Sertão das Gerais - Vasto mundo

No ano do centenário de nascimento de João Guimarães Rosa, há mais para se comemorar que sua monumental obra literária. No campo da ecologia, há também um bom motivo para celebração. A história das andanças do ex-jagunço Riobaldo pelos sertões inspirou a criação do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, que abriga uma das maiores amostras de Cerrado protegidas em Minas Gerais.
 

Reportagem Ana Carolina Neves e Izabela Barata
Fotos Marilene Ribeiro
 
João Guimarães Rosa era um naturalista. Tendo lido os relatos dos viajantes que passaram pelo sertão de Minas Gerais no final do século XIX, como Saint-Hilaire, Spix e Martius e Emanuel Pohl, Rosa usou o modelo das viagens de pesquisa para recolher elementos para suas histórias. Assim como aqueles naturalistas, registrou com detalhes em cadernos de viagem o canto das aves, o sabor dos frutos, o cheiro dos capins, nomes populares, paisagens e os modos de vida dos povos do sertão.  

Mas não é só na forma do texto que estão as semelhanças do escritor com aqueles viajantes, cujos esforços contribuíram para o conhecimento científico e para a valorização de muitas regiões, por meio da descrição de suas riquezas geológicas, biológicas e humanas. Da mesma forma, em Grande Sertão: Veredas, lançado em 1956, Rosa apresentou ao mundo uma região desconhecida até mesmo pelos brasileiros — os Sertões das Gerais, que compreendem o noroeste de Minas e o oeste da Bahia até o sul do Piauí. Seus relatos sobre a natureza e cultura locais foram definitivos para tornar a região conhecida por sua beleza cênica, riqueza cultural e grande biodiversidade, em contraposição à dominante imagem de desolação e pobreza do sertão.

Assim, de forma não intencional, o escritor contribuiu para a criação de uma área de proteção da natureza. O Parque Nacional Grande Sertão Veredas foi estabelecido por decreto de lei em 1989. A influência da obra é declarada no plano de manejo dessa unidade de conservação: “O Parque (...) tem em seu nome uma homenagem explícita ao escritor João Guimarães Rosa. Sua passagem na região, no início da década de 50, resultou em uma das mais importantes obras literárias brasileiras, o romance Grande Sertão: Veredas, que retrata com extrema sensibilidade a realidade regional, repleto de passagens que descrevem os locais, a relação do homem com a natureza e as características culturais, ainda hoje encontradas.”

Pesquisadores e ambientalistas bem sabem como é difícil sair do discurso ecológico para contribuir de forma prática e efetiva para a proteção da natureza. Ter parte na implantação de um parque nacional é tarefa para poucos e bons. Rosa provavelmente ficaria surpreso se soubesse da criação do parque, porque, ironicamente, achava que tinha pouco tino para as coisas práticas. Em uma carta datada de 20 de março de 1934, ele explica ao colega Dr. Pedro Moreira Barbosa a sua falta de ‘vocação’ para o exercício da Medicina: “Não nasci para isso, penso. Não é esta, digo como dizia Don Juan, sempre 'après avoir couché avec...’ Primeiramente, repugna-me qualquer trabalho material – só posso agir satisfeito no terreno das teorias, dos textos, do raciocínio puro, dos subjetivismos. Sou um jogador de xadrez nunca pude, por exemplo, com o bilhar ou com o futebol.”

 
Grande Sertão Veredas
 
Neste ano em que se comemora o centenário de nascimento de João Guimarães Rosa, celebra-se a obra de um dos maiores escritores brasileiros, e também os seus feitos como naturalista, concretizados através da criação do parque, do aprimoramento da pesquisa científica e da preservação da natureza nos Sertões das Gerais.

 
Povos do sertão
 
Essa região guarda um rico e diverso patrimônio cultural, que foi divulgado pela obra de Rosa há mais de cinqüenta anos. Distantes dos grandes centros urbanos, com meios de comunicação precários e vivendo quase que em total isolamento, os povos preservaram antigas tradições.

Nos povoados no entorno do Parque Nacional Grande Sertão Veredas há pessoas que vivem praticamente como nos tempos da história de Riobaldo. Entre essa unidade de conservação e o Parque Estadual Serra das Araras, padece isolado o povoado do Vão dos Buracos, onde a luz elétrica chegou faz pouco tempo. Há até três anos, Dona Lucrécia vivia com dois dos seus 10 filhos que não “caíram no mundo” numa casa de adobe iluminada por lamparinas de querosene. Pelo rádio de pilhas chegavam notícias das capitais. E as pilhas só chegavam quando alguém ia até a cidade — Chapada Gaúcha — e voltava, dias depois, entregando encomendas e notícias.

Na cultura dos geralistas — como são chamados os habitantes dos Sertões das Gerais — é notável sua dependência dos recursos que a natureza oferece. Embora o aspecto do Cerrado divulgado ao longo de anos seja o de uma região sofrida, com vegetação pouco exuberante, maltratada pela seca e pelas queimadas, essa imagem tem mudado com os estudos sobre a sua biodiversidade. De fato, durante a estação chuvosa esse bioma recebe muita água, que escoa para rios, lagos e veredas. Basta olhar a paisagem, de novembro a abril, para se repensar no Cerrado como uma região com fartura de frutos, remédios e matérias-primas.
 

Fartura
 
Um dos principais itens na alimentação dos geralistas é a mandioca, cultivada em pequenas hortas, que se transforma em farinha, beiju, farofa e paçoca. Do Cerrado, vem outros ingredientes importantes para o seu cardápio. O pequi é considerado o “rei do Cerrado” devido à grande freqüência com que essas árvores ocorrem nesse bioma, à quantidade de frutas que produzem e à variedade de usos que têm. Do pequi se come a polpa fresca, em conserva ou na forma de farinha, doce ou licor. Do cajuí, ou cajuzinho do Cerrado, se come a castanha e a polpa. O buriti, tão destacado na obra de Rosa, está presente no do dia a dia do sertanejo e na sua iconografia. Da polpa dos coquinhos se fazem doces, licores e manteiga. Com as folhas secas é feita a cobertura das casas sobre caibros tortuosos das árvores do Cerrado. E da palha são feitas com arte redes, esteiras e cestos. O buriti é encontrado nas veredas, uma fisionomia comumente registrada no parque, em locais alagados ou acompanhando os cursos d’água permanentes. Sua imagem está associada a terrenos férteis, ricos em água, plantas e bichos.

Toda essa fartura se reflete na riqueza cultural. De madeiras, cabaças e outras matérias primas são feitos rabecas e reco-recos usados nos folguedos. Esses são apresentados todo ano no Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas, evento promovido pela prefeitura de Chapada Gaúcha, reunindo sertanejos dos povoados próximos numa celebração da diversidade regional, com mostras de dança, música, culinária e artesanato.

 
Cerrado em números
 
Inicialmente, o Parque Nacional Grande Sertão Veredas tinha 84 mil hectares distribuídos entre as cidades de Formoso, Arinos e Chapada Gaúcha (Minas Gerais), com sede na rua João Guimarães Rosa, no centro desta última. Em 2004 o parque foi ampliado para o estado da Bahia, atingindo 230 mil hectares. Com essa área, o parque poderia ser considerado o maior de Minas Gerais, não fosse o fato de estar localizado em dois estados. De qualquer forma, é uma das maiores áreas existentes de preservação no Cerrado, guardando uma amostra representativa das paisagens outrora percorridas por Rosa.

O Cerrado é a maior formação savânica da América do Sul. Ocupa 21% do território brasileiro e se estende até o Paraguai e a Bolívia. É o segundo maior bioma do Brasil, perdendo apenas para a Amazônia. Abriga uma enorme biodiversidade, incluindo muitas espécies com distribuição restrita. O melhor exemplo da sua riqueza biológica é dado pelas plantas. Das dez mil espécies encontradas ali, 44% são exclusivas, não ocorrendo em nenhuma outra parte do mundo. O mesmo ocorre para vários grupos de animais, como aves, répteis, anfíbios, peixes e invertebrados. Além disso, muitas espécies de mamíferos da América do Sul fazem do Cerrado o seu principal habitat, como o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e o veado campeiro.  

 
Pouco mais de 2% protegidos

Apesar do imenso valor biológico, cerca de 67 % dos ambientes do Cerrado foram altamente modificados pelo uso humano por meio de lavouras, pastagens e centros urbanos. Atualmente, apenas 21 % da área originalmente ocupada por esse bioma permanece intacta, dos quais pouco mais de 2 % estão protegidos em áreas de proteção integral, como parques nacionais e estaduais.

Os Sertões das Gerais são uma das últimas frentes pouco exploradas do Cerrado. Apresentam diversos tipos de vegetação, como cerrados, campos, matas de galeria, veredas e carrascos – uma formação vegetal arbustiva e muito densa, impenetrável pelos homens, característica da transição entre o Cerrado e a Caatinga. A região oferece aos pesquisadores a oportunidade de estudar processos em condições quase que primitivas, com pouca interferência humana. Por tratar-se de uma região bem preservada e de grande riqueza biológica, os Sertões das Gerais são considerados uma área prioritária para a investigação científica e para a conservação da natureza.

 
Pesquisas no parque

 
Devido, principalmente, à dificuldade de acesso e à distância das capitais, poucos projetos de pesquisa vêm sendo desenvolvidos no Parque Nacional Grande Sertão Veredas. Os principais trabalhos concentram-se na área sócio-ambiental e no estudo de mamíferos de médio e grande porte.

O maior interesse sobre a fauna da região está na possibilidade de estudar animais que necessitam de grandes áreas para sobreviver, como as onças parda e pintada, que ainda podem ser encontradas ali. O Instituto Biotrópicos de Pesquisa em Vida Silvestre estuda a comunidade de mamíferos do parque desde 2003, buscando caracterizar o tamanho das populações de algumas espécies e compreender como fazem uso das diferentes fisionomias da vegetação. Além disso, estudam os casos de ataques de onças a rebanhos de animais domésticos na região para tentar mitigar o conflito entre o homem e esses felinos.

Para registrar a presença dos animais, os biólogos compilam vestígios (pegadas e fezes) e usam equipamentos como armadilhas fotográficas e rádio-colares. As armadilhas (do inglês camera trap) são equipadas com um sensor infravermelho que aciona o disparador de uma máquina fotográfica no instante em que o animal passa pelo equipamento. Com esse método pouco invasivo, é possível capturar imagens curiosas, como de grupos de animais e bichos sendo predados. Já os rádios-colares funcionam como um pequeno transmissor acoplado a uma coleira que é colocada nos animais. Por meio de uma antena e de um receptor, os pesquisadores monitoram os bichos, obtendo informações sobre sua localização. Através desses métodos são registradas as espécies que ocorrem no parque, os habitats que utilizam e seu horário de atividade.
 

Planos para a conservação
 
Os resultados dessas pesquisas indicam que trinta e cinco espécies de mamíferos de médio e grande porte ocorrem no parque, sendo que sete são consideradas ameaçadas de extinção. São elas a onça-parda, a onça-pintada, a jaguatirica, o gato-do-mato-pequeno, o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e o tatu-canastra. A presença de água é um fator que influencia a distribuição dos mamíferos no parque. Um grande número de espécies ocorre nas veredas, que adquirem importância extrema durante a estação seca. Os estudos indicam que a conservação de diferentes tipos de vegetação, e principalmente das veredas, é necessária para a permanência de várias espécies de mamíferos.  

O próximo objetivo dos pesquisadores é utilizar as informações coletadas ao longo de cinco anos de trabalho na elaboração de planos para a conservação do Cerrado na região.

 
Ameaças
 
No início de década de 80, os Sertões dos Gerais começaram a sofrer pressão pelas atividades humanas. Com o asfaltamento da BR-020, que liga Brasília a Fortaleza, com o baixo custo das terras e com o incentivo do governo, iniciou-se a ocupação da região central do Cerrado para aproveitamento agro-silvo-pastoril. Desde então, os habitats naturais começaram a ser destruídos, e não havia no norte de Minas nenhuma unidade de conservação da natureza. A idéia de se criar um parque nacional na região surgiu nessa época, mas só foi efetivada em 1989.

Atualmente, o processo de ocupação do solo está muito mais avançado, ameaçando as culturas tradicionais, a fauna e a flora. As veredas dividem a paisagem com imensas plantações de braquiária, destinadas à exportação de sementes para formação de pastagens para o gado. O Parque faz divisa com lavouras de soja, inóspitas para muitas espécies de animais. O fogo, que é um fenômeno que vem moldando naturalmente a fisionomia do Cerrado por milhões de anos, e em cuja presença as espécies de plantas e animais evoluíram, teve sua freqüência tão aumentada, que está empobrecendo a biodiversidade em várias áreas de Cerrado. O fogo é utilizado na preparação do solo para o plantio da soja. Os órgãos que gerenciam os parques se esforçam para que as queimadas sejam feitas sob a fiscalização das brigadas de incêndio, para evitar que escapem da área das lavouras. Entretanto, incêndios criminosos ou clandestinos costumam ocorrer e se espalhar por amplas áreas, ameaçando até mesmo o parque nacional.

Apesar dessa ser uma das regiões onde o Cerrado se encontra mais bem preservado, sua diversidade biológica e cultural pouco a pouco é ameaçada pelos grandes negócios da agro-pecuária. Estima-se que, mantidas as taxas atuais de desmatamento, o Cerrado irá desaparecer até o ano de 2030. Nesse contexto, o parque torna-se cada vez mais importante para a preservação da biodiversidade da região.

Felizmente, os Sertões das Gerais apresentam potencialidades para a preservação da natureza, com amplas áreas protegidas em unidades de conservação. Além disso, têm grande apelo devido ao trabalho do “naturalista” João Guimarães Rosa. É preciso, agora, aproveitar as oportunidades, promovendo o turismo, a pesquisa e a valorização da cultura dos Gerais. Mais de cinqüenta anos depois do romance de Riobaldo, esse permanece um grande sertão que só umas raríssimas pessoas sabem.
 


As veredas são frequentes nos Parque Nacional Grande Sertão Veredas e na obra homônia de João Guimarães Rosa.


“Farinheiro e sela”: Farinheiro em casebre coberto de palhas de buriti. Pouca coisa mudou desde a passagem de Rosa pela região.

“Cajuzinho do cerrado baixo”: Na estação chuvosa, os cajuzinhos do cerrado frutificam com fartura.


Flor do pequi, símbolo do Cerrado, utilizado de várias formas na culinária dos sertanejos.

Animais fotografados com armadilhas fotográficas no Parque Nacional Grande Sertão Veredas.


As queimadas, ateadas para o preparo das lavouras de soja, para a formação de pastos ou criminosamente, são freqüentes no Sertão das Gerais.

Serra dos Araras


Jandaias