A terceira pele

Territorializar é se apoderar de um pedaço de chão, estendendo as fronteiras de um espaço interior que não nos é dado naturalmente e que, por isso, precisamos conquistar. Não se trata de um exercício exclusivamente humano, uma vez que os animais também demarcam territórios, mas é importante lembrar que essas demarcações são, mesmo no caso dos animais, um certo tipo de código. Territorializar é, portanto, inscrever no espaço um aviso de identificação da parte daquele que o demarcou. Evidencia-se assim a imediata associação do território com a identidade.

Mesmo sendo tão concreto, o chão, quando demarcado, descreve-se como algo essencialmente simbólico. O leão usa o cheiro de sua urina para demarcar seu território, o homem reporta-se, de pronto, à imagem. A combinação das habilidades manuais com as cerebrais parece ter naturalmente induzido o ser humano a desenvolver símbolos imagéticos.

A imagem não apenas proporciona níveis de abstração os mais variados, como no caso do longo processo que culminou com os primeiros alfabetos, mas também atua como eficiente combustível para nossas ilusões. Quando tenho fé em algo ou alguém e esse objeto não apresenta uma materialidade própria, como nos casos de entes sobrenaturais, é através do culto à imagem que eu mantenho acesa a chama dessa fé.

Em alguns casos um território pode ser demarcado de forma exclusivamente simbólica, mas a concretude do chão no mais das vezes impõe com que se desenvolvam barreiras físicas, como são as cercas, muros, paredes ou mesmo rios, montanhas e outras barreiras naturais. Certo é que, no mais das vezes, o material e o simbólico se combinam e se imbricam. Eis o senso de complementaridade que sempre nos levou a desenhar na parede, quer seja para fazê-la falar sobre si mesma, quer para tê-la como tela para outras mensageirias.

 Sua visibilidade, aliada à radicalidade do seu sentido, fez da parede uma extensão da relação que se inicia pelo contato do corpo com o mundo, entre o espaço interior e o mundo de fora. Tendo sido um dos primeiros suportes para as artes visuais, a parede sempre se prestou ao papel de tela. Das pinturas rupestres aos grafites de Banksy, passando pelos afrescos renascentistas e os murais de Portinari, servindo ainda para projeções variadas de imagens em movimento, separando ambiências, a parede vem a ser, depois da epiderme e da roupa, uma espécie de terceira pele.

Comparada com outras peles, a parede nos remete à estratégia de sobrevivência do vegetal: contruir-se como uma fortaleza capaz de sobreviver às intempéries do ambiente externo por sua robustez. Enquanto a roupa prima pela portabilidade, a parede que nos cerca, seja na versão cerca, muro, ou muralha, seja na versão casa, apartamento ou quarto, ou mesmo como fronteira entre povos, é uma pele que nos afixa, própria dos estilos de vida sedentários. Ao construir uma casa o que estamos de fato a fazer é implantando raízes. Configurando o interior como ambiência, essa terceira pele também exprime aspectos da identidade íntima.

O lado interno de uma parede, quando feito tela, é revelador do lado íntimo do social. O social é íntimo quando se manifesta dentro de quatro paredes. Os símbolos que se afixam em paredes internas seguem assim uma tendência a portar discursos afetivos e auto-referentes. As paredes de um quarto típico de um homem contemporâneo costumam ser verdadeiras narrativas da vida do habitante, assemelhando-se assim às tatuagens, que fazem do corpo lugar do íntimo por excelência, ou seja, a tela de uma narrativa auto-biográfica.

Súbito me vem a imagem de um velho marinheiro aposentado que se fixa na varanda de uma choupana de praia de onde, nos momentos de solidão,contempla o mar, mas nas horas em que aparecem visitantes, ele os entretém com histórias de sua vida. Para ilustrar seu relato, vai mostrando as tatuagens pálidas sobre a pele flácida e queimada. Ele teve uma vida nômade e por isso usou o corpo para registro, já quem tem vida sedentária, contará sua história pelo índice das fotos de um álbum ou de um mural de imagens pregado na parede. A parede, no entanto, é uma tela dupla face, sendo assim especialmente esclarecedora sobre a dupla face da própria subjetividade humana, um lado social e um lado íntimo.

Foi preciso muitos milênios de história para que se chegasse aos hábitos de individualidade e privacidade como os praticamos hoje, e também para que se chegasse a um mundo tão pleno de símbolos como é o nosso. A essa altura a terceira pele já foi usada das mais variadas formas e apropriada para as mais variadas funções, mas há algo que as paredes, muros e fronteiras sempre estarão a dizer:  ao exterior proclamam-se como o anúncio de um poder, uma apropriação que se realiza contra todos indistintamente, uma fala que se dirige a qualquer anônimo que por ali transitar. Um discurso racional e objetivo, identificando um senhor e suspendendo seu território como que a tira-lo do mundo de todos para concedê-lo a alguns. Ao interior proclamam-se como ambiente da intimidade, portanto afetivo e caloroso ou ainda, se retirado do mundo, então propenso a se constituir-se num mundo à parte.