Traços de todas as épocas

O elevado potencial turístico da arquitetura de Belo Horizonte se revela em obras e monumentos que registram a passagem do ecletismo —Praça e Palácio da Liberdade e os edifícios das secretarias de governo —  para o modernismo, imortalizado no conjunto da Pampulha, e na pluralidade de correntes arquitetônicas existentes nos dias de hoje. BH é uma cidade dona de incerta linearidade; a capital de todos os mineiros alia uma mistura quase que poética de antigas tradições mineiras com aspectos claros de metrópole cosmopolita.
 

Reportagem Rita Aragão de Podestá
Fotos Jomar Bragança



Impossível não reparar e encantar-se quando o sol começa a se esconder entre as montanhas, especialmente na Serra do Curral. Lá, na altíssima Praça do Papa, sem o perdão da hipérbole, aparecem os tão característicos tons ora alaranjados ora lilases do entardecer. Um pouco distante dali, na lagoa da Pampulha, a arquitetura parece utilizar dos seus traços para criar desenhos de sombras que se refletem na água. Características tão cotidianas, mas que ao mesmo tempo conseguem surpreender a mais rígida rotina de quem mora em Belo Horizonte, com seu clima ameno e habitantes tão cordiais que mesmo um pouco desconfiados são incrivelmente receptivos.

Chamada inicialmente de Cidade de Minas, a capital mineira foi inaugurada em 12 de dezembro de 1897, como a primeira cidade planejada do Brasil. Inspirada em cartões postais como Paris, Washington e La Plata, sua construção idealizava o abandono do passado colonial e da tão expressiva e marcada arquitetura de Ouro Preto, antiga capital mineira, dando um notável passo para a modernidade.

A construção contou com a colaboração de inúmeros arquitetos e engenheiros de todo país e foi supervisionada pelo engenheiro e urbanista Aarão Reis. Figura histórica, foi ele quem colocou no papel os primeiros rabiscos que delimitavam o expressivo belo horizonte que, por sua vez, escapuliu dos limites, mais conhecido como avenida do Contorno e, como todo horizonte que se preze, perdeu-se de vista.

 
Tradições mineiras e metrópole cosmopolita
 
Hoje, 111 anos depois, Beagá, ou Belô, como é carinhosamente chamada, se tornou uma cidade rica em atrativos dentro e fora do planejamento inicial. Os complexos da Praças da Liberdade e da Estação, o conhecido cartão postal da Lagoa da Pampulha — onde Oscar Niemeyer lançou o seu estilo ao planejar o conjunto arquitetônico da orla da lagoa; o Mercado Central, museus, igrejas e teatros, são apenas alguns dos vários exemplos de obras e monumentos que convivem em harmonia plena com os novos conjuntos arquitetônicos. Uma cidade que possui uma linearidade incerta, pois alia uma mistura quase que poética de antigas tradições mineiras com aspectos claros de metrópole cosmopolita — como se os moradores tivessem descoberto uma maneira única de preservar certas peculiaridades da vida simples do mineiro, mas sem deixar de desfrutar das comodidades de uma grande cidade.

 
Diálogo crítico
 
Para o arquiteto Sylvio de Podestá, essa convivência é o que escreve a história da cidade, desde que sejam respeitadas as variáveis de cada tempo. Um exemplo, talvez o mais comumente citado, mas que não perde a sua relevância, é a Rainha da Sucata, apelido dado ao edifício em estilo pós-moderno localizado na Praça da Liberdade, projetado pelo referido arquiteto juntamente com Éolo Maia. Inaugurado em 1990, é um projeto que propõe um diálogo crítico com os demais edifícios no entorno. Na praça, datada do início da construção de Belo Horizonte, com o Palácio do Governo e suas secretarias de administração em estilo eclético, percebe-se várias construções de distintas épocas como, por exemplo, a “Casa do Bispo” de Raffaello Berti, de estilo neoplasticista; o Edifício Tancredo Neves, de Oscar Niemeyer da década de 50; o Edifício Xodó, de Sylvio de Vasconcellos e a Biblioteca Pública também de Niemeyer. Para Podestá, a “Rainha” ficou com a responsabilidade de contar a história dos anos 80, anos pluralistas, de grande efervescência e discursos cheios de adjetivos e substantivos.

 
Circuito único
 
Hoje, Belo Horizonte vem sendo explorada como um circuito único que passa por espaços planejados, com um passado Art Deco, modernista e atual, percebidos em objetos isolados ou em conjuntos arquitetônicos. Muitos desses exemplos encontram-se devidamente preservados, embora essa realidade não condiz com algumas ações como o caso da demolição do Cine Metrópole nos anos 80 ou da desintegração das características dos anos 20 e 30 do bairro da Floresta. Alguns arquitetos defendem uma pesquisa detalhada para o devido levantamento e catalogação do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte, além de uma maior ênfase na discussão da necessidade de sua preservação que se torna cada vez mais vítima do crescimento acelerado da cidade, uma corrida desenfreada pelo construir/destruir. É importante lembrar das atuações do IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — e IEPHA — Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, do Conselho do Patrimônio, que promovem constantemente a discussão diante da valorização da cultura em todos os níveis.  

 
Pluralidade de correntes
 
É fácil notar que a capital hoje possui uma demanda crescente no que tange à atividade turística e empresarial, que seduz turistas com um exuberante cenário e potencial para a cultura e negócios. É também um novo palco para sediar eventos de importância internacional, destacando-se como um dos maiores centros industriais da América Latina, além de ser um atrativo espaço catalisador do mundo das artes. Todavia, a cidade já é reconhecida pela sua arquitetura. Para Cacá Brandão, arquiteto e professor da Escola de Arquitetura da UFMG, Belo Horizonte possui um elevado potencial turístico arquitetônico, uma vez que contempla em suas obras a passagem do ecletismo para o início do modernismo, como no caso da Pampulha. Também, do ponto de vista mais recente, a arquitetura belo-horizontina apresenta uma pluralidade de correntes e uma especificidade que a projetou como alternativa aos padrões das chamadas escolas paulista e carioca.

 
Afloramento de novas idéias
 
O lazer e os negócios já ganham proporções e sobrevivem na medida certa — são excelentes aliados para a viabilização de um roteiro turístico que tenha como base esses dois pilares junto ao rico complexo arquitetônico da capital. São vários os atrativos dessa grande cidade claramente definida pelo jeito único do mineiro de ser. Aquele que tem orgulho, que exalta-se ao contar da sua história, que vive de cultura e não resiste à convidar, mesmo que um recém conhecido para um acolhedor cafezinho em sua casa. Papo que pode ser longo, caso o ouvinte dê espaço para a prosa, que pode ser durante caminhada pela encantadora Praça da Liberdade, com escapulidas de atenção para olhar sobre o conjunto paisagístico e arquitetônico. Ou, por que não, sentado à mesa do bar, que são muitos, e muitas vezes foram dessas mesas que muitos projetos arquitetônicos foram viabilizados, ou apenas idealizados em desenhos corridos as vezes até inteligíveis. Não precisa nem ser arquiteto, é quase que comprovado, em cada esquina, em cada bar, parece haver um espaço para o diário afloramento de novas idéias.

Saindo do bar é sabido dos causos mineiros, por algum morador ou até garçom que se exaltou ao ver que haviam turistas por ali, o bom conselho é descobrir uma grande e larga Afonso Penna, que quando não em dia de feira, permite que se caminhe corrido pelas imponentes obras do Edifício Acaiaca, Sulamérica, a Prefeitura Municipal. Depois cabe aventurar-se no Parque Municipal, onde um dia existiu a casa do aqui já citado Aarão Reis. Encantar-se com o Palácio das Artes e conferir a programação musical, teatral, de dança ou exposições. Subir a Rua da Bahia, trajeto decorado e merecedor de versos do compositor Rômulo Paes: “minha vida é essa, subir Bahia e descer Floresta”. Observar o Minas Tênis Clube um legítimo representante da Art Deco, mas que hoje cresce desenfreadamente para todas as direções possíveis. À partir daí, é hora de começar a subir, porque bonito é cidade que sobe e desce e surpreende por não revelar de imediato o que te espera no fim daquela ladeira.

Para o arquiteto Daniel Corrêa muitas dessas ladeiras são hoje tomadas por grandes edifícios, de arquitetura esteticamente duvidosas, mas que se perdem em meio a um patrimônio inegável de belas construções e marcos arquitetônicos de estilos neoclássicos, modernistas, entre outros. Além, é claro, de ser o palco do maior número de edifícios projetados por Niemeyer, escultóricos e polêmicos que ajudam a transformar a cidade em um grande potencial turístico arquitetônico. Corrêa faz parte de uma nova geração de arquitetos mineiros que acreditam que há um futuro promissor reservado para Belo Horizonte. Para ele, cada vez mais são produzidos grandes promessas de novos artistas que estão sempre buscando o novo e conseqüentemente uma arquitetura mais saudável para uma cidade que possui o “Belo” em seu nome.
 


Praça da Liberdade: várias construções de distintas épocas.


Edifício JK: era modernista de BH.

O famoso cartão postal da Igreja de São Francisco de Assis — onde Oscar Niemeyer lançou o seu estilo ao planejar o conjunto arquitetônico na orla da Lagoa da Pampulha.


“Rainha da Sucata”: diálogo crítico com os demais edifícios da Praça da Liberdade.

O eclético Palácio da Liberdade.


Detalhes do edifíco Sulacap/Sulamérica, da Avenida Afonso Pena e do Parque Municipal.

As “ondas” do edifício Niemeyer da Praça da Liberdade.


Rota turística no singular da palavra: Edifícios Acaiaca e Sulacap / Sulamérica: patrimônios da arquitetura que embelezam a Av. Afonso Pena.