Mina d'água, águas de Minas

É preciso alertar  para a vital importância da preservação dos mananciais assim como das veredas dos grandes sertões e das matas ciliares que protegem córregos, ribeirões e os grandes rios.

Por Mariana Lage
Fotos Henry Yu


A escassez e a poluição das águas tornou-se uma questão determinante para a sobrevivência da humanidade. Sabe-se que, de toda a água disponível para consumo, cerca de dois terços encontram-se na forma de geleiras e outros 30% estão localizados no subsolo na forma de lençol freático. A dificuldade de acesso e a poluição crescente dos cursos d’água aparecem no topo da lista de prioridade das resoluções ambientais. Se quisermos criar um futuro sustentável, a educação e o gerenciamento dos recursos hídricos tornam-se pré-requisitos instrumentais.

Para tanto, é preciso ressaltar a importância da preservação dos mananciais assim como suas veredas e matas ciliares, pois, como aprendemos nos bancos escolares, a água que nasce no interior do estado e em regiões de altitudes elevadas correm em direção ao oceano, supera obstáculos de relevos, engrossa seus curso, tomando as sucessivas formas de córregos, ribeirões, corredeiras, cachoeiras, grandes rios e, em alguns casos, reservatórios artificiais de grande porte. As fontes de água utilizada de diversas formas pelo homem, também conhecidas como mananciais, ocorrem sob três diferentes tipos: superficial como córregos, ribeirões, rios e lagos; subterrânea, ou seja, águas localizadas abaixo da superfície do solo e que se manifestam na forma de nascentes e poços rasos ou profundos; e, por fim, a água de chuva. Três tipos que resumem as etapas do ciclo hidrológico: a evaporação, a precipitação, a infiltração e o escoamento pela superfície da terra. Intervenções nesse ciclo causam desequilíbrios graves proporções. Um exemplo seriam as enchentes provocadas pelo desmatamento das matas ciliares, o qual impossibilita o escoamento superficial adequado e o armazenamento da água no subsolo.

Conhecido e respeitado esse ciclo, o esforço de preservação das bacias hidrográficas pode então resultar em qualidade de vida e desenvolvimento sustentável.
 

Veredas
 
Personagem-cenário dos grandes romances de Guimarães Rosa, as Veredas são também personagens cruciais do bioma cerrado. Detentoras de características peculiares, elas são responsáveis pela manutenção da biodiversidade, controlando o equilíbrio biológico de pragas e estabelecendo ligações entre espécies diversas de fauna e flora.

As áreas úmidas com pequena depressão e de relevo plano na paisagem dos sertões são rapidamente identificadas pela presença de carandás-guaçu, palmeiras do brejo ou coqueiros-buriti, árvores que possuem de 12 a 15 metros de altura. É ali que ocorre, devido às condições do solo, o afloramento do lençol freático e o nascimento de pequenos cursos de água. Daí outra característica de suma importância tanto para o homem quanto para animais do cerrado: são fontes perenes de água. Servem como abrigo e fonte de água para uso doméstico. Por isso, as veredas são também conhecidas como “oásis do sertão”.

Com maior concentração na região noroeste do estado, as Veredas são ecossistemas que tem sofrido bastante com as plantações de eucaliptos, as pastagens e as monoculturas de soja, milho, feijão e café. Apesar de serem protegidas por lei, é recorrente a visão do estreitamento e invasão dessas áreas úmidas seja pela agricultura seja pelos eucaliptais.  

A longo prazo, essa invasão culmina na extinção das cabeceiras e no ressecamento do lençol freático responsável pelo afloramento de água daquela região.

 
Nascentes
 
Olho d’água, cabeceira, fonte ou mina d’água. Nomes que identificam o local de nascimento de um pequeno e tímido curso de água a partir da superfície do solo.

Localizadas em regiões de altas altitudes como montanhas e planaltos, as nascentes ocorrem pelo afloramento do lençol freático, adquirem formas de acordo com o relevo e correm em direção às regiões mais baixas. Nesse caminho, os cursos d’água tomam corpo na medida em que encontram outros rios e são alimentados pelas águas das chuvas.  

Se as nascentes não representam o começo do ciclo hidrológico, ao menos desempenham um papel de suma importância. É a partir delas que as águas provenientes do solo darão vazão a córregos, rios, lagos, represas e pântanos, distribuindo a água por um extenso território.

De toda a água disponível no planeta – 1,4 milhões de quilômetros cúbicos –, estima-se que apenas 3% seja própria para o consumo. Desta porcentagem, menos de sua décima parte estão localizadas na superfície do solo, de fácil acesso ao homem.

Se o Brasil é privilegiado por possuir 12% do total de água potável no mundo, é preciso, no entanto, trabalhar pela conscientização ambiental e pela preservação dos recursos hídricos. Os despejos de lixo e esgoto, a subutilização das águas nas irrigações agrícolas e o desmatamento das matas ciliares são as principais agressões ao meio ambiente. Quando a água é poluída em sua nascente, todo o ciclo hidrológico é prejudicado. O dejeto depositado nas cabeceiras fatalmente será distribuído nas regiões mais baixas da bacia hidrográfica ou depositado ao longo de suas encostas.  

A falta de água potável transformou-se em uma das maiores ameaças para a humanidade. Segundo a Organização das Nações Unidas, ela é responsável por 80% das mortes nos paises pobres e 65% das internações hospitalares.
 

Matas Ciliares
 
Escudo protetor natural de córregos, lagos, igarapés, represas e nascentes, as matas ciliares desempenham função semelhante aos cílios de nossos olhos: retém a integridade da área que circunda. Funcionam principalmente como filtros, mantendo o curso de água em seu leito e absorvendo sedimentos, poluentes e substâncias químicas usadas em excesso pelas lavouras. Em regiões de topografia acidentada, exercem também a proteção do solo contra os processos erosivos.

A preservação das matas de várzea ou de galeria, como também são conhecidas, trazem benefícios em larga escala. Além de conservar a qualidade da água e do solo, essas áreas de vegetação rasteira próxima aos cursos d’água servem também como corredores entre reservas de matas tropicais, contribuindo para o deslocamento e cruzamento constante entre espécies diversas de fauna e flora. Desta forma, além de contribuir para a biodiversidade, exercem o controle natural e biológico de pragas. Durante o período de chuva, a vegetação ciliar trabalha na absorção e no escoamento natural das águas, evitando enchentes, erosões do solo e assoreamento dos rios.

Sua ausência contribui para a escassez de água por não permitir sua infiltração e armazenamento no subsolo, enfraquece as reservas subterrâneas, reduz as nascentes, extingue diversas espécies da fauna e da flora, provoca mudanças climáticas locais e deteriora a qualidade e quantidade de água em rios e oceanos.

Desde 1965, toda a vegetação natural presente ao redor de nascentes e reservatórios e ao longo das margens dos rios é considerada por lei como área de proteção permanente. O Código Florestal prevê ainda dimensões diferentes da área de preservação obrigatória de acordo com a largura do curso de água.
 

Espinhaço
 
Podendo ser considerada a única cordilheira no Brasil, a Serra do Espinhaço impressiona por seu tamanho e por sua biodiversidade. Com cerca de 1500 quilômetros de extensão, reúne os ecossistemas da Mata Atlântica, do Cerrado e da Caatinga, e é responsável pela drenagem das principais bacias hidrográficas de Minas Gerais, a do São Francisco, ao norte, a do Paraná, orientada para o Sul, e a do Doce e do Jequitinhonha, em direção ao mar, além de outras pequenas drenagens. As montanhas do Espinhaço aparecem como grande divisor de águas, retendo-as na época de chuvas e distribuindo-as durante as estações mais secas. São consideradas a caixa d’água do estado por ser berço das cabeceiras de rios nacionais e reservatório natural de grande parte da água que abastece o país. Por seu relevo acidentado, ressalta-se, em especial, a ocorrência de cachoeiras e corredeiras.
 
 

 

 

É na Vereda que ocorre, devido às condições do solo, o afloramento do lençol freático e o nascimento de pequenos cursos de água.

 

 

 

É a partir das nascentes que as águas provenientes do solo darão vazão a córregos, rios, lagos, represas e pântanos, distribuindo a água por um extenso território.

 

 

 

A mata ciliar é o escudo protetor natural de córregos, lagos, igarapés, represas e nascentes. Ela mantém o curso d’água em seu leito e trabalha na absorção e no escoamento natural das águas, evitando enchentes, erosões do solo e assoreamento dos rios.

 

 

 

A Serra do Espinhaço aparece como monumental divisor das águas, retendo-as na época das chuvas e distribuindo-as durante as estações mais secas. É a caixa d’água de Minas Gerais por ser berço das cabeceiras de grandes rios e reservatório natural de parte da água que abastece o Brasil.

 

 

 

Em todas as Minas Gerais é fácil a identificação de cachoeiras e piscinas naturais. As bacias dos rios Doce, Jequitinhonha, Grande, Paranaíba, Paraíba do Sul e São Francisco definem as águas como atrativos turísticos essenciais do estado.

 

 

 

De vital importância econômica e social, além de ecológica, evidentemente, parte dos grandes rios nacionais ou nascem em Minas Gerais ou cortam o estado em algum ponto. Os rios Doce, Grande, Paranaíba, Paranaíba do Sul, São Francisco e Jequitinhonha têm suas nascentes em Minas e atravessam um extenso território em direção às regiões sudeste, centro-oeste e nordeste do país.

 

 

 

Minas Gerais se destaca não só pela distribuição hidrológica em âmbito regional e nacional, mas sobretudo pelo potencial hidroelétrico, turístico e cultural que sua formação geomorfológica lhe proporciona. Ao todo são nove bacias, quatro grandes reservatórios artificiais e cerca de dez circuitos turísticos.

 

 

 

Nenhum discurso sobre qualidade de vida, desenvolvimento sustentável, potencialidade turística (dentre tantos outros repetidos em vão) se sustenta sem a preservação das bacias hidrográfica.