Minas...
Paisagens Devastadas


O Pico do Itabirito foi cenário das fotografias do artista Frans Krajcberg, que, ao desvelar um terreno devastado por meio da belíssimas imagens, ele clama pela ampliação do pensamento a favor da preservação do meio ambiente.
 
Por Mariana Lage
 

Frans Krajcberg tem uma preocupação constante que não o deixa descansar: a defesa da vida e a promoção da consciência ambiental. Nascido em Kozienice, na Polônia, em 1921 e brasileiro desde 1957, Frans é incisivo em sua postura contra desmatamentos, queimadas, desrespeito humano e destruição do planeta. “Eu sofri demais para não lutar a favor da vida”.

Em sua biografia, histórias de perseguição pela Alemanha de Hitler, perda de seus familiares na Segunda Grande Guerra, lutas no front, exílios, resistências. Após o fim do conflito, Krajcberg volta à Alemanha, quando estuda com Willy Baumeister na Academia de Belas Artes de Stuttgart. Em 1947, chega a Paris e convive com artistas como Picasso, Braque, Léger e Chagall. Este último lhe aconselha a imigrar para o Brasil, onde chega, no ano seguinte, à procura de silêncio e reclusão. “Vim para o Brasil para fugir do homem. Não acreditava que haveria tantos”, diz em inúmeras entrevistas. “É aqui que eu nasci uma segunda vez”.

 
Luta contra a barbárie
 
O começo de sua trajetória no país também não é fácil. Ele passa por uma série de dificuldades: não fala o português, não possui dinheiro, dorme nas ruas e em vagões de trem, trabalha como pedreiro e faxineiro. Sua situação começa a melhorar quando se fixa em São Paulo em 1951 e é contratado por Ciccino Matarazzo como gerente de manutenção da I Bienal de São Paulo. Em 1957, conquista o prêmio de Melhor Pintor Nacional na IV Bienal. Sete anos mais tarde, recebe o prêmio Cidade de Veneza na XXXII Bienal de Veneza.

Frans Krajcberg é desses artistas que se torna impossível separar sua obra de sua biografia. Toda sua história e seu trabalho são marcados pela luta contra a barbárie. A marca desse esforço aparece em forma de pigmentos minerais, registros fotográficos e transfigurações em obra monumental dos restos de destruições das matas. Seu trabalho explora a matéria morta, a terra remexida, a madeira transformada em carvão, os vestígios da atividade mineradora, enfim, relevos, troncos, galhos, raízes, folhas secas.
 

Pigmentos de Itabirito  
 
Suas esculturas, maior referência de seus trabalhos hoje, foram desenvolvidas no período em que morou numa Kombi ao pé do Pico de Catabranca, nas redondezas de Itabirito, entre 1964 e 1971. As 30 fotografias, uma escultura e diversas publicações que foram expostas em Belo Horizonte no Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG — entre os meses de setembro e dezembro — são testemunhos do esforço incessante deste escultor e artista plástico que prefere se nomear como ambientalista. Minas... Paisagens Devastadas expõe trabalhos fotográficos das visitas posteriores de Krajcberg à região de Itabirito.

“Frans tem verdadeira paixão por Minas. Todas as vezes que vem aqui, ele fica assustadíssimo com a situação lastimável em que algumas mineradoras têm colocado o estado”, afirma Fabrício Fernandino, curador da exposição, amigo do artista e diretor do Museu (MHNJB-UFMG). Fernandino conta que pelo menos uma vez ao ano, o ambientalista visita Minas Gerais, especialmente, a região de Itabirito para fotografar e colher pigmentos. “Nesse processo de visitas constantes ele foi vendo a paisagem sendo devastada. Catabranca, por exemplo, é uma região que foi totalmente dizimada pela mineração”.

Além de suas esculturas, fotografias e pinturas, Krajcberg mantém sua reivindicação pela preservação da vida e do meio ambiente expondo sistematicamente seus trabalhos ao redor do mundo e participando de conferências mundiais como Rio-92, Kioto-97 e Davos. Segundo conta Fernandino sua cobrança é contundente. “Desde que o conheço, por volta de 1996, ele me cobra uma postura mais positiva com relação à defesa da vida e do meio ambiente em Minas Gerais. Ele me pergunta freqüentemente: ‘O que você faz pelo seu estado na preservação do ambiente?’ A exposição foi uma resposta à sua pergunta e ao seu anseio pela promoção do conhecimento ambiental por meio da arte”.

Toda esta inquietação aparece belamente em imagens que exploram a contraposição de cores quentes como o vermelho, o laranja e o amarelo com cores neutras como o marrom do aterramento, o preto do carvão e das queimadas e os diversos tons de cinza, próprios da região mineradora. Algumas imagens retratam a terra sulcada pelos tratores, ora seca ora lamacenta. Há pouquíssimo verde. E a água, quando aparece jamais é cristalina, mas laranja, amarela, vermelha, sempre vulcânica. Dos poucos verdes, se vê um arbusto em uma paisagem tomada pela tonalidade laranja quase marrom: imagem da resistência? Ao longo de toda a exposição, imagens de crateras, bancadas, taludes, galhos secos, muita terra revirada, solos que secam e adquirem a cor daqueles líquidos poluentes.
 
 
Luta impiedosa
 
“Da terra revirada fica o rejeito, um terreno infértil e desértico em que campeia a morte e a destruição”, diz Fernandino em seu texto de curadoria. “A partir do terreno devastado, surge a beleza que sensibiliza através do olhar. Com isso, ele dá o recado da necessidade de uma consciência maior a favor da preservação do meio ambiente”, completa.

O Pico do Itabirito, de onde se originam todas as fotografias, é composto por minério de ferro de alto teor, cerca de 67%. A extração do minério de ferro acontece desde 1891 quando é construído um alto forno de pedra à margem da Estrada de Ferro Dom Pedro II, à 4km da cidade. A atividade intensificou-se após a década de 40, quando a propriedade das minas de Itabira é transferida do governo inglês para o brasileiro. Nessa época, é criada a Companhia Vale do Rio Doce e o país exporta cerca de 31 mil toneladas. Para este ano estão previstas 325 milhões de toneladas.

Desde 1962, a região é tombada como conjunto paisagístico, tendo como justificativa principal sua importância histórica na ocupação mineira. Segundo Ecidinéia Pinto Soares, em tese de doutoramento, "a valorização do minério de ferro tem sido crescente nos últimos anos, sendo que em fevereiro de 2008 o preço foi reajustado entre 65% e 71% em função do teor de ferro”. E acrescenta: “no depósito da Mina do Pico, a zona mineralizada estende-se por, aproximadamente, 1000 m segundo a direção N-S e cerca de 300 m de profundidade".

Mesmo com 87 anos e a saúde debilitada, o ambientalista não cede. “Só esse ano ele esteve bastante doente duas vezes. Mas ele não se cala, é um guerreiro a quem não foi dado o descanso”, defende Fernandino.

E sua luta é impiedosa. À pergunta que uma repórter lhe dirige em Davos, “porque o senhor faz esse tipo de arte? Porque mostra a morte?”, Krajcberg responde: “Minha senhora, quando vejo homens sendo jogados como lixos e queimados nos autofornos, quando vejo seis índios pendurados de cabeça para baixo em uma árvore, que arte eu devo fazer? Flores para a madame?”.

Minas... Paisagens Devastadas compôs o projeto Primavera no Museu, que ficou em cartaz entre os dias 20 de setembro e 16 de dezembro. Frans Krajcberg atualmente vive em Nova Viçosa, sul da Bahia, onde mantém seu atelier a partir de 1978. Desde então, tem vivido seis meses em Paris e seis meses no Brasil.