A exuberante serra que estoura
 
O Parque Estadual do Ibitipoca, na Zona da Mata mineira, é uma Unidade de Conservação exemplar por seu grau de preservação da biodiversidade, pelos atrativos deslumbrantes e uma infra-estrutura moderna. Seu Plano de Manejo inovador alia conhecimento técnico a desafios gerenciais que, junto das melhorias recém implantadas, trouxe ideais de sustentabilidade e desenvolvimento econômico para a região.
 

Reportagem Rúbia Piancastelli
Fotos Fernando Piancastelli
 
Criado no dia 04 de julho de 1973, o Parque Estadual do Ibitipoca abrange os municípios de Lima Duarte, Santa Rita de Ibitipoca e Bias Fortes. Localizado a 80 km de Juiz de Fora, 260 km do Rio de Janeiro e 340 km de Belo Horizonte, o Parque possui uma área de 1.448ha. e situa-se numa extensão da Serra da Mantiqueira.

O nome Ibitipoca, de segundo registros no DIPUC 2004/2005 (Diagnóstico Participativo das Unidades de Conservação), possui origem indígena e significa “serra da ventania” ou “serra fendida”. Outras versões traduzem etimologicamente para “serra que estoura”, ou seja, Ibiti (serra) poca (estoura). Independente da origem do nome, a associação fica clara quando se observa as formações rochosas presentes no Parque, como os penhascos, paredões e cavernas.

O primeiro registro oficial da área é uma descrição detalhada de Auguste de Saint-Hilaire, botânico francês que teria chegado à Vila de Conceição do Ibitipoca em 1822, com a finalidade de coletar plantas na região da Serra do Ibitipoca.  

 
Biodiversidade
 
A paisagem do Parque Estadual do Ibitipoca é caracterizada pela presença de penhascos, rochas, paredões, cavernas, dolinas (cavidades naturais) e cachoeiras, elementos próprios de um terreno rochoso da região quartzítica. Para se ter uma idéia da privilegiada composição, são mais de 70 as cavidades registradas pela Sociedade Brasileira de Espeleologia na região da Serra do Ibitipoca.

O clima tropical de altitude e a vegetação predominante de campos rupestres são caracterizados por uma média de temperatura entre 15º e 18º, em uma área de altitudes entre 1.050m e 1.784m. As temperaturas amenas e a alta umidade geram condições essenciais para o habitat das espécies vegetais chamadas epífitas, representadas por liquens, cactáceos, belas orquídeas e bromélias — plantas essas que compõem grande parte da identidade paisagística do Parque.

Faz parte da composição da flora uma espécie chamada de Candeial, presente nas áreas de transição entre florestas e formações campestres, em menores altitudes. Considerando a área total do parque, 50% trata-se de formações campestres, 16% de florestas de candeias, 19% de floresta nebular ou grota, e 12% de floresta ombrófila densa. O restante da área é ocupado por campos encharcados, cerrados de altitude e campos de pastagem.

 
Leitos cristalinos e cachoeiras frondosas
 
Nesse mosaico de vegetação estão guardadas nascentes de córregos e rios que formam o conjunto das águas das bacias do Rio Grande e Rio Paraíba do Sul. Leitos cristalinos e cachoeiras frondosas compõem o cenário natural que atrai os turistas de todos os estados brasileiros e, principalmente, habitantes originais do Ibitipoca: mais de 40 espécies de mamíferos registrados, dentre eles o lobo-guará, onça-parda, capivara, e porco-espinho; 14 espécies de anfíbios, com destaque para o mais famoso – a perereca Hyla ibitipoca; e 74 espécies de aves, como o papagaio-de-peito-roxo, sanhaço-frade, tico-tico e tangará. Há ainda as espécies típicas de cavernas e regiões rochosas, como insetos e morcegos, além dos indícios da existência de gatos-do-mato, pacas e andorinhões.

Sintetizando essa grandiosidade que é a biodiversidade do local, nas palavras da Diretora de Áreas Protegidas do IEF (Instituto Estadual de Florestas): “O Parque Estadual do Ibitipoca é uma pérola incrustada na Zona da Mata. Trata-se de uma Unidade de Conservação (UC) muito completa, com florestas, cachoeiras de fácil acesso para visitação, grutas interessantes, enfim, uma paisagem cênica incrível. Além dessa beleza, sua infra-estrutura é excelente, especialmente com as melhorias recentemente inauguradas.”

 
Atrativos Naturais
 
Com o título de Unidade de Conservação mais visitada em Minas Gerais, o Ibitipoca possui vários atrativos naturais, como mirantes, picos, grutas, praias, piscinas naturais e cachoeiras de águas transparentes e escuras. Todos eles são rodeados pela infra-estrutura modernizada, que inclui a nova portaria, trilhas seguras e orientadas, o Centro de Visitantes Saint-Hilaire, casa de hóspedes e pesquisadores, restaurante e lanchonete de boa qualidade, área de camping, acessos pavimentados e muitos outros benefícios ao turista, comunidade, pesquisadores, funcionários e, principalmente, o meio-ambiente.
 
São 27 os atrativos do Parque, dentre naturais e não naturais. Destacam-se na paisagem as grutas dos Três Arcos, dos Viajantes, do Pião e dos Coelhos, além de atrações como os Picos do Pião e da Lombada. Algumas das cachoeiras são a da Pedra Quadrada, dos Macacos e Ducha. Há ainda os lagos dos Espelhos, Negro, Pedra do Sapo e das Miragens – esse com um apelo especial por causa da lenda indígena e por suas águas turvas propícias para um bom banho. Completam o cenário natural, o Mirante do Poente, Paredão Santo Antônio, Ponte de Pedra, Pocinho, Lagoa Seca, Prainha e Janela do Céu, um dos pontos mais procurados do Parque por seu mirante de vista inigualável.

 
Turismo agradável e completo
 
Além da logística disponível no Parque para sua visitação, o turista tem opções de hospedagem em cerca de 26 pousadas e hotéis da região de Vila de Conceição do Ibitipoca, segundo dados do PROMATA (Projeto de Proteção da Mata Atlântica/IEF), sem contar os leitos disponíveis em Lima Duarte e seus distritos. Além dos locais para pouso, restaurantes e comércio de artesanatos e produtos locais tornam o turismo ainda mais agradável e completo, fomentando o crescimento econômico da região.

No Parque é possível praticar atividades de banho, cavernismo, observação de fauna e flora, trekking e turismo fotográfico, sendo apenas necessário fazer contato com a administração do Parque para se informar sobre quais atrativos estão abertos a visitação. Já a facilidade dos Alojamentos, com capacidade para 24 pessoas, faz parte do Centro de Pesquisa e Manutenção, que absorve a crescente demanda de acadêmicos e estudantes por estrutura e apoio aos projetos a serem desenvolvidos na UC.

 
Fomento à Pesquisa
 
Uma das razões para a expansão e melhoria dos Alojamentos é o aumento da procura pelo Parque para a realização de pesquisas e estudos formatados por instituições de todo o Brasil. Esses pedidos são concentrados no IEF, que avalia e emite a licença para a realização das atividades de campo, disponibilizando acesso gratuito ao Parque, estadia, um veículo e técnicos para acompanhar os trabalhos desenvolvidos.

“Recebemos e incentivamos o fomento de projetos de pesquisa, que são avaliados pela nossa equipe técnica. A emissão da licença de aprovação é de responsabilidade do IEF e IBAMA, e depende da coesão do projeto e restrições quanto às coletas. Nesse processo quase sempre temos aprovações, e hoje são temos aproximadamente 64 pesquisas sendo desenvolvidas no Parque do Ibitipoca”, afirma a bióloga e analista ambiental do IEF, Denize Fontes Nogueira.

A Gerência de Projeto e Pesquisa, dentro da Diretoria de Biodiversidade, da qual Denize faz parte, é responsável também pela construção de um banco de dados onde estão sendo armazenados os relatórios exigidos para acompanhamento dos pesquisadores, assim como os trabalhos de conclusão das pesquisas.

 
Conservação, pesquisa e turismo
 
Os materiais serão futuramente disponibilizados no site para acesso público e, dentre eles, irão figurar as atuais instituições pesquisadoras, universidades de Minas Gerais (UFJF, UFV, UFA, UFMG, FAFILE/UEMG, UFOP), Rio de Janeiro (UFRJ, UENF), São Paulo (USP e Unicamp), Bela Vista (UNESP), além de centros de pesquisa, ONG’s, empresas e instituições ligadas ao meio-ambiente, como o Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Além de contribuir para o desenvolvimento acadêmico, as pesquisas são de grande interesse quando se refere ao Plano de Manejo do Parque, documento obrigatório e essencial para o conhecimento detalhado de toda a extensão do parque, seu entorno, sua biodiversidade e sua gestão. “A troca de informações entre pesquisadores e a instituição IEF é de grande relevância para estreitar as relações e contribuir para os objetivos do Parque: conservação, pesquisa e turismo”, conclui Denize.

 
Mudanças Integradas
 
No final do primeiro semestre de 2008, foi concluída a primeira fase do projeto que contempla uma série de melhorias promovidas nas Unidades de Conservação pelo Governo de Minas Gerais e Promata-MG (Projeto de Proteção da Mata Atlântica/IEF).

O Parque Estadual do Ibitipoca, uma das UC’s contempladas, passou por mudanças financiadas pela cooperação Brasil-Alemanha, um acordo entre a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad) e o Ministério de Cooperação Internacional da Alemanha, por meio do Banco Kreditanstalt für Wiederaufbau (KfW).

Foram destinados ao Parque na 1ª fase do Promata-MG, cerca de R$ 2 milhões para a recuperação de trilhas, implantação do moderno Centro de Visitantes Saint-Hilaire, reformas e ampliações na portaria e alojamentos, inauguração do restaurante e restauração do Pico do Pião, e pavimentação da estrada de acesso e uso interno do Parque. “Concretizamos o trabalho que se iniciou em 2004, com a implantação de melhorias essenciais para a conservação e proteção das UC’s da Mata Atlântica, foco do nosso trabalho. Tenho a destacar, dentre todas as atividades desenvolvidas, o inovador Plano de Manejo proposto, que será aprovado ainda esse ano pelo Conselho Administrativo do IEF”, conta Eduardo Grossi, Coordenador do Promata-MG.

 
Instrumento de gestão
 
O Plano de Manejo do Ibitipoca contém, além das completas informações técnicas levantadas e pesquisadas por biólogos, geógrafos, geólogos e outros especialistas, uma parte essencial sobre gestão. Nesse tema são abordadas as metodologias de trabalho adequadas ao contexto da UC, as formas de planejamento e da alocação de recursos, e todos os processos a serem pensados, desenvolvidos e mensurados para alcançar os objetivos do Parque. “Para desfrutar de um parque, conservar sua área e beneficiar a comunidade, é preciso desenvolver um instrumento de gestão. Foi pensando nisso que trabalhamos essa ferramenta no Plano de Manejo”, diz Grossi.

Os investimentos na melhoria da gestão de todas as UC’s compreendem ações que fomentam a maior atuação do Conselho Consultivo do Parque, o Projeto de Gestão à Vista, a valorização do Plano de Prevenção e Combate a Incêndios com a criação da Força Tarefa e também do Centro de Inteligência para Ação e Combate, e a implantação da ferramenta de gestão SIGAP – Sistema de Gestão de Áreas Protegidas.

 
Investimentos nas UC’s
 
Além dos projetos no Ibitipoca, o Promata-MG trabalha com outros parques estaduais, com o da Serra do Brigadeiro e do Rio Doce. O objetivo do Projeto é promover ações de proteção, recuperação e uso sustentável na região da Mata Atlântica em Minas Gerais, com foco nas Unidades de Conservação (UC’s) e suas áreas de influência.

A segunda fase dos trabalhos propostos pelo Projeto está sendo negociada entre o Governo do Estado e o KfW, para que sejam viabilizados os trabalhos nas em 22 UC’s e seus entornos, aproveitando a experiência bem-sucedida da 1ª fase. A atuação do Promata-MG se estende a uma área total de 229 mil quilômetros quadrados (25% do território mineiro), distribuídos em 429 municípios das regiões do Alto Jequitinhonha, Vale do Rio Doce, Zona da Mata, Centro-Sul e Sul do Estado.

Os componentes do Projeto que guiam as ações desenvolvidas, alinhadas ao seu objetivo, são o Fortalecimento das UC’s; o Monitoramento, Fiscalização e Controle; a Prevenção e Combate a Incêndios Florestais; o Desenvolvimento Sustentável do Entorno das UC’s; e a parte administrativa de Coordenação, Monitoria e Avaliação do projeto para obtenção de resultados satisfatórios.



O Ibitipoca é rico em formações rochasas como os penhascos, paredões e cavernas.


Nesse mosaico de beleza naturais estão guardadas nascentes de córregos e rios que formam o conjunto das águas das bacias do Rio Grande e Rio Paraíba do Sul.

Águas cristalinas e cachoeiras frondosas compõem o cenário naturalque atrai os turistas de todos os estados brasileiros.


A presença de penhascos, rochas, paredões, cavernas, dolinas (cavidades naturais) e cachoeiras são elementos próprios do terreno rochoso de uma região quartzítica.

O turismo de observação da fauna e flora é uma atividade em franco crescimento no Ibitipoca.


As deslumbrantes belezas naturais fazem do Ibitipoca a Unidade de Conservação mais visitada em Minas Gerais.

Mirantes, picos, grutas, praias, piscinas naturais e cachoeiras de águas transparentes e escuras: atrativos beneficiados pela infra-estrutura modernizada do parque.


Na composição da flora, uma espécie chamada de Candeial, está presente nas áreas de transição entre florestas e formações campestres