Verônicas - Pedro David

A fotografia tem uma relação especial com o presente — qualquer imagem testemunha o que acontecia no momento do disparo do obturador, o que estava à frente e dentro do ângulo de formação da imagem. O modo documental é este testemunhamento consciente, dentro dos princípios que consensualmente formaram a tradição do documentário.
 

Por Rui Cezar dos Santos


Desde o final do século XIX alguns fotógrafos têm assumido uma postura de registrar o que está em vias de desaparecimento. Uma forma de embalsamar, lamentosamente, sempre. Esta passagem, então escancarada, continua, entre nós, sendo arrombada. Problemas: quem está se ocupando agora do insinuante e que à frente entrará em declínio e desaparecimento. Ou seja, quem está realizando plenamente o vínculo da fotografia com o presente já que, arrombando portas já abertas e, de certo modo registrando o passado já visível no presente, o futuro hoje em construção, o contemporâneo, resulta desassistido?

Em Minas uns poucos fotógrafos vêm se ocupando apenas do presente, desprezando achancela aprobatória de abordar o que já foi feito, passado, repassado e que assim não surpreende, não demanda autoria, opinião, ideologia, granjeando o torto consentimento de todos, e a admiração de muitos. Temos sido brindados com estes sandubas formulados na filosofia fast food do macdonald´s. Trabalhos quase nada inventivos que aniquilam a imagem, variando apenas rostos, mãos, faces, roupas e detalhes ambientais.

Entre os que arriscam a pele e trazem opiniões para a arena do debate está Pedro David e seu trabalho fincado em raízes, rotas, veios onde o fluxo circulante está minando coisas sólidas diluindo-as. Cerzidas pelo autor em uma trama inconsútil aparentada ao realismo fantástico de Juan Rulfo.

Ali, no norte de Minas, fantasmas velhos agarrados como cracas a corpos em processo de eletrificação por sinais virtuais em tons de magenta, azul lingerie, couro e vermelhos apresentam-se para serem, estranhamente, objetivamente constatados, percebidos, e re-embaralhados em uma série narrativa contraditoriamente crível, deliciosa, implacavelmente misturando novo e velho, fresco e moribundo.

Não há, no trabalho, a lamentação fácil, o caminho do empate em zero a zero que as culturas antigamente não-privilegiadas vêem recebendo de um exército brancaleonesco bem intencionado. Mas não por isto desculpável. Permite-se que falem por si só, admita-se; mas em um processo de incorporação e legitimação dos ex-marginalizados que por fim é apenas outro aspecto da mercantilização da cultura e seus ex-marginais. Diluem-se diferenças, abençoa-se a tudo sobre a terra, um processo há algum tempo comentado brilhante e problematicamente por Hal Foster.

A lida com aquilo ainda informe é arriscada. Por isto a fotografia, principalmente a fotografia, não é para covardes. O risco está presente no agir, por definição. E o valor, o maior valor, ainda reside naquilo que é individualmente percebido, eleito, abordado, aflorado, indagado. Teatro onde antes havia Arte? Talvez, mas segundo alguns, a fotografia foi a maior responsável pela invalidação do idealismo desta Arte. E é chata a insistência repetidora da intenção conceitual que se adapta muito bem à função de pé de página dos teóricos pós-modernos, uma nova e perversa floração formalista, studium onde precisamos urgentemente de punctum. Pelo que somos gratos ao cinema que não abandona a função de levantar questões representando, narrando.

Rota – Raíz, sem rumor, lida uma geografia adversa. O norte de Minas, como observou John Berger sobre o inpintável planalto espanhol, é uma terra ... sem promessa visível. Se há uma promessa, ela existe atrás do natural. Aqui a natureza ao invés de ser submissa, é indiferente. Ela é surda à questão porque o homem? e mesmo seu silêncio não pode ser tomado como uma resposta. A natureza é definitivamente pó (o termo espanhol para ejaculação é “arremessar pó”) — em cuja oposição não há nada exceto a fé feroz ou o orgulho do indivíduo. ... Ali o visível é nada ... uma forma de desolação, aparências são uma forma de debris.

Nelas, uma soturna melancolia impregnada, uma verônica. A participação, prestimosa, responde à atenção diligente do viajante, mas não há uniformidade nisto, nem se arranha o cerimonioso. E não há disposição aparente para grandes revelações. Nada parece pedir uma lágrima ou valer um sorriso franco. Talvez um plateau, deferimentos. O fel de não saber, exatamente, o que levamos conosco para o escuro...

A mercê, falo aos meus ouvidos, é uma concessão humanista que não medra no inóspito.

Três graças, transviados de olhares inexpressivos, anja, tecnologia florestal, espelhos geometrizantes, madalena, re-representações, palimpsesto, novas cortinas para velhas paredes. Os que vão morrer, neste trabalho, nos saúdam. E tanta tristeza, ... do Jeca? Quanta insubstância, ... do invisível?

AH! Mariquita, dá cá teu pito, pois no teu pito está o infinito.