Eles passarão, eu passarinho!
 
Conhecido no exterior como birdwatching, o termo aparece no Brasil como passarinhar ou observação de pássaros. A atividade tem se tornado referência em turismo sustentável, de convívio pacífico com a natureza, de preservação e conservação do meio ambiente. Cerca de 80 milhões de pessoas praticam birdwatching no mundo e 60% delas realizam pelo menos 11 viagens ao ano para esse fim. No Brasil, a atividade tem atraído adeptos há pelo menos 10 anos e Minas Gerais, pela sua vasta biodiversidade, é um dos principais destinos.


Reportagem Mariana Lage
Fotos Roberto Murta


Acompanhado da primeira pessoa do singular, ‘passarinho’ mantém-se substantivo na licença poética de Mário Quintana, mas pode também tornar-se verbo conjugado. Segundo o dicionário Houaiss, existem seis acepções para a palavra “passarinhar”, dentre as quais destacam-se duas: a) fazer caçada de pássaros e b) levar vida de vadio; vadiar, vagabundar. No Brasil da última década a palavra tem adquirido nova cara ao designar um hobby e atividade turística que cada vez mais cresce e forma seguidores. Conhecido lá fora como birdwatching, o termo aparece aqui como passarinhar ou observação de pássaros. Se o dicionário registra uma conotação mais negativa, ou mesmo depreciativa para o termo, a partir da atividade turística e de lazer, birdwatching tem se tornado refrência em turismo sustentável, de convívio pacífico com a natureza, de preservação e conservação do meio ambiente.

Comumente traduzido por observação de pássaros, há quem prefira ler birdwatching como observação de aves uma vez que a palavra ‘pássaro’ se refere somente àquelas aves pertencentes ao grupo dos Passeriformes. “Afinal, vai parecer estranho dizer a alguém que se está ‘observando pássaros’ com seu binóculo apontado para uma ema, não é?”, pondera a bióloga Tietta Pivatto, no blog BonitoBirdwatching.


80 milhões de pessoas

Segundo a American Birding Association (ABA), atualmente 80 milhões de pessoas praticam birdwatching no mundo e 60% delas realizam pelo menos 11 viagens ao ano com esse fim. No Brasil, a atividade tem atraído adeptos há pelo menos uma década.

Longe do mero “olhe para cima e veja”, a atividade requer um envolvimento maior do seu praticante. A observação cautelosa, as anotações, as análises comparativas e a checagem na lista de aves distinguem um passarinheiro de um turista contemplativo. Existe, é claro, a possibilidade de se iniciar nessa prática sem maiores compromissos e com pouco conhecimento prévio. O que diferencia a mera olhar contemplação do passarinhar é a forma de olhar. Não precisaríamos recorrer ao dicionário para saber que aquele que observar realiza leitura mais atenta, direciona interesse no olhar, procede comparações.

Segundo Frederico Tavares, da Brasil Aventuras, o público que procura por esse serviço é em geral bastante especializado. “São pessoas que se informam muito antes de viajar. Obviamente tem gente que cai de pára-quedas e nem sabe que passarinho vai ver, mas não é regra”. A regra, segundo Fred, é um público 100% estrangeiro, com média de idade acima de 50 anos e com muito conhecimento prévio. “Por ser uma área muito específica, são turistas mais ‘profissionais’ digamos assim”.


Relatórios e pesquisas

A grande maioria dos passarinheiros faz pesquisas e organizam suas viagens de acordo com as espécies endêmicas. Com cerca de 10 mil espécies conhecidas no mundo, foi criado entre os passarinheiros um ranking mundial pautado pelo número de registros individuais de observação. Phoebe Snetsinger ficou conhecida por ter visto mais de 8.400 espécies. De acordo com Fred Tavares, essas pessoas aficionadas por pássaros são de extrema importância para a comunidade científica, uma vez que cada viagem realizada gera um relatório explicitando espécies, local de observação, hábitos de comportamento e alimentação, dentre outros. São informações utilizadas não só pelo ornitólogo e biólogo, mas também por passarinheiros e guias de campo que futuramente visitarão a mesma região. “Quando se escolhe um lugar para se visitar e observar pássaros, já se sabe mais ou menos o que se pode ver. Essa é uma atividade que tem muito registro de campo e existe muita informação disponível. Nos últimos 10 anos a coisa se tornou muito mais acessível, principalmente para o público brasileiro”.


Iniciação

A observação de pássaros pode ser iniciada individualmente até mesmo dentro da própria cidade, numa praça ou num parque municipal. De saída, é necessário apenas interesse, ouvidos e olhos bem atentos. É aconselhável começar pelas aves de fácil identificação como os tico-ticos, joão de barro, sabiás, bem-te-vis e maritacas. À medida que a curiosidade for despertada, parte-se para os mais difíceis.

Os conselhos para quem deseja iniciar-se nessa prática são simples. Ao começar observando os pássaros que estão próximos, será natural ao praticante adquirir equipamentos que melhoraram sua performance. Um binóculo e um guia ilustrado com espécies de aves por região são ferramentas primárias. Aos poucos, a prática levará o candidato a passarinheiro a acessórios e ambiências mais sofisticados. Os principais equipamentos são binóculos com aumento de sete a nove vezes, luneta, guia ilustrado de campo, lista de aves, caderneta de anotações, vestimenta adequada — em tons claros ou camuflada —câmera fotográfica e filmadora. Aqueles que praticam individualmente ou em grupo autônomo, sem acompanhamento de guia especializado, podem portar também gravadores, bússolas, kit de primeiros socorros e lanterna.

O melhor horário para observar aves é antes do amanhecer até o meio da manhã e no final da tarde entre 17h e 18h30. Certas épocas do ano são mais propícias para observações, como o período reprodutivo que se inicia no final do inverno e se estende pela primavera e verão. Nessa época as aves se tornam mais ativas e defensivas, demarcando seus territórios e construindo seus ninhos.

Outra dica de observação é prestar atenção na mudança de estação, especialmente nas estações de floradas e frutificações das árvores. “Muitas aves possuem um ‘roteiro de alimentação’, ou seja, utilizam rotas de movimentação seguindo locais para se alimentar”, informa a bióloga Pietta Pivatto, em BonitoBirdwatching.


Cadernetas e registros

O uso de cadernetas de anotação aparece como uma extensão do passarinheiro em suas viagens de campo. Elas auxiliam na identificação das aves, registrando características observadas, como formato, coloração, hábitos de comportamento e alimentação, se estão ou não em bando, além do horário em que foram avistadas e outras informações a respeito do local de observação.

Geralmente aconselha-se aos iniciantes começar suas anotações a partir das características que mais chamam a atenção: pintas no peito, pés azuis, uma crista vermelha, dentre outros aspectos. “Com certeza, estas serão marcas de campo importantes”, avisa Pietta. Em seguida, parte-se para características fundamentais como silhueta, tipo de plumagem e coloração, comportamento, tipo de hábitat e canto. “Embora pareça complicado, apenas algumas destas informações serão suficientes para descobrir a identidade da ave”, ensina. Todos esses dados poderão futuramente ser confrontados com publicações ou com anotações e relatórios de outros praticantes, contribuindo para um conhecimento mais fluente de toda a comunidade de observadores de pássaros.

Outra ferramenta muito importante que ajuda na aproximação das aves é a reprodução do canto de uma ave por meio de gravação de campo, ferramenta também conhecida como playback. “Tem pássaro que se você não tem o canto é muito difícil de ver. Tem muito passarinho que fica em folhagem bem perto do chão, em lugar onde a mata é densa demais. As vezes ele está a três metros do seu pé, chamando muito e você não consegue ver. A técnica de chamar o pássaro funciona porque o pássaro pensa que é outro macho que está cantando e para defender seu território, ele acaba mostrando a cara”, explica Fred Tavares. “Canto de pássaro é ferramenta de trabalho para um guia de observação de pássaros”, resume.


Espécies ameaçadas

O Brasil aparece no cenário mundial como um destino atrativo para os observadores de pássaros. Suas 1.650 espécies catalogadas representam 55% das 2.645 espécies da América do Sul. Apesar da posição privilegiada em relação a variedade de espécies, o país detém o maior número de aves ameaçadas de extinção, e tem cerca de 200 espécies na lista vermelha de espécies ameaçadas. Fato que motiva tanto o aumento do número de turistas de observação quanto a organização de congressos nacionais como a Avistar. Em sua terceira edição, o congresso não só reúne especialistas e entidades de pesquisa e conversação de aves, como promove concurso de fotografia que tem as aves como tema central.

Além da quantidade significativa de espécies, todos os anos durante a primavera, o país recebe cerca de 123 espécies de aves migratórias que escolhem as áreas tropicais e sub-tropicais como ponto de repouso. “No outono, por exemplo, o andorinhão-das-tormentas (Oceanites oceanicus), deixa os ninhos no limite do continente antártico para alcançar o Norte do Canadá e nesse percurso pousa em alguns trechos do litoral verde-amarelo. Na mesma época, bandos de biguás (Phalacrocoracx olivaceus) fogem da Argentina para aterrissar no Pantanal ou nos lagos do Sul”, explica o jornalista Paulo Piratininga em reportagem sobre aves migratórias na Revista Super Interessante.


Biodiversidade mineira

Em se tratando da biodiversidade mineira, uma das espécies que mais atrai turistas é a Augastes scutatus, também conhecida por beija-flor de gravata verde, espécie somente vista em uma região específica da Serra do Espinhaço, entre o Caraça e a Serra do Cipó.

Já o pato mergulhão, apesar de não ser uma espécie endêmica do Brasil, também chama a atenção por ser uma ave que vive somente em água muito limpa e em ambiente bastante preservado. Por registros históricos, esse pato ocorria em grande parte da America do Sul, mas por razão da destruição de habitat, caças e outros motivos, torna-se cada vez mais difícil avistá-lo. “O mergulhão é talvez uma das aves mais raras do mundo e na Canastra é um bom lugar para vê-lo”, revela o biólogo e guia de campo da Brasil Aventuras.
De tudo isso, contudo, o mais interessante na visão de Fred é a localização geográfica de Minas Gerais. Entre o fim da Mata Atlântica e início do cerrado, o estado ocupa uma posição privilegiada. “Isso nos dá uma biodiversidade enorme. Uma viagem em Minas que cobre três destinos envolve oito dias, três habitats bem diferentes, e dá pra ver muitas espécies endêmicas no Brasil e algumas que só ocorrem em Minas”.


Código de Conduta

Com o crescimento da prática em todo o mundo do turismo de observação aumenta também a preocupação com o impacto ambiental sobre as aves. Para tanto é divulgado entre os praticantes um código de conduta que prevê, entre outras coisas, não estressar a ave com muitas fotografias e playbacks, manter-se à distância dos ninhos e áreas de alimentação, jamais tocar em ninhos e filhotes, respeitar a distância que as aves permitem aproximação, evitar perturbar o habitat quebrando árvores e arbustos e pisoteando a vegetação e não traçar trilhas paralelas às já existentes.


Publicações

No Brasil é crescente o número daqueles que praticam a observação de pássaros por hobby. Na Internet, há uma ampla comunidade que se reúne em torno do tema, desde congressos nacionais e concursos de fotografia a grupos de discussão, blogs e sites referências com fotos, vídeos e arquivos sonoros.

“As pesquisas na Internet são valiosas pro guia de campo. Tem sites feitos por gringos onde acho informação para o meu trabalho aqui no Brasil. Quer um exemplo? Começamos a operar na caatinga do nordeste e obtivemos muita informação em sites de passarinheiros estrangeiros que vieram ao Brasil e escreveram relatórios de viagem”, comenta Fred Tavares. “As edições brasileiras de livros que tratam sobre os pássaros do país é um fenômeno recente. Apesar de existirem grandes observadores aqui há algum tempo, não é tão antigo quanto é lá fora. A disponibilidade na língua portuguesa é um problema que está sendo sanado aos poucos”.


Safári fotográfico

Outra empresa mineira que disponibiliza o serviço de turismo de observação é a Cipoeiro Expedições. Diferentemente da Brasil Aventuras, especializada no ramo de observação de aves, a Cipoeiro oferece pacote com saídas de campo voltadas para temas da natureza. Flora, aves, animais silvestres, esportes de aventura, cachoeiras fazem parte de seus roteiros de viagem elaborados de acordo com a demanda do turista.

Segundo Paulo Roberto Moreira, o Beto Cipoeiro, diretor da empresa, a maior parte de sua clientela é estrangeira. “Os brasileiros que procuram esse tipo de serviço são aqueles que de alguma forma estão desenvolvendo uma relação mais próxima com a fotografia”. Fato que aponta para uma relação íntima entre a observação de aves e de animais silvestres e as diferentes formas de registros. No ambiente digital, abundam sites e blogs de passarinheiros com fotos e vídeos de campo. Há também muitos sites que disponibilizam cantos de pássaros como instrumento de trabalho do guia de campo.

Para os clientes da Brasil Aventuras, no entanto, as formas de registro sonoro ou fotográfico são de pouco interesse. Mais animador é preencher a lista de checagem de espécies por região com o maior número possível de aves avistadas. Entre o lazer e o turismo, os passarinheiros contribuem de toda forma para o aumento das informações disponíveis a respeito das espécies catalogadas, sejam elas informações sonoras, escritas ou imagéticas.



Entre o lazer e o turismo, os passarinheiros contribuem de toda forma para o aumento das informações disponíveis a respeito das espécies catalogadas.


O Brasil aparece no cenário mundial como um destino atrativo para os observadores de pássaros. Suas 1.650 espécies catalogadas representam 55% das 2.645 espécies da América do Sul. Mas o país detém o maior número de aves ameaçadas de extinção.

Localizado entre o fim da Mata Atlântica e o início do cerrado, Minas Gerais ocupa uma posição privilegiada, além de ainda manter rica biodiversidade. Em Minas é possível ver muitas espécies endêmicas no Brasil e algumas que só ocorrem no estado.


Araçari-banana, pássaro endêmico da Mata Atlântica.

Há entre os praticantes de birdwatching um código de conduta que prevê, entre outras coisas, não estressar a ave com muitas fotografias e playbacks, manter-se à distância dos ninhos e áreas de alimentação e jamais tocar em ninhos e filhotes.


Entre o lazer e o turismo, os passarinheiros contribuem de toda forma para o aumento das informações disponíveis a respeito das espécies catalogadas.

Além da quantidade significativa de espécies, todos os anos durante a primavera, o Brasil recebe cerca de 123 espécies de aves migratórias que escolhem as áreas tropicais e sub-tropicais como ponto de repouso.