Velho Chico rio abaixo
 
Às margens do Rio São Francisco, nos sertões dos Gerais, deslumbre-se numa bela viagem pelas paisagens, cultura e história das cidades de Pirapora e Januária.
 
Reportagem Andrea Rocha
Fotos José Israel Abrantes
 
 
Nas últimas décadas, muito daquela natureza sertaneja que caracterizava os sertões dos Gerais se perdeu — ou se transformou. Antigo lugar de passagem de ouro, víveres e gado, o sertão dos tropeiros e pequenos agricultores foi ocupado por outras atividades e ciclos econômicos. O cerrado, que dominava a paisagem da região Noroeste e parte do Norte de Minas, com transição para a caatinga, aos poucos foi cedendo lugar para as monocultura da soja e eucalipto e a criação de gado.

Mas apesar das mudanças do tempo e no espaço, a região dos sertões às margens do Rio São Francisco, que vai do centro ao noroeste e extremo norte do Estado, ainda vale uma bela viagem.

São novas experiências e paisagens, cortadas por veredas, nascentes, córregos e rios — tributários fundamentais para a manutenção da vida do “Velho Chico” — lapas, chapadas vilarejos e vastos municípios. Às margens do São Francisco, destacam-se, por sua história, natureza e imensa potencialidade  turística, os municípios de Pirapora e Januária.

Entre essas duas cidades, descendo o São Francisco, há quase uma síntese da cultura e história de Minas Gerais. Festas folclóricas e religiosas, a deliciosa gastronomia a base de peixes nobres do rio, a cachaça artesanal, arte popular e artesanato, além na natureza exuberante.

Ainda hoje, avistam-se, sem dificuldades, tucanos, maritacas e grande variedade de espécies típicas do cerrado. No São Francisco e em seus tributários, apesar da poluição ambiental, ainda se mantém vivo o hábito da pesca, alimentando corpo e alma da população ribeirinha.

Percorrer os sertões de Minas margendo o São Francisco, nesse começo de século XXI, pode não ser a mesma experiência dos sertanejos de outrora. Mas, como nos sugere o grande Guimarães Rosa, entre a origem e o destino, há que se viver a travessia.
 

Pirapora
 
Local onde saltam os peixes. Este é o significado de Pirapora, município da região Norte, localizado a 347 km de Belo Horizonte. É conhecida pela fartura de dourados, surubins, curimatãs, piaus, pacamãs. E é também referência em turismo na região conhecida como Médio São Francisco.

No trecho que atravessa Pirapora, o São Francisco forma praias e duchas naturais muito apreciadas por moradores e turistas. O ambiente é formado também por pequenas ilhas fluviais, visitadas por garças e diversas outras aves. Nos afluentes do São Francisco podem ser encontradas várias cachoeiras e corredeiras onde são praticadas a canoagem ou passeios de barco.

Pirapora também ficou muito famosa pelas carrancas artesanais, hoje característica de toda a região, e que serviam para espantar mau olhado e garantir  boa pescaria. Bem no centro da cidade tem-se uma bela visão da histórica e turística ponte Marechal Hermes. Construída em 1920, com estrutura metálica, tem 694 metros de extensão e liga Pirapora a Buritizeiros.

Mas o maior atrativo continua sendo o Benjamim Guimarães. Trazido do Mississipi, nos Estados Unidos, o barco é o único do mundo ainda movido a lenha. Restaurado e tombado pelo patrimônio municipal e estadual, conta com doze cabines para os viajantes. São cerca de quatro horas de passeio para percorrer 18 km ao longo do rio São Francisco.
 

Januária
 
Foi o sonho do bandeirante Fernão Dias de encontrar esmeraldas, no início do século XIX, que deu origem a cidade de Januária, no extremo Norte de Minas. Distante 603 km de Belo Horizonte, a  cidade está localizada no alto médio São Francisco, à esquerda do “Velho Chico”.

Entre seus principais atrativos estão a pesca, as grutas, cachoeiras e praias pluviais — que devem ser visitadas, preferencialmente, nos meses de julho, agosto e setembro, quando as águas do São Francisco estão rasas e limpas. No Balneário de Pandeiros há um complexo de cachoeiras com águas cristalinas e poços para mergulhos.

Informações, curiosidades e história de Januária podem ser conhecidas na Casa da Memória do Vale do São Francisco, onde acontecem permanentemente mostras de artesanato, que ilustram bem a cultura local, como redes de palha de buriti, carros de boi e utensílios de madeira.

O distrito de Brejo do Amparo, localizado a apenas sete km da sede do município, merece ser visitado. Além de se conhecido pela produção de cachaça, o distrito também tem imporância histórica e cultural, com casario colonial e um notável exemplar do barroco mineiro: a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída por escravos no final do século XVII.

Januária é, também porta de entrada de um dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo, o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu.
 

As formas monumentais das cavernas do Peruaçu

A visita ao Parque Nacional Cavernas do Peruaçu não é para qualquer um. É preciso ter muita disposição para enfrentar a distância, o calor e as dificuldades de acesso. Mais do que isso, é preciso ter autorização do Ibama, responsável pela preservação desse notável patrimônio histórico e natural.O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu possui uma area de 56.800 hectares, localizado nos municípios de Januária, Itacarambi e São João das Missões. Criado em 1999, abriga cerca de 100 sítios arqueológicos, 140 grutas, já catalogadas, além de contribuir para a preservação da fauna e da flora da transição dos ecossistemas cerrado e caatinga.

Pela quantidade e importância de suas pinturas rupestres, é considerado um dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo, com fósseis e inscrições rupestres que registram a presença de hominídeos há cerca de 11 mil anos.

As cavernas esculpidas pelo rio Peruaçu e os sítios arqueológicos compõem formas monumentais dentro do parque. O maior exemplo é a Gruta do Janelão. Atravessada pelo rio Peruaçu, tem 4 quilômetros de extensão, intercalando trechos escuros e clarabóias gigantescas. No Janelão, tudo é superlativo, desde o desde o pé direito, que ultrapassa 100 metros de altura, até uma estalactite de 28 metros.

Além da riqueza geológica, espeleológica e arqueológica, o parque guarda também boa parte da fauna e flora da região, que sofreu sucessivos processos de degradação ambiental.

Entre as espécies do cerrado, as mais comuns são o Barbatimão, o Pau-santo, a Aroeira-do-sertão, o Tingui, o Murici, o Pequizeiro, o Jatobá, o Araticum e a Barriguda-de-espinho ou Embaré. Já a caatinga é formada por cipós, cactáceas, bromeliáceas e gramíneas. As matas de galeria e as veredas de buritis aparecem nas áreas úmidas completando a vegetação do Parque.

Em meio a este ambiente são encontrados veados-mateiro, capivaras, lobos-guará, jaguatiricas e micos-estrela. Aves ameaçadas de extinção encontram ali o seu refúgio, entre elas, o Gavião-pega-macaco, o Papagaio-de-peito-roxo, o Andorinhão-de-coleira.


Sabores da culinária popular
 
Frescor. É o que nos oferece o rio São Francisco, o doce mar de Minas. Na receita mineira, não há excesso de óleos ou temperos. O que vale mesmo é a qualidade do peixe. Surubim, sal, vinagre, açafrão e farinha para o pirão. Está pronto mais um sabor tanto em Pirapora quanto em Januária.

Alimento para o corpo, os peixes ganham também dimensão espiritual, segundo confirma a sabedoria local.  Conforme apurado por pesquisadores, na represa, os peixes cumprem funções medicinais. Várias famílias de pescadores usam pelo menos seis espécies com finalidades terapêuticas. Cabeça, banha e fel são as partes mais utilizadas para o tratamento de enfermidades como a gripe, dor de ouvido, cólica de rins. São usados diretamente como alimento, simpatias, chá ou preparo da gordura para aplicação. Dos curimatás, por exemplo, se tira a gordura para tratamento de gripes. O chá das pedras das corvinas servem para as cólicas.



Apesar das mudanças do tempo e no espaço, a região dos sertões às margens do Rio São Francisco, que vai do centro ao noroeste e extremo norte do Estado, ainda vale uma bela viagem.


O vapor Benjamin Guimarães, um grande atrativo de Pirapora: quatro horas de passeio percorrendo 18 km ao longo do rio São Francisco.

A ponte de estrutura metálica (construída em 1920) que liga Buritizeiro a Pirapora.


Ponte em Januária.

O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu abriga cerca de 100 sítios arqueológicos e 140 grutas já catalogadas.


Pinturas rupestres nas cavernas do Peruaçu.

O barqueiro é um personagem sempre presente ao longo do grande rio.

A pesca ainda é uma importante atividade pra a população ribeirinha.