta rua, por terem porão, eram geralmente compradas pelos mineradores que usavam o espaço como senzala. As do lado direito pertenciam a comerciantes. Ali está também a residência do Barão de Pontal, primeiro governador de Minas Gerais. É a única casa com quatro sacadas feitas em pedra sabão. O rígido material consegue dar forma a desenhos rendilhados que mais parecem estampas. São curiosos os símbolos religiosos pintados nas paredes laterais.

Logo em frente, vê-se o museu-casa de Alphonsus de Guimarães, um dos mais importantes escritores simbolistas. Nascido em Ouro Preto em 1870, mudou-se para Mariana em 1906, de onde pouco saiu. Lá adquiriu cinco casas, mas morreu nesta, hoje museu.

A superstição do passado também está presente. Na esquina das casas, no alto, como uma que fica na Rua Direita, oratórios ou cruzes penduradas serviam para espantar assombrações e demônios. Dali já dá para ver o Pelourinho de um lado e a Igreja da Sé do outro.

 
Catedral da Sé
 
Trezentos e sessenta e cinco quilos de ouro foram usados na construção do templo. Passando pela porta principal, avista-se a segunda que foi erguida com duas toneladas de madeira. Em toda ela, características do trabalho de Aleijadinho, como o anjo que figura no alto, mas não há documentos que comprovem a autoria. Contornando e adentrando na igreja, é possível ver a pintura, feita sob argila, na parte de trás da porta. Vários quadrados formam uma espécie de tabuleiro. Só mesmo de longe para enxergar bem os desenhos que preenchem cada um deles.

Haveria duas explicações para a segunda porta, tão comum nas igrejas da época. A primeira diz que funcionaria como um tapa vento, impedindo que as velas se apagassem. Ou, atuando simbolicamente, separaria o mundo espiritual representado pelo interior da igreja, do material, o lado de fora.

A engenharia da igreja é a mesma aplicada na construção de navios. Algumas pilastras são inclinadas e o teto lembra um enorme casco emborcado. O projeto é assinado por Manuel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho. A catedral da Sé começou a ser construída em 1709, mas demorou 51 anos para ficar pronta, o que se comprova na mescla dos estilos neo-clássico e barroco. Pilastras e um altar neoclássicos, marcados pela simplicidade dos traços, contrastam com altares exuberantes, excessivamente adornados e, portanto, tipicamente barrocos. No batistério uma pintura do Mestre Athayde gera polêmica. A obra representa o batismo de Cristo, mas São João Batista e Jesus parecem duas mulheres.
 

Órgão Arp-Shnitger
 
Ali também há espaço para relíquias musicais. É o órgão Arp-Shnitger. Fabricado em Hamburgo, Alemanha, na primeira década do século dezoito, chegou ao Brasil distribuído em 12 caixas e 36 pacotes. A dimensão impressiona. São sete metros de altura e cinco de largura. Mil e trinta e nove tubos e foles que juntos pesam 800 quilos. O de Mariana é um dos mais bem conservados e o único situado fora da Europa. “Este órgão é muito especial porque grande parte do seu mecanismo está preservado. Além disso, ele está muito longe da sua origem e possui uma construção muito original. A importância dele para Minas pode ser medida pelos diversos públicos que o cercam, como os músicos, o público dos concertos, das missas, além dos visitantes turistas”, analisa Elisa Freixo, organista, cravista e professora de música reconhecida internacionalmente. O órgão também está sendo avaliado pela UNESCO para ser tombado coletivamente, junto com os demais Arp-Schnitger ainda preservados pelo mundo. Raríssimo, existem apenas 30 ao todo.

Um dos desafios de tocá-lo está nas peculiaridades que reserva. “Orgãos antigos são sempre únicos, são como obras de arte. Quanto mais antigo, mais complexa se torna a aproximação com o instrumento”, explica Elisa. A organista ainda realiza concertos na Igreja da Sé. Ali se apresenta desde 1985, quando tocou para celebrar o primeiro aniversário de restauro da relíquia.
 

Viajar no tempo
 
Logo na entrada do Museu de Arte Sacra está a fonte samaritana em pedra sabão, uma das poucas obras comprovadas do mestre Aleijadinho. No recinto ao lado, acessórios religiosos do século dezoito, a maioria de prata, como cajados que pertenceram a bispos, cálices e crucifixos. Uma das salas no térreo era parte da Igreja Nossa Senhora da Conceição cujo altar lá permanece entre as pratarias.

Há ainda inúmeros quadros, a maioria de autores desconhecidos. São pinturas em óleo, notadamente barrocas pelas imagens de santos, as cores fortes e o tom escuro que apresentam. Obras de Athayde e sete comprovadas de Aleijadinho enriquecem o lugar.

A maior mina de ouro do mundo aberta à visitação está na cidade, a Mina de Passagem, atração repleta de descidas subterrâneas que desembocam num lago natural. O que se lê nos livros de história sobre a exploração aurífera em Minas Gerais pode ser revivido na mina, lugar de onde foram retirados cerca de 35 toneladas de ouro entre a primeira metade do século dezenove e o ano de 1984.

Possui amplos espaços, 30 quilômetros de túneis e lagos subterrâneos de águas cristalinas, onde é possível mergulhar. Um pequeno vagão usado pelos mineiros ainda na época da exploração do ouro, leva o turista a mais de 120 metros de profundidade. A aventura pode continuar do lado de fora, nas inúmeras opções de ecoturismo e turismo rural pelas trilhas, cachoeiras e paisagens naturais que rodeiam todo município.

A volta ao passado continua no passeio de Maria Fumaça, trem que liga Mariana a Ouro Preto. A construção foi iniciada na antiga Vila Rica em 1883 e concluída apenas em 1914, tempo em que a locomotiva era símbolo de progresso. Também serviu para unir essas duas cidades cúmplices na história que se revela entre as duas estações. Restaurada em 2006, a estrada de ferro, com seus 18 quilômetros, recebe agora os turistas num trajeto que dura menos de uma hora. No cenário, cachoeiras e montanhas, paisagens típicas de Minas Gerais. Uma dica é sentar-se do lado direito para ver a maioria das atrações, como a cachoeira do Tombadouro, cânions e o ribeirão do Carmo.
 


“Maria Fumaça” que liga Mariana a Ouro Preto; ao fundo, o prédio da Estação Ferroviária.


A arte e a arquitetura dão alma a Mariana, candidata a se tornar Patrimônio Histórico da Humanidade.

A Praça Cláudio Manoel (Praça da Sé), recentemente restaurada, e a Catedral Basílica Nossa Senhora da Assunção (Igreja da Sé), que começou a ser construída em 1709, mas demorou 51 anos para ficar pronta.


O órgão Arp-Shnitger: mil e trinta e nove tubos e foles que juntos pesam 800 quilos. Fabricado em Hamburgo, Alemanha, na primeira década do século dezoito.

Antiga Casa de Câmara e Cadeia, a primeira câmara de Minas.


Igreja de São Pedro dos Clérigos, construção iniciada em entre 1752 e 1753. A igreja tem planta em formato circular, inovadora para a época, e naves concêntricas em estilo romano, além de tetos em forma de abóbodas.

Mariana reserva peculiaridades, como as ruas paralelas, em linha reta e as praças retangulares que desenham a primeira cidade planejada de Minas Gerais.


Praça Minas Gerais, considerado um dos mais belos conjuntos arquitetônicos barrocos do Brasil. À esquerda, a Igreja de São Francisco de Assis. À direita o Santuário de Nossa Senhora do Carmo. Mais à direita, turistas junto ao pelourinho, do século XVIII, um dos últimos remanescentes do Brasil.

Patrimônio Histórico da Humanidade: Rua Direita, o principal conjunto colonial de Mariana. À esquerda, a construção que hoje abriga o Centro de Atenção ao Turista (CAT) já foi a residência que hospedou Dom Pedro II no século dezoito.