Samba e jazz na batuta do maestro

Aos 63 anos de idade e 48 de carreira, o maestro Wagner Tiso, mineiro de Três Pontas, lança o álbum Samba e Jazz — Um Século de Música,  que marca o  encerramento de uma trilogia de encontros iniciada, em 1997, com os discos ‘Debussy e Fauré encontram Milton e Tiso’ e, em 2000, com ‘Tom e Villa’.
 

Foto Márcia Foletto

 
O maestro, instrumentista e arranjador mineiro (de Três Pontas) Wagner Tiso, um músico consagrado no Brasil e no exterior, além de revenciado por grandes músicos de todos os cantos do mundo, foi buscar na força da música negra a inspiração para o seu novo trabalho, o álbum Samba e Jazz — Um Século de Música.

Tanto o samba quanto o jazz carregam em sua origem a força da música negra, vinda da África pelas mãos de escravos. Uma vez aqui e nos Estados Unidos, os ritmos negros foram miscigenados por meio do contato com as culturas norte-americana, brasileira e também a européia.

A história inclusive registra uma curiosa coincidência reunindo samba e jazz. Ambos tiveram seus registros fonográficos pioneiros realizados

exatamente no mesmo ano, 1917. Em Nova York, a Dixieland Jazz Band, um conjunto formado por músicos brancos de Chicago, gravou ‘Tiger Rag’. No Rio de Janeiro, no mesmo ano, gravava-se ‘Pelo Telefone’, oficialmente uma composição de Ernesto dos Santos, o Donga, com Mauro de Almeida e, extra-oficialmente, uma criação coletiva dos participantes das rodas de samba de Tia Ciata.

“A nossa idéia era mostrar o jazz e o samba num recorte que privilegia dos anos 20 até os 60, mais ou menos”, explica Wagner Tiso. “Os dois estilos tem a mesma origem; o jazz, mais do que o samba, usufruiu muito da harmonia européia. Mas o samba também, já que gerou a bossa-nova que por sua vez tem muito dessa harmonia do jazz”.

O álbum soma 12 faixas divididas simetricamente entre os sambas (de ‘Sinhô’, Ary Barroso, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Chico Buarque e Paulinho da Viola) e as homenagens aos grandes intérpretes do jazz (Count Basie, com ‘Shinny Stockings’ e ‘April in Paris’; John Coltrane, com ‘Naima’; Bill Evans, com um medley de ‘Smoke Gets in Your Eyes’, ‘What is There to Say’ e ‘Young and Foolish’; Miles Davis em duas faixas, com ‘Tune Up’ e ‘Solar’).

 
Trilogia de encontros
 
Aos 63 anos de idade e 48 de carreira o maestro Wagner Tiso tem no álbum Samba e Jazz – Um Século de Música  o marco do encerramento de uma trilogia de encontros iniciada, em 1997, com ‘Debussy e Fauré encontram Milton e Tiso’ e, em 2000, com ‘Tom e Villa’. Arte é o que se aprecia em ‘Samba e Jazz’, em que Tiso revisita diversas de suas fontes, firmadas desde os tempos dos grupos de jazz na adolescência passando pela noite carioca da década de 60.

De Ary Barroso a Paulinho da Viola, de John Coltrane a Miles Davis, tocados por solistas do calibre de Hermeto Pascoal, Paulo Moura, Hamilton de Holanda, Nivaldo Ornelas, Victor Biglione, Nicolas Krassik, Lula Galvão, Carlos Prazeres e Marcelo Martins, a homenagem não é só aos poderosos e inventivos gêneros, mas também a criatividade artística, que no maestro pulsa com uma vitalidade de perder o fôlego. O CD, com selo Trem Mineiro, chegou às lojas na primeira semana de fevereiro.

 
A banda, as cordas e os solistas
 
“Fizemos a base com uma banda espetacular”, conta Tiso, composta por Lula Galvão, na guitarra, João Baptista, no baixo elétrico, Sérgio Barrozo, no contrabaixo, André Boxexa e Carlos Bala, na bateria, e Mingo Araújo, na percussão. Assim como nos outros dois discos da trilogia, o contraponto essencial foi feito por um quarteto de cordas – desta vez, numa formação diferente; duas violas, de Ricardo Amado e Fernando Thebaldi, e dois violoncelos, os de Marcio Malard e Hugo Pilger.

Compondo a trama harmônica também com sopros em algumas faixas (Dirceu Leite, no sax alto, Marcelo Martins, no sax tenor, Nailson Simões, no trompete, e Roberto Marques, no trombone), o maestro estruturou uma paisagem sonora que, mais do que ressaltar diferenças entre os gêneros, aproximam samba e jazz na sofisticação de suas harmonias e liberdades rítmicas.

Entre os solistas convidados estão alguns dos maiores nomes do instrumental brasileiro como Paulo Moura, Hermeto Pascoal (participando pela 1ª vez de um CD de Tiso) e Nivaldo Ornellas, assim como solistas já consagrados (Victor Biglione, Hamilton de Holanda, Lula Galvão) e novos grandes intérpretes como Nicolas Krassik, no violino, e Carlos Prazeres, no oboé. “Quis mostrar que qualquer instrumento pode tocar samba. E bem, quando convidei o Carlos Prazeres, regente e músico clássico, para tocar oboé em ‘Quando o Samba Chama’, de Paulinho da Viola”, afirma.