Vôo alto

O diretor administrativo-financeiro e diretor de relações com o investidor da Trip Linhas Aéreas aposta no fortalecimento da aviação regional no Brasil, um modelo ainda não regulamentado no país. O executivo afirma que a companhia, originária do Estado de São Paulo, encontrou um excelente ambiente de negócios em Minas Gerais.


Por Cézar Félix
Fotos Fernando Grilo




Quais os fatores que levaram a Trip a aportar as suas bases em Minas Gerais?

Quando abriu o seu primeiro vôo para Minas Gerais em julho de 2007, a Trip iniciou conversas com o governo do Estado — por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico — em busca de ampliar o seu mercado. Após seis meses de diálogo, e no momento em da aquisição das operações de passageiros da antiga Total, a Trip também adquiriu uma infra-estrutura muito interessante no Aeroporto da Pampulha. Com a junção desses dois acontecimentos, consagrou-se um grande projeto de consolidar Minas Gerais como o centro operacional da Trip no Brasil. Houve um rápido avanço.
No primeiro semestre de 2008, foi assinado um protocolo com o governo do Estado no qual a Trip transferiu e centralizou em Belo Horizonte o seu centro de manutenção e toda a estrutura de estoque de peças, de compras e de importação de peças, além de transferirmos para BH os setores de contabilidade, administrativo-financeiro e comercial, que, aliás, se fortaleceu muito em Minas. Hoje, toda estrutura da Trip, o que faz a empresa avançar, crescer e se desenvolver, está instalada no Aeroporto da Pampulha em Belo Horizonte. Inclusive, aqui na Pampulha, já temos espaços para novos angares, planejamos e projetamos crescimento nesta área em BH.


O senhor diria então que as negociações com o governo de Minas foram fundamentais para vinda da Trip?

O governo do Estado percebeu na proposta da Trip um projeto maior voltado para expandir o setor e a atividade econômica ligada ao transporte aéreo em Minas Gerais. Sem dúvida, o governo mineiro demonstrou possuir uma visão estratégica muito interessante. De fato, houve um encontro de idéias avançadas que permitiu a efetivação deste projeto. Como conseqüência, temos outros projetos já alavancados como o centro de treinamento. Vamos erguê-lo aqui na região metropolitana de BH pra treinar todo o nosso pessoal. Para o início de 2009 já estaremos construindo a parte de engenharia e de arquitetura. A previsão é que tudo esteja pronto até o final deste mesmo ano. Por outro lado, a aproximação e a consolidação da vinda da Trip para Minas Gerais foi baseada em alguns pontos que consideramos estratégicos: a infra-estrutura que herdamos da Total no Aeroporto da Pampulha; o espaço disponível na Pampulha permite a ampliação da estrutura, como, por exemplo, a construção de novos angares.


Qual a avaliação que o senhor faz do ambiente e da dinâmica de negócios que a Trip, uma empresa paulista, encontrou em Minas Gerais?

Primeiramente, é preciso reconhecer e louvar o grande esforço que está se fazendo na efetivação de um pólo de desenvolvimento de mão-de-obra especializada na região metropolitana de BH. A soma destes fatores vai constituindo um ambiente de negócio favorável ao nosso crescimento aqui nessa região. Aplaudimos com entusiasmo o profissionalismo das instituições de Minas Gerais, principalmente aquelas ligadas ao governo do Estado. Temos encontrado ótimos interlocutores nas secretarias de Desenvolvimento, de Turismo, de Fazenda, no INDI e no BDMG. Essa realidade favoreceu decididamente a vinda da Trip para Minas. Estamos dialogando com profissionais conhecedores do ‘business’, estudiosos do assunto e preparados para dialogar. A conversa flui porque existe do outro lado pessoas bem preparadas, com estratégias, com políticas definidas, demonstrando a capacidade do Estado de planejar a curto, médio e longo prazos. Aí fica muito mais confortável para a empresa privada desenvolver os seus projetos. A companhia sabe que tem o respaldo de uma infra-estrutura, de acesso a financiamento, de apoio tributário. São questões fundamentais, pois assim conseguimos visualizar os resultados também a curto, médio e longo prazos. Esta situação nos proporciona muito conforto para projetarmos o nosso futuro.
Outra questão importantíssima: aqui em Minas realmente o ambiente de negócio é de alto nível de excelência, seja junto à Receita Federal, seja junto aos orgãos que trabalhamos no Aeroporto de Confins com importação de peças e a até de aeronaves (as novas que adquirimos em 2008). Em Minas existe muita clareza, os processoas andam, não há nenhum tipo de empecilho. Aqui não vinga famosa situação de criar dificuldades para vender facilidades. Notamos uma diferença qualitativa gritante nestes orgãos que constituem o ambiente de negócios de Minas Gerais.


O senhor falou em aquisição de aeronaves…

Desde janeiro de 2007, a Trip assinou um contrato com a ATR para a aquisição de 12 aeronaves, modelo ATR 72500. São aeronaves extremamente avançadas no ponto-de-vista tecnológico, pois são aviões turbo-hélice de uma geração que nunca vimos operando no Brasil. Destas 12, quatro já chegaram e as oito restante chegam ao longo de 2008 e no primeiro semestre de 2010. Estas oito aeronaves vão transformar a Trip na maior referência da viação regional do Brasil. Além disso, assinamos, em maio de 2008, um contrato com a Embraer para a aquisição, num primeiro pacote, de cinco aeronaves, podendo haver extensão para mais 10. Portanto, seriam 15 jatos Embraer RJ175 configurado para 86 assentos. São jatos configurados especificamente para o mercado de aviação regional. Junto com os ATR 72500 (que são jatos de 76 assentos) vão compor a nova frota da Trip. A companhia tem essa estratégia de moldar e criar uma aviação regional no Brasil com equipamentos de vanguarda, desenhados na medida correta deste mercado.


Mas como o senhor explica o termo aviação regional?

A aviação regional no Brasil não é regulamentada. As nossas normas e regulamentos, sejam da ANAC ou INFRAERO ou nos demais orgãos que constituem o arcabouço da administração do transporte aéreo no Brasil, não distinguem a aviação regional da aviação troncal. Todavia, esta diferenciação acontece em outros países onde esses setores estão mais maduros, principalmente nos países da América do Norte e da Europa. Todos os países contam com regras claras e diferenciadas entre as aviações troncal e regional. Estes modelos foram desenvolvidos nestas últimas duas ou três décadas e formam uma aviação regional com regras específicas: elas trabalham para o mercados de baixa e média demanda. Não se trata do tamanho da cidade ou da região, é a quantidade de passageiros disponíveis para esse mercado que é o fator que determina se é aviação troncal ou regional. Basicamente, naqueles continentes existem até regras que definem que acima de 90 assentos é aviação troncal; abaixo é aviação regional.


Na opinião do senhor, qual seria o modelo ideal de aviação regional para o Brasil?

Em primeiro lugar, é preciso contar com equipamentos próprios para esse mercado, além do que existe toda uma estratégia mercadológica de distribuição e atendimento ao passageiro da aviação regional. É totalmente diferente da aviação troncal. As duas maiores empresas do país da aviação troncal trabalham com uma frota padronizada acima de 150, 160 assentos. Essas empresas deixaram de atender cidades onde a demanda era muito inferior a esse tamanho de aeronave. Ocorreu então o seguinte: na década de 70, o passageiro podia comprar bilhetes para vôos regulares e chegar a 350 cidades. Hoje temos em torno de 130 cidades. O que aconteceu? Houve um esvaziamento do setor. As cidades com esse mercado de baixa e média demanda deixaram de ser atendidas. Exatamente porque não houve o crescimento de uma aviação regional competente e profissional para ocupar este espaço. O que existe em outros países que estão mais desenvolvidos nesta área, é a aviação troncal trabalhando os mercados de alta demanda, com aeronaves acima de 150, 160 assentos. Ligada à troncal, a aviação regional (com horários coordenados e conectados) distribui na outra ponta os passageiros para os destinos de baixa e média demanda. É esse o modelo que queremos trazer para o Brasil. Fundamentado por ele, construímos todo o nosso modelo estratégico.


Existem conversas ou negociações entre a Trip e as grandes companhias de aviação troncal para que haja conexão entre vôos, por exemplo?

O campo para as negociações é extremamente fértil. Eles também estão percebendo isso, não adianta querer operar aeronaves de 60, 70 assentos ao mesmo tempo em que operam aronaves de 150, 160 assentos. Eles percebem o sucesso do modelo no exterior e entendem perfeitamente essa realidade. Temos um acordo operacional com a TAM que funciona muito bem e é interessante pra nós e pra ela. Nós conectamos todos os vôos em determinados locais; os passageiros de um vôo da TAM contam com um avião da Trip para levá-los para o interior ou para cidades onde a TAM não chega por diversos motivos, principalmente por questões mercadológicas. Por outro lado, os passageiros desses destinos compram os bilhetes já conectado conosco fazendo a ligação com o vôo da TAM para os mercados de mais alta demanda. Exemplo claro: temos cidades que atendemos no interior de Rondônia e Mato Grosso, como Alta Floresta e Sinop, que são interligados em Cuiabá com a TAM. De lá, ele pode ir, em poucas horas, para qualquer grande centro do Brasil. Ao mesmo tempo, o passageiro que deseja fazer negócios ou turismo no interior de Mato Grosso ou em Rondônia pode fazer a rota inversa. A Trip mantém diálogo permanente com outras empresas e acreditamos que esse mercado deve avançar na direção da conexão das regionais com as troncais.


Se esse modelo avançar, o senhor acredita que possa ocorrer um maior fomento ao turismo?

Esse modelo é extremamente interessante para os vários segmentos que caracterizam o nosso passageiro. Nós temos um controle, fundamentado por pesquisas, entre os passageiros ‘business’, o turista e o que vôa por necessidades pessoais. Todos os três nos interessa muito e temos um foco grande neles. Esse ‘link’ entre as regionais e as troncais permite que se tenha vôos em destinos de negócios, mas, principalmente, de turismo, em que não seriam possíveis com a ligação troncal. Em Minas Gerais, por exemplo, São João del Rei, Diamantina e Araxá são destinos que não teriam condições de contra com uma ligação com aeronaves de 160 lugares. Nós atuamos nestes destinos e esses destinos se interligam com as troncais, seja em Belo Horizonte, Rio ou São Paulo, e permite que turistas — não só do Brasil como do exterior —possam chegar a essas cidades. Assim, compõe-se um mercado, na faixa de 50 a 100 passageiros por dia. É desta maneira que temos operado. Para o ‘business’ é a mesma coisa, mas o foco no turismo é realmente muito interessante. Posso ainda dar o exemplo de Fernando de Noronha, talvez a maior jóia turística do Brasil. A ilha é o mercado típico para aeronaves de 60, 70 assentos. Não dá para ser mais do isso, seja por restrições do aeroporto, da ilha, que é uma área de preservacão permanente, e pela dinâmica de mercado. Ali, é preferível ter mais vôos de 60, 70 assentos do que poucos vôos com 180 assentos. Essa situação proporciona uma grande versatilidade turística para a ilha. Existem ainda os destinos Pantanal e Amazônia —fazemos a conexão Manaus/Barcelos, Manaus/São Gabriel da Cachoeira, dentre outros—, cuja a demanda de turistas para pesca esportiva tem crescido acentuadamente, que operamos com o mesmo modelo. Não há dúvidas de que o fortalecimento da aviação regional do Brasil vai permitir um enorme incremento do turismo nestes pontos de baixa e média demanda. Porém, todo esse trabalho deve ser feito de uma maneira eficiente, rápida e segura com serviços de qualidade. É o que propomos e fazemos.


E quanto a Minas Gerais, como o senhor avalia os resultados da Trip no Estado?

Minas Gerais, especificamente, tem sido uma surpresa muito boa para a Trip pelo Mercado que atuamos. Hoje chegamos a 11 destinos de Minas Gerais — Minas e o Amazonas são os maiores estados em termos de atuação da Trip, que atua em 65 cidades. É a maior do Brasil em cidades atendidas. Vamos chegar a 70 até o final de 2009. Até o final de 2010 pretendemos chegar a 100 cidades — com uma ocupação muito interessante e uma demanda muito consistente. Todos os 11 destinos estão muito maduros com vôos diários. No nosso convênio com Minas Gerais, pretendemos expandir essa capilaridade dentro do estado. O estado está fazendo a sua parte, investindo por meio de um programa chamado Pró-Aéreo — muito interessante, extremamente profissional — melhorando aeroportos, construindo outros. À medida em que forem chegando as novas aronaves, nós vamos expandir essa malha no estado de Minas Gerais.


 

 



"Aplaudimos com entusiasmo o profissionalismo das instituições de Minas Gerais, principalmente aquelas ligadas ao governo do Estado. Temos encontrado ótimos interlocutores nas secretarias de Desenvolvimento, de Turismo, de Fazenda, no INDI e no BDMG."


"O governo do Estado percebeu na proposta da Trip um projeto maior voltado para expandir o setor e a atividade econômica ligada ao transporte aéreo em Minas Gerais."