As grutas guardam a chave do passado

Presidente da Fundação Biodiversitas e curador da Coleção de Paleontologia do Museu de Ciências Naturais da PUC-MG, além de Doutor em Morfologia pela UFMG, o Professor Castor Cartelle — um ambientalista de vasta experiência, admirado e respeitado no Brasil e no exterior — fala sobre a grande ameaça que paira sobre o ecossistema das cavernas, elogia os avanços na política ambiental de Minas Gerais, critica as obras de transposição do Rio São Francisco e diz que o turismo sutentável é uma atividade aliada da natureza.


Por Cézar Félix
Fotos Fernando Grilo

 
 
Como o senhor analisa o Decreto 6.640 de 07/11/08, por meio do qual o Governo Federal pretende classificar as cavernas para determinar suas formas de exploração?
 
Como um absurdo despropósito, para dizer uma coisa mais suave! Não dá para entender como alguém propõe um Decreto como este, absolutamente por fora da história, da realidade. Só pode ser exclusivamente para favorecer interesses econômicos acima de qualquer coisa. É algo altamente desanimador para os pesquisadores, estudiosos, espeleólogos e ambientalistas que trabalham neste campo. Só posso olhar este Decreto por este ponto-de-vista, do lado financeiro, exclusivamente pela força do dinheiro. Não há como ser diferente. Do ponto-de-vista histórico, cultural, científico é um completo absurdo.
 

Então o senhor acha que o Decreto favorece apenas a exploração econômica e não leva em conta a pesquisa científica.
 
É um Decreto permissivo para qualquer coisa relativa a interesses econômicos. Primeiro eu pergunto o seguinte; como classificá-lo? Quais são os parâmetros para classificar a importância de uma caverna? Que parâmetros vamos usar para classificar os códigos de conduta no que se refere à exploração? Acho que este Decreto foi proposto por alguém que nunca entrou numa caverna, a não ser num pub de Londres que se chama “Cavern”. O que vai acontecer é o seguinte: se a caverna estiver próxima de uma mineração ou se  se estiver próxima de uma fábrica de cimento ou de uma “caieira” (onde se faz cal), ela vai correr muito mais perigo do que outras que se estão longe de tudo e de todos, no fim do mundo. Se um maciço é dono de um calcário de alta qualidade ele corre muito mais risco do que um maciço já contaminado e assim por diante. Insisto em dizer que a diretriz máxima deste Decreto é unicamente para favorecer a exploração econômica sem nenhum critério. O Decreto não observa  nenhum tipo de parâmetro. É inacreditável! Agora, eu pergunto: o que é importante numa caverna: a bioespeleologia? Que as cavernas são os refúgios dos morcegos que, por sua vez, garantem vida das matas e das florestas se forem herbívoros ou a limpeza do ar se forem insetívoros? O que é mais importante? Os extratos que existem nas cavernas narrando os acontecimentos durante milhares de anos? Os diferentes espeleotemas arquitetados pela fantástica natureza? Ou o que as entranhas das grutas guardam a vida do passado? O que é mais importante: a música de Bach, Bethoven, Wagner ou Mozart? A simples comparação já ofende. Portanto, o Decreto foi forjado com um parâmetro único: para favorecer somente ao dinheiro.

Eu há 30 anos trabalho com cavernas e confesso a minha admiração e o meu estarrecimento pela total falta de critério e a ausência, repito, de qualquer parâmetro. Talvez exista gente muito mais competente naqueles salões de Brasília equipados com ar-condicionado, o que não acontece dentro de uma gruta. Apesar de eu já ter penetrado em mais de 400 grutas durante cinco anos de minha vida desbravando o interior, acho que perdi o meu tempo, me sinto um analfabeto. Só me resta parabenizar os burocratas de Brasília, aplausos aos técnicos que fizeram esta maravilha de Decreto que realmente honra a inteligência.
 
 
Qual é a importância das cavernas para a ciência?
 
Para você ter uma idéia ainda se desconhece quase tudo sobre espeleologia, a ciência que estuda as cavernas. Existem cavernas em diversos sedimentos ou em diversas rochas: em arenito, ferro, quartzito e em calcário. Eu sempre me refiro às rochas de calcário, pois as outras eu conheço muito mal, não tenho capacidade suficiente para falar sobre elas. Quais são os tipos de vida existentes dentro de uma caverna? Com certeza, milhares de espécies desconhecidas. Se desconhece qual é a ecologia lá dentro, como a morfologia foi criada, o que lá foi depositado ao longo de milhões anos. Há grutas que historicamente tem enorme importância porque na boca delas viveram os primitivos brasileiros e ainda não foram estudadas. Há grutas que ainda aguardam pelo seu Peter Lund e, especialmente, todas as grutas estão aguardando os processos técnicos muito mais avançados que existem agora para que possamos encontrar a chave do passado.  O passado é  como a luz de um farol de carro na estrada iluminando o nosso  caminhar. Renunciar a uma parte extremamente importante de sua história para virar cimento … Olha, se nós não tivéssemos calcário até que se poderia pensar em entrar com muito cuidado numa gruta e explorar. Mas é muito mais fácil explodir um paredão em vez de limpar a camada que está sobre o calcário que está embaixo da terra. A questão é a seguinte: será que o dinheiro está acima de tudo isso?

 
É possível explorar calcário sem destruir as cavernas?
 
Deixem as grutas em paz. Há calcário pra dar e vender. Nós temos o exocarste e o endocarste, ou seja, o calcário que se vê e o que não se vê, pois está embaixo da terra. É verdade que também existem as grutas que estão no endocarste (foram formadas nas entranhas da terra e ainda não apareceram), mas deixem quietas as grutas da superfície. Volto a repetir que estou me referindo às calcárias, já que existem outros tipos de grutas. Desconfio que as questões referentes ao Decreto surgiram em razão de interesses por grutas existentes em outros tipos de terrenos que não os calcários. Não tenho certeza, mas acredito que empresas muito fortes estão mesmo é interessadas nas recentes descobertas de minérios que estão em outros ambientes além do calcário.

 
Qual é a região de Minas Gerais mais rica em cavernas?  
 
Em Minas, a região das cavernas vai desde Bambuí, que está numa região mais ao centro-oeste de Minas, e segue como uma espinha dorsal até Manga no norte; depois entra pela Serra do Cabral e invade pela Bahia adentro. Há uma bifurcação muito bonita rumo a Montes Claros e Montalvânia e ainda há uma outra rumo a Brasília que chega até o município de João Pinheiro. É como se fosse uma espinha dorsal acompanhada pelo Rio São Francisco e também pelo Rio das Velhas. Esta espinha dorsal faz parte do celeiro de Minas, da história de Minas, da maneira de ser da gente de Minas.

 
E por falar em Minas Gerais, como o senhor avalia a situação do meio ambiente no estado?
 
É inegável que no atual governo houve um avanço muito significativo na área ambiental. Hoje há uma nova filosofia na administração do setor com inegáveis avanços. O fato de o governador ter escolhido o Dr. José Carlos Carvalho para comandar a política de meio ambiente foi um grande acerto. Ele é um profissional casado com as suas convicções e é responsável por introduzir em Minas uma nova consciência ambiental. Mas há tanto para se fazer, há tamanho passivo ambiental que eu fico imaginando o Dr. José Carlos de Carvalho na situação de um homem segurando um enorme saco de arroz com vários buracos e ele tentando tapar os furos apenas com as duas mãos.

 
Especificamente, o que o senhor citaria como avanço na política ambiental do governo de Minas?
 
Um evento extremamente significativo ocorreu no estado, inclusive muito pouco destacado pela imprensa. Nos últimos cinco ou seis anos, foi realizado o levantamento de um  gravíssimo problema, sempre escondido, muito pouco percebido pela pessoas, relacionado aos postos de gasolina. Aconteciam irregularidades como derramamento de óleo, por exemplo. Tudo isso foi verificado em Minas. Só esta providência já merece muitos aplausos. Outro projeto muito significativo foi o relacionado aos lixões. Nos últimos quatro anos, todos os munícipios de Minas foram vistoriados e hoje é raro um município que não tem um aterro controlado. Esse é um exemplo de um avanço qualitativo. Infelizmente, um município que não tem aterro controlado é Belo Horizonte, pois a prefeitura deixou o problema acumular, mesmo sabendo que o aterro da BR 040 estava com os seus dias contados. Porém, na minha opinião, o decisivo trabalho, o maior de todos, seria a recuperação do Ribeirão Arrudas e, consequentemente, da bacia do Rio das Velhas até 2010. Não sei se isso será possível, mas os investimentos são fortes. É preciso citar também que o aumento das áreas de preservação, das áreas de proteção especial e de parques estaduais foi espetacular. Eu acho que nestes últimos seis anos se conseguiu mais áreas de proteção, proporcionalmente falando, de toda a história de Minas Gerais.

 
Qual é a sua opinião sobre as obras  de transposição do Rio São Francisco?
 
Uma loucura total. Os argumentos do governo federal não se sustentam. Por que quase todos os conhecedores do sistema hídrico do São Francisco são contra a transposição? Por que a maioria dos políticos é favorável? Eu tenho muito mais confiança em um bispo como Dom Luís Cappio do que em um político do nordeste, embora não queira generalizar, afirmando que não existem políticos tão bons como o bispo. A solução está em outro campo. Tenho experiência para falar porque morei 25 anos no nordeste.  Uma solução mais viável é recolher as águas quando houver excesso de chuvas e construir grandes depósitos. Eu tive a sorte de conhecer a desembocadura do São Francisco. Ela está numa situação que te leva às lágrimas. O delta está sendo desfeito, o rio não tem mais força no embate com as águas do mar. Antigamente o mar adentrava o rio cerca de 20 ou 30 km, hoje invade mais de 100 km, levando a comunidade ribeirinha ao desespero. É muito triste.

 
A atividade turística pode ser uma aliada da preservação do meio ambiente?
 
Eu diria que a atividade turística é uma grande aliada na luta pela preservação ambiental. Turismo de qualidade resulta em respeito ao meio ambiente e gera dinheiro. O turismo é uma indústria limpa e se explorada com racionalidade e inteligência é a atividade que tem a maior capacidade de gerar retorno dentre todas as outras. É muito importante lembrar que a indústria do turismo salvou a Espanha — o país na década de sessenta estava destinado à pobreza—, está salvando Portugal, está levando novas perspectivas ao Marrocos, sem contar a importância que tem para a Turquia e para a Grécia. Para a Itália, nem se fala. Após o final da segunda guerra mundial, o país encontrou na atividade turística uma importante alavanca graças ao seu grandioso patrimônio histórico e artístico. Estes países mediterrâneos definitivamente foram salvos pelo turismo. Quanto ao Brasil, nós temos talvez as mais fantásticas belezas naturais da terra, porém a exploração racional e inteligente destes recursos ainda é feita por inércia. Simplesmente falta projeto, não há uma profissionalização sistemática do setor, infelizmente.   

 
O senhor diria que o Museu de Ciêncis Naturais da PUC-MG pode ser considerado um grande atrativo turístico de Minas?
 
Eu estou concentrado na parte de paleontologia. Estamos com uma extraordinária coleção aqui que agora conseguimos deixá-la inteiramente organizada. São 70 mil peças de mamíferos, répteis e especialmente aves.  Mas a visitação ao Museu tem aumentado gradativamente, temos ótimos atrativos e, sobretudo, uma enorme variedade de informações, especialmente para as crianças.

O Museu de Ciências Naturais vai ser o ponto zero um empreendimento que o governo tenta efetivar como um novo elemento do turismo de Minas Gerais.
 

E o que é este empreendimento?
 
Trata-se  da “linha Lund”. Será o primeiro roteiro turístico científico-cultural do estado. O roteiro começará aqui no museu e terá o ponto final na gruta do Maquiné, depois de passar pelas grutas Lapinha e Rei do Mato, além de uma série de paisagens e eventos naturais como, por exemplo, o local onde foi descoberto o fóssil Luzia.

Portanto, trata-se um instrumental turístico que o governo começa a investir porque acredita que a “linha Lund” é um elemento de turismo de grande potencialidade. Como um marco do início deste projeto, é muito importante destacar a remodelação que ocorreu na iluminação das grutas. Ficou simplesmente primorosa, é um belíssimo espetáculo para os olhos.
 
Insisto em dizer que a diretriz máxima deste Decreto 6.640 do Governo Federal é unicamente para favorecer a exploração econômica sem nenhum critério.
 
Há grutas que ainda aguardam pelo seu Peter Lund e, especialmente, todas as grutas estão aguardando os processos técnicos muito mais avançados que existem agora para que possamos encontrar a chave do passado.
 
A “linha Lund”será o primeiro roteiro turístico científico-cultural do estado. O roteiro começará no Museu de Ciências Naturais da PUC-MG e terá o ponto final na gruta do Maquiné, após passar pelas grutas Lapinha e Rei do Mato.


 

 



"Insisto em dizer que a diretriz máxima deste Decreto 6.640 do Governo Federal é unicamente para favorecer a exploração econômica sem nenhum critério."