Quadrilátero Ferrífero
 
Apesar dos séculos de exploração mineral, região ainda conserva espécies animais e vegetais únicas no Brasil. Preservar essa biodiversidade é fundamental para o futuro do planeta.
 

Reportagem Ricardo Bandeira
Fotos Roberto Murta
 
O ouro atraiu os bandeirantes no século XVII. O ferro marca a economia da região até os dias de hoje. Mas é das matas que emerge sua principal riqueza: a diversidade da fauna e da flora. O Quadrilátero Ferrífero, na área Central de Minas Gerais, sempre lembrado pela atividade mineradora, conserva espécies animais e vegetais únicas no país. Em seus sete mil quilômetros quadrados, trilhas convidam para um passeio, cidades surgem com atrativos culturais e arquitetônicos e parques preservam a natureza. Todos juntos mostram que cuidar do verde do Quadrilátero é fundamental para o futuro do planeta.

Entre as serras da região, é possível encontrar reservas florestais que contrastam com a árida paisagem deixada pela extração mineral e com o concreto que predomina na capital do estado. Belo Horizonte, com 2,5 milhões de habitantes, é um pólo cultural e industrial na área do Quadrilátero Ferrífero.

Nos arredores da metrópole, também há muito verde. Na Serra do Rola-Moça, um parque estadual de mesmo nome e área de 3.941 hectares é habitat natural de espécies da fauna ameaçadas de extinção, como a onça-parda, a jaguatirica, o lobo-guará, o gato-do-mato, o macuco e o veado-campeiro.

 
Vegetação diversificada
 
O nome da serra foi contado em "causo" e imortalizado por Mário de Andrade no poema sobre a história de um casal que, logo após a cerimônia de casamento, cruzou a serra de volta para casa. No caminho, o cavalo da moça escorregou no cascalho e caiu no fundo do grotão. O marido, desesperado, esporou seu cavalo ribanceira abaixo e, como diz o poema, "a Serra do Rola-Moça / Rola-Moça se chamou".

O parque está situado numa zona de transição entre o Cerrado e a Mata Atlântica, rica em campos ferruginosos e de altitude. A vegetação diversificada proporciona um colorido especial. Lá, são encontradas orquídeas, bromélias, candeias, jacarandá, cedro, jequitibá, arnica e a canela-de-ema, que se tornou o símbolo do parque.

No berço da mineração em Minas Gerais, outra área de preservação ambiental se destaca. Ao longo dos 7.543 hectares do Parque do Itacolomi, predominam as quaresmeiras e candeias, que enfeitam as margens de rios e córregos. Nas partes mais elevadas da serra, estão os campos de altitude com afloramentos rochosos, onde se pode ver gramíneas e canelas-de-ema. As nascentes, escondidas nas matas, deságuam, em sua maioria, no Gualaxo do Sul, afluente do rio Doce.

No Parque do Itacolomi, também vivem animais raros e ameaçados de extinção, como o lobo-guará, a ave-pavó, a onça-parda e o andorinhão-de-coleira. Outros habitantes da região são os micos, tatus, pacas, capivaras e gatos-mouriscos. Levantamentos identificaram mais de 200 espécies de aves, como jacus, siriemas e beija-flores.

 
Entre o Cerrado e a Mata Atlântica
 
Minas abriga 178 espécies de mamíferos terrestres, das quais 55% vivem nas unidades de conservação do Quadrilátero, composto por dois dos mais expressivos biomas (formações vegetais) do Brasil, o Cerrado e a Mata Atlântica. Ambos são considerados prioritários para a natureza mundial, devido a sua riqueza natural e condição atual de preservação. Das 34 áreas indicadas no mundo, a Mata Atlântica e o Cerrado são as únicas no território nacional.

“O Quadrilátero Ferrífero é uma região ainda muito conservada, se levarmos em conta o tamanho dela e a atividade econômica”, afirma a bióloga e diretora do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, Tudy Câmara. Ela é, ao lado do fotógrafo Roberto Murta, co-autora do livro “Quadrilátero Ferrífero - Biodiversidade Protegida”, lançado em 2007 pela Vale e editado pela Formato. Para Tudy, a mineração na região é inevitável, já que é uma área rica em minério e a indústria depende, em grande parte, dessa matéria-prima. Mas, em sua opinião, outras atividades econômicas com potencial destrutivo devem ser evitadas.

De acordo com a bióloga, a mineração afeta pontualmente as regiões, deixando intacto o entorno. Ela dá o exemplo da própria Vale, mineradora presente no Quadrilátero Ferrífero. A empresa compra a região inteira onde vai desenvolver sua atividade e cria, nos arredores, Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). Tudy destaca que duas dessas reservas ligam-se ao Parque Natural do Caraça e formam o principal corredor de vegetação do Quadrilátero, que abriga animais diversos, sobretudo os de grande porte.

O Caraça é outro importante parque da região, com um ecossistema formado, também, por uma conjunção de Mata Atlântica com Cerrado, que contém belas cachoeiras e cascatas, picos, cavernas e uma rica fauna e flora, inclusive com espécies endêmicas. Mais de 200 tipos de orquídeas já foram identificados ali. É, ainda, um dos melhores locais do Brasil para a atividade de observação de pássaros.

Se é, portanto, inevitável pensar em mineração quando se ouve o nome Quadrilátero Ferrífero, aos poucos a região torna-se conhecida também por sua biodiversidade, com grande contribuição a dar à preservação da natureza mundial e ao desenvolvimento de um turismo sustentável.
 
 
Criação de Geoparque
 
Uma das principais iniciativas para proteger a biodiversidade do Quadrilátero Ferrífero deverá ser sua transformação em geoparque, uma forma de preservar o patrimônio cultural e ecológico, além de apoiar o desenvolvimento socioeconômico local. Um comitê formado por representantes do poder público, empresas e sociedade civil e científica analisa a proposta.

Com a possível implantação do geoparque, a região tende a ganhar impulso turístico, o que pode beneficiar a população local. Esse modelo de preservação segue os padrões da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que determina que a área deve ter roteiros definidos para visitação, fácil acesso e prover apoio, ferramentas e atividades para transmitir conhecimento.

 
Proposta multidisciplinar
 
A proposta da criação dessa área de preservação foi discutida, no último dia 11 de junho, no seminário “Geoparque do Quadrilátero Ferrífero: uma nova perspectiva de uso para o patrimônio geocientífico”, realizado no Instituto de Geociências da UFMG e organizado pela Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. No encontro, foi formado o comitê que trabalha para efetivar o projeto do geoparque e reconhecê-lo nacionalmente, no Serviço Geológico do Brasil (CPRM), e internacionalmente, na Unesco.

A implantação do geoparque não vai impedir as atividades econômicas desenvolvidas na região. A proposta é multidisciplinar e fortalece o Quadrilátero Ferrífero também no âmbito mineral. Assim, alia desenvolvimento econômico, turístico, ambiental e científico. Atualmente, existem 52 geoparques espalhados por 17 países, entre os quais o Brasil.
 

Ciência e beleza
 
Geoparque é um território de limites bem definidos com uma área extensa o suficiente para servir de apoio ao desenvolvimento socioeconômico local. Deve abranger um determinado número de sítios geológicos importantes ou um mosaico de entidades geológicas de relevância científica, raridade e beleza. Além disso, pode ter também significado ecológico, arqueológico, histórico e cultura.
 

 
 
 
Do ouro ao ferro
Viagem pelas raízes de Minas
 
Estamos no século XVII, por volta de 1695. Manoel Garcia Cunha, conhecido como Velho, comanda sua bandeira pelas terras das Gerais. Ao parar às margens do córrego Tripuí, encontra em seu leito uns granitos cor de aço. Nem sabia que se tratava de ouro de fino quilate. A descoberta correu mundo, atraiu novos desbravadores e fez surgir um lugarejo, hoje patrimônio da humanidade: a histórica Vila Rica, depois Ouro Preto.

Assim foi o início do Ciclo do Ouro no Brasil, que marcou definitivamente a história do país e do mundo. Desde os tempos do Brasil Colônia, a indústria extrativa mineral atrai investidores para o território mineiro. Com o monopólio da atividade, os portugueses concentravam recursos na prospecção e exploração de ouro e pedras preciosas — principalmente o diamante —, encontrados com facilidade na superfície do solo. A descoberta de mais “jóias” no subsolo mineiro veio décadas depois, para rechear os cofres da Coroa.

 
Pilar da economia
 
Com a decadência da exploração de ouro, o minério de ferro passou a ser a atividade econômica central da região. O processo de fundição do ferro, antes realizado artesanalmente em pequenas forjas, foi implantado de forma industrial na bacia do rio das Velhas, em Caeté, por volta de 1860. Em 1917, em Sabará, a extração também passou a ter caráter industrial. No decorrer do século XX e neste início de século XXI, o minério de ferro transformou-se num dos pilares da economia, além de item importante na pauta de exportações do país.

Ainda durante o Ciclo do Ouro, artesãos portugueses em Vila Rica também iniciaram a utilização da pedra-sabão como matéria-prima na construção civil, manufatura de utensílios domésticos e criação de obras de arte.

 
Circuito do Ouro
 
No Quadrilátero Ferrífero, a cultura faz ponte com a história e a arquitetura para reviver um passado ainda presente nas ladeiras ouro-pretanas, nos monumentos assinados por Aleijadinho em Congonhas e no patrimônio espalhado pelos 20 municípios que formam o Circuito do Ouro, roteiro turístico certificado em 2005.   

No século XVIII, período do auge da mineração do ouro, consolidou-se uma cultura eminentemente nascida em Minas Gerais e uma organização social e política que marcou a história do estado.

Com um fabuloso acervo histórico e artístico, o Circuito do Ouro tem dois patrimônios da humanidade: a cidade de Ouro Preto e o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas. Mas a viagem pelo tempo também pode ser feita nos outros municípios que constituem o roteiro: Barão de Cocais, Belo Vale, Bom Jesus do Amparo, Caeté, Catas Altas, Itabira, Itabirito, Mariana, Nova Era, Nova Lima, Ouro Branco, Piranga, Raposos, Rio Acima, Sabará, Santa Bárbara, Santa Luzia e São Gonçalo do Rio Abaixo.

A história da região começou com o descobrimento do ouro no final do século XVII, o que deu origem a muitos povoados. Alguns se desenvolveram e foram elevados a vilas, que hoje são conhecidas cidades históricas. Nessas vilas, foram construídos sobrados, casas de câmaras e cadeias, chafarizes, capelas e igrejas, nas quais floresceu o talento de artistas como Antônio Francisco Lisboa (Aleijadinho), Manuel da Costa Ataíde (Mestre Ataíde), Francisco Vieira Servas, Francisco Xavier de Brito, Francisco Lima Cerqueira e José Gervásio de Souza.

Três movimentos retratam a importância histórica da região compreendida pelo Circuito do Ouro: a Guerra dos Emboabas - luta de paulistas e “forasteiros” pelo domínio comercial da região; a Sedição de Vila Rica - revolta dos mineradores contra as extorsivas medidas administrativas portuguesas; e a Inconfidência Mineira, que teve a audácia de desejar a liberdade política e econômica da Capitania de Minas Gerais.

 
Relíquias
 
Nas cidades do circuito, é possível encontrar verdadeiras relíquias. Museus, igrejas, centros culturais, sítios arqueológicos, fazendas, santuários, casarões e memoriais guardam a beleza de uma época, que também se faz presente em trechos da Estrada Real e em manifestações da cultura popular.

Nos museus, estão objetos e documentos de grande valor. Os principais são os museus da Inconfidência, do Oratório e de Arte Sacra, em Ouro Preto; o Museu do Ouro, em Sabará; o Museu do Escravo, em Belo Vale; e o Museu de Arte Sacra, em Mariana.

Outros monumentos expõem a riqueza histórica e artística da região. A igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, com obras-primas do Aleijadinho e de Mestre Ataíde, simboliza a criatividade e qualidade da arte colonial mineira. Em Sabará, fica outra jóia da decoração barroca mineira: a capela de Nossa Senhora do Ó. A Catedral da Sé, em Mariana, abriga uma das mais preciosas peças de Minas Gerais: um órgão Arp Schnitger, construído em 1701.

A última grande obra do período da mineração do ouro encontra-se em Congonhas: o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, com esculturas que representam os passos da Paixão de Cristo e os profetas, criadas por Aleijadinho. Além dos monumentos arquitetônicos, o Circuito do Ouro tem um rico patrimônio natural. Cachoeiras, matas e paisagens serranas complementam e emolduram a beleza da região.

 
Risco ao ambiente e à saúde
 
Ao lado da beleza natural e da pujança econômica, o Quadrilátero Ferrífero convive também com uma ameaça, decorrente de centenas de anos de exploração mineral. Pesquisas diversas constataram a presença de metais pesados na água, no solo e nas plantas. Entre eles, está o arsênio, um dos mais nocivos à saúde humana.

O arsênio pode ser liberado na natureza por causas naturais, como o contato da água de rios e nascentes com rochas que apresentam elevada concentração do metal. No caso do Quadrilátero Ferrífero, a contaminação estaria relacionada à intensa mineração de ouro.

O Ciclo do Ouro brasileiro marcou definitivamente a história do país e do mundo. No século XVIII, era daqui que saía a maior parte do metal precioso do planeta. Das 1.421 toneladas extraídas no mundo, a capitania das Minas Gerais contribuiu com algo em torno de 700 toneladas, ou seja, 50% da produção mundial.

No auge desse período, as cidades de Mariana e Ouro Preto foram construídas pelas mãos de artistas e escravos, com a suntuosidade digna das mais abastadas cidades da época. As igrejas, com altares dourados e anjos barrocos, ao lado das ladeiras de pedras e do casario colonial, formam o maior conjunto homogêneo da arquitetura barroca no Brasil.

 
Degradação ambiental
 
A beleza arquitetônica moldada em ouro contrasta com a degradação ambiental. Como a maioria dos rios é afetada pelo assoreamento e pelo despejo de esgotos não tratados, as prefeituras tendem, cada vez mais, a coletar águas subterrâneas para abastecimento das cidades. Caso a captação ocorra ao redor de locais usados para mineração do ouro, pode haver a contaminação da água pelo arsênio.

Nas rochas do Quadrilátero, o arsênio ocorre principalmente em minerais como a arsenopirita e pirita, que estão associados à extração de ouro. Na atividade de mineração, o ouro era aproveitado e o rejeito, em que há grande concentração do arsênio, era descartado nos rios até a década de 1980. Na água, esses resíduos passavam por muitas transformações químicas que resultaram na liberação parcial do arsênio nos solos e nos rios. Somente nas últimas décadas, passaram a ser adotados mecanismos de controle dos impactos da mineração.



A perfeição da flor chamada Amararantina.


Jaguatirica: felino ameaçado de extinção, mas que sobrevive protegido nas reservas do Quadrilátero Ferrífero.

Batismo de Ferro: Os principais parques do Quadrilátero.


A exuberância da Mata Atlântica.

Paisagem que revela o esplendor da natureza ainda intacta.


A grandiosidade da beleza das alterosas.