Narrativas de uma ‘Paisagem Submersa’

Três fotógrafos mineiros são protagonistas do projeto “Paisagem Submersa”, realizado entre os anos de 2002 e 2007, que narra, por meio de fotografias, o processo de transferências de comunidades ribeirinhas que tiveram suas terras alagadas por causa da construção da Usina Hidrelétrica de Irapé, no Vale do Rio Jequitinhonha.


Por Mariana Lage
Fotos João Castilho, Pedro David e Pedro Motta
 
 
No prefácio do livro e na abertura do site, a descrição sumária: “Sete municípios do nordeste do Estado de Minas Gerais foram parcialmente inundados para formar o lago da Usina Hidrelétrica de Irapé, construída no leito do rio Jequitinhonha, entre as cidades de Berilo e Grão Mogol. Comunidades ribeirinhas tiveram suas terras atingidas e mudaram-se para outras regiões”.

Livro e site são resultados do projeto “Paisagem Submersa” — realizado entre os anos de 2002 e 2007 —, que tem como protagonistas três fotógrafos mineiros.

Desde o início dos trabalhos, João Castilho, Pedro David e Pedro Motta determinaram como proposta narrar por meio de fotografias o processo de inundação, demolição de casas e transferências das famílias da região do Vale do Jequitinhonha, resultado da construção da Usina Hidrelétrica de Irapé. Em julho de 2002, os fotógrafos apostaram que seria possível desenvolver um trabalho coletivo e, ao mesmo tempo, autoral. Eles fizeram 40 viagens em cinco anos, com freqüência de visitas ao local a cada dois ou três meses. João Castilho explica que as viagens eram feitas individualmente a fim de que cada fotógrafo dispusesse de seu próprio tempo de pesquisa, de reconhecimento do local e de criação do trabalho. A idéia central era a de que três autores escreveriam a mesma história. “Fotografamos sozinhos, mas editamos juntos”.
 

“Documentário imaginário”
 
A concisão na descrição do projeto lembra que o discurso verbal informativo não é bem-vindo. “Esse não é um trabalho que serve como ilustração de texto nenhum. Ele é o próprio texto”, enfatizam. “Em algumas projeções, abrimos a série de imagens com uma fotografia da barragem. Percebemos que ela destoava do conjunto por ter uma preocupação mais informativa. Optamos por retirá-la”. A exclusão da escrita reforça a opção de deixar que a história dos afetados fale por si mesma por meio das imagens.

Fortemente influenciados pela linguagem do documentário clássico, mas em busca do desenvolvimento de uma visão mais poética do momento histórico, os fotógrafos tomaram para si o termo que Chuck Sammuels, diretor artístico do Móis de La Photo de Montreal, forjou para referir-se ao trabalho: “documentário imaginário”.

E porque o Vale do Jequitinhonha? João Castilho explica que a procura foi por um tema contemporâneo que refletisse as origens dos fotógrafos como naturais de MinasnGerais. “Somos garotos urbanos. Nascemos e crescemos em Belo Horizonte. O que encontramos no Vale é uma cosmologia radicalmente diferente, tão diferente quanto a Amazônia ou a África. Ao mesmo tempo, o Jequitinhonha é a região que mantém algo de mais original e mais histórico no estado”, defende.
 
Entre 10 de maio e 30 de junho de 2008, o Museu Mineiro abrigou esse retrato lúdico, poético e afetivo de 1 151 famílias, divididas em 42 comunidades, deslocadas de seus locais de origem por terem partes de suas terras alagadas. O convite para a exposição de “Paisagem Submersa” feito a João Castilho, Pedro David e Pedro Motta propunha que fosse estabelecido um diálogo entre as imagens e um objeto do acervo do Museu Mineiro: a “Carta dos Rios Araçuaí, Jequitinhonha ou Grande”, de João Manuel Pohl, de 1820. Postos frente a frente na Sala das Sessões, o mapa do leito do rio e as cerca de 40 imagens apresentadas em projeção foram ambientadas pela trilha sonora de Rodrigo Araújo e Daniel Saavedra. Pedro David explica que as trilhas sonoras são sempre direcionadas pelo trio. “Encomendamos a trilha e pedimos que fosse algo centrado na ambientação, nada muito musical sem letra”. Para os fotógrafos, o som entrou na exposição como um texto a mais. Um texto que ajuda a direcionar a leitura, que envolve as imagens e explora outros sentidos na fruição.

 
Reencontro
 
Parte das fotografias expostas também compõe o livro Paisagem Submersa, editado pela Cosac Naify e lançado em 10 de abril deste ano, na Galeria Sílvia Cintra, no Rio de Janeiro. Em comum, livro e exposição apresentam uma preocupação de narrativa mais linear, com começo, meio e fim. Segundo Pedro David, é “como se cada foto fosse o primeiro fotograma de cada cena”. Desta forma, o leitor é levado a contemplar os sucessivos processos de mudanças vivenciados e observados pelos fotógrafos na região: o cotidiano da comunidade, suas dúvidas e angústias, o desmanche das casas, as terras novas, a água inundando as terras antigas e, por fim, o cotidiano em novas terras.

Diferentemente do livro, a exposição apresenta ainda imagens mais recentes, que documentam o retorno e o reencontro dos fotógrafos (em março de 2008) com as comunidades atingidas. São registros das imagens projetadas na fachada da igreja em Novo Peixe Cru e em uma tela instalada em uma rua da comunidade Porto Coriz. Após o longo processo de transição e ambientações em novas paisagens, fotografados e fotógrafos se reencontraram para assistir ao resultado.

 
Ritmo à leitura visual

Entre julho de 2002 e março de 2007, Diamantina, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, e Holanda — em breve, São Paulo e Recife — abrigaram inúmeras projeções comentadas e oito exposições — fotografias impressas, projetadas ou instalações. Com um acervo incontável, cada exposição exigiu a realização uma nova edição — sempre pautada pelas características do local, pela verba e pelo público. As sucessivas edições do material deram ao grupo uma experiência particular na marcação de tempo da narrativa imagética. Entre outros elementos, os fotógrafos destacam o namoro com a linguagem cinematográfica e o desenvolvimento de um ritmo próprio à leitura visual. No livro, por exemplo, essa marcação do tempo aparece como pausas de leitura nas paginas em preto.
 
 
Maturação e a transição

Os fotógrafos lembram que Paisagem Submersa retrata também a maturação e a transição de linguagem de cada fotógrafo, marcadas por um período de experimentação muito grande. Esses cinco anos envolveram parte do ciclo em que recém graduados, em jornalismo e em desenho, consolidam suas técnicas de trabalho, suas identidades visuais e se lançam no mercado. A experimentação de João Castilho, por exemplo, guiou-se bastante pela pesquisa da cor e do uso do cromo. Já Pedro David conta ter variado mais na utilização de câmeras e filmes. Sobretudo, destaca Pedro, esses anos deram a eles uma outra forma de abordar o objeto fotografado — de uma atitude mais passiva, caracterizada pela espera a um posicionamento mais ativo, de criar e descobrir situações.

Realizado ao longo de cinco anos, o projeto Paisagem Submersa se desdobrou em várias etapas. Aprovado três vezes na Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Estado de Minas Gerais e uma vez na Lei Rouanet, os recursos adquiridos financiaram parte das viagens, a produção do site e a publicação do livro.

Destes cinco anos, João conta que 2005 e 2006 foram os anos mais intensos de vivência e de produção das fotografias. Iniciado em dezembro de 2005, o enchimento do reservatório tornou-se senão o momento mais importante, ao menos o de maior impacto na vida daquelas pessoas.

A Usina Hidrelétrica de Irapé, também conhecida como Hidrelética Presidente Juscelino Kubitschek, foi inaugurada em 08 de junho de 2006. A última viagem do grupo data de julho de 2007. Os sete municípios afetados foram Grão Mogol, Cristália, Botumirim, José Gonçalves de Minas, Berilo, Leme do Prado e Turmalina
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