Lendas da emoção

Caminho Velho da Estrada Real, sul de Minas Gerais, erguida a 1.444 metros no alto da Serra da Mantiqueira. É onde está situada São Thomé das Letras, uma cidade única onde as pedras refletem uma intensa cor prateada. Do alto onde está a cidade vislumbra-se um intenso vale verde que abriga inúmeras nascentes, cachoeiras e muitas cavernas que dizem não ter fim.


Por Cacaio Six
Fotos Jean Yves Donnard


As lendas e as muitas estórias — e também histórias — fizeram de São Thomé das Letras uma cidade esotérica, mística, conhecida em todo o Brasil e também no exterior.

A origem desta “cidade de pedra” — título inspirado pela extração de pedras de quartzito, base da economia local —, é explicada por uma lenda:

“João Antão, escravo da Fazenda Campo Alegre, cujo romance com a irmã de seu senhor, o Capitão João Francisco Junqueira, havia sido descoberto, refugiou-se em uma gruta no alto da serra, onde passou a viver da pesca, frutos e raízes da região.

Um dia, um senhor de vestes brancas apareceu para o escravo, lhe entregou um bilhete e disse que se ele o entregasse ao capitão, este o perdoaria.

Ao ler o bilhete, o Capitão lhe ordenou que o levasse até a gruta, onde encontraram uma imagem de São Tomé entalhada em madeira.

João Francisco, homem profundamente religioso, recolheu a imagem e a levou para casa. Porém, a imagem sumiu e reapareceu na gruta por várias vezes.

Acreditando ser um milagre, o Capitão mandou erguer uma capela no local, onde, em 1785, foi construída a Igreja Matriz, originando assim o povoado; dizem que o filho do Capitão, Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas, título este concedido por D. Pedro II, foi sepultado debaixo do altar da igreja”. A Igreja Matriz , de estilo barroco, guarda importantes tesouros do patrimônio histórico, artístico e arquitetônico: os altares são em estilo rococó, várias imagens de madeira do século XVIII decoram o ambiente e a nave principal é embelezada por magnífica pintura de Mestre Joaquim José da Natividade.

A origem do nome da cidade deve-se à aparição do santo e às inscrições rupestres encontradas na entrada da gruta. Porém, como reza outra lenda, não se sabe se as incrições foram feitas pelos índios cataguases — antigos moradores da região — ou se foram palavras deixadas pelo santo.

Outro importante diferencial de São Thomé das Letras, são as construções que existem na cidade. Elas são feitas com as pedras extraídas no solo do município, que depois são cuidadosamente cortadas e empilhadas uma a uma, sem levar qualquer tipo de argamassa. Todas as contruções oferecem incrível segurança e firmeza, assim como os edifíos do século XVIII.

Foi inspirado na vida simples e pacata desta cidade pródiga em lendas e profundamente emocionado pela passagem de um circo mambembe, que o fotógrafo Jean Yves Donnard concebeu este ensaio fotográfico, realizado no início dos anos 80. Portanto, há quase 30 anos.