Peles etéreas

Euclides Guimarães
 
Vimos tematizando a questão dos invólucros ao mesmo tempo físicos e simbólicos que separam dentros e foras como característicos da maneira humana de ocupar o mundo e também de se ver nele. O arquiteto austríaco Hundertwasser nos serve de referência por ter inventado a metáfora das cinco peles.

A pele é a primeira fronteira que separa o dentro do fora, o “eu” do mundo. A roupa é a segunda pele; o muro, a parede e a casa são formas da terceira pele. No contato intenso com a natureza e com a sociedade outras peles nos envolvem.

A quarta pele é o pedaço do mundo que domesticamos, a inserção social de um indivíduo. Mesmo que as primeiras peles já falem da identidade, é na quarta pele que a maior parte de nossas relações sociais se somam ao dentro. O que fica de fora é o universo do extenso, do estranho, do desconhecido. Essa quarta pele tem dimensões e paisagens bem diferenciadas dependendo da cultura ou da época. Pode ser tanto a parte explorada e conhecida da floresta, ou o campo de caça, no caso de uma cultura silvícola, como pode ser a roça roçada de uma sociedade agrária ou a cidade para uma cultura comercial. A pequena cidade é o melhor exemplo de uma quarta pele, pelo que representa em termos de “social familiar” a seus nativos ou a seus habitantes. A grande cidade industrial extrapola a quarta pele, conglomerando esferas sociais. Nesse caso o  invólucro do familiar é uma mancha que se demarca pelos  ambientes e itinerários que cada indivíduo traça em sua rotina urbana, em suas filiações institucionais, em seus hábitos. Pode ser o bairro, pode ser a escola, pode ser o ambiente de trabalho, pode ser o clube, o bar ou a praça de que uma tribo se apropria e pode ser, como acaba sendo, uma malha de combinações de tudo isso em arranjos específicos a cada indivíduo. Certo é que nenhum urbanóide habita exatamente a mesma cidade.

A quinta pele já abarca esse imenso navio de que todos somos, a um só tempo, tripulação e passageiros. Mesmo que consideremos as inúmeras interpretações do que é o planeta errante em meio ao universo, sempre desconfiamos de que não passamos de um cisco no mundo. O meio ambiente entendido como o bojo dos gestos de uma grande “mãe natureza”, constitui-se então numa quinta pele. Cada cultura inventa seu modo de olhar para o mundo, mas é comum à maioria delas interpretar a terra como uma grande mãe.

Sabemos que a cultura moderna industrial estabeleceu um modo peculiar de relacionar com essa grande mãe, classificando-a, datando-a, seccionando-a e quantificando-a, reduzindo sua diversidade a quantidades de recursos e imprimindo sobre ela uma dominação sem precedentes.

A fronteira suave que outras culturas vivenciam entre a quarta e a quinta pele torna-se um abismo na sociedade moderna industrial. Trata-se, sem dúvidas, de um fenômeno peculiar, um distanciamento da natureza que leva essa cultura a se pensar como coisa à parte e a constituir para si ambientes completamente artificiais. Só uma cultura assim poderia ser tão predatória ao ponto de se ver diante da ameaça do esgotamento dos recursos naturais pelos quais ela mesma lê o mundo.  Só uma cultura assim estabeleceria fronteiras tão nítidas e mutuamente opositoras entre a quarta e a quinta peles. Só numa cultura assim far-se-ia necessário rever todo esse (o)posicionamento, a ponto de se desenvolver emergencialmente uma consciência ecológica.

Coincide com a consolidação dessa consciência ecológica o advento de uma tecnologia que permite a transcendência de todas as peles, na medida em que inaugura a possibilidade de locações e localizações transterritoriais: é o ciberespaço. Enxerguemos a internet como uma nuvem comunicacional que se expande como um manto gigante a cobrir o planeta, portanto, como uma sexta pele capaz, entre muitas outras possibilidades, de (e)levar o doméstico e o íntimo para uma dimensão etérea.

Encapsulando-nos em cabanas eletrônicas, a sexta pele traduz a realidade em telas, simula e copia ambiências em forma de mensagens, imagens, textos. Suga o mundo numa tela, suga-nos do mundo para a tela e nos devolve a um mundo datado, medido, desnudado em dados, esquemas, simulacros e simulações.  Tudo isso afeta nossa percepção do espaço, provocando reversos nas maneiras como lidamos com cada uma das cinco peles precedentes.

A quinta pele, sob influência da sexta, converte-se em uma série de idealizações e fantasias (u)tópicas: estar tão longe da natureza e ao mesmo tempo diante de dados alarmantes sobre seu futuro nos leva a desejá-la como um mundo perdido de belezas e possibilidades de aventura e também nos leva a preocupações éticas, gerando ações planetárias em defesa da sustentabilidade.

A quarta pele, contaminada pela sexta, multiplica-se em ciberculturas. Com os rcursos comunicacionais das novas tecnologias o mundo parece encolher, já que os tentáculos dos poderes sociais, antes presos aos limites da quarta pele, fazem de todo o planeta algo como uma grande cidade. A indústria fordista, cuja produção estava toda restrita ao ambiente coeso de um grande pavilhão, redimensiona-se agora como uma produção transcontinental, mediante um fluxo logístico e relacional em conseqüência do qual um automóvel ou um isqueiro pode conter peças oriundas dos cinco continentes. É o planeta cortado por fluxos, redes onde antes eram mapas.

Desencantado pela ciência e reencantado pela sedução ao consumo, o homem contemporâneo pode travestir-se em personas virtuais , ser o que não é, representar o que não representa e falar sobre o que não sabe, tudo isso liberto da responsabilidade de responder sobre seus atos, como é característico dos ambientes onde o que cada um veste é a própria pele.

 O lugar físico da sexta pele é a tela e a tela é uma das formas da terceira pele, aquela que se abre visualmente para o mundo, ao passo em que se mantém como uma parede tátil, com sua bidimensionalidade que se presta às ilusões e nos remete ao universo da tele-realidade. A sexta pele então se inscreve no âmbito da terceira pele modificando a fronteira entre a intimidade e o mundo.

Escapar da armadura segurado ambiente íntimo que se abre para o mundo através de uma tele janela, convida a redimensionar também a primeira e a segunda peles: em teletempos pessoas também viram telas, e quando saem da clausura de suas cabanas eletrônicas, levam consigo boa parte dos símbolos que cultivam nos (i)limites da sexta pele, exibindo em seus corpos e vestimentas toda a simbologia que adotam na colheita dos sentidos que povoam a realidade etérea de que participam.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC-MG.
 




"Cada cultura inventa seu modo de olhar para o mundo mas é comum a maioria delas interpretar a terra como uma grande mãe."