Intimidade e identidade

Por Euclides Guimarães

 
O ser humano tem a peculiaridade de morar em um universo de palavras e imagens, o que faz de cada um de nós um mundo interior, um espaço abstrato, mas não de todo, uma vez que se pode demarcar por uma concretude que o delimita: o corpo. O espaço é antes de tudo uma noção, algo que experimentamos a partir de uma sensação elementar de localização, que permite perceber a nós mesmos e aos objetos que nos envolvem como coisas reais. De posse dessa experiência criamos as referências com as quais nos deslocamos e com as quais nos estendemos para as demais apropriações.
 
Essa mesma morada, a linguagem, nos conduz a construir categorias referenciais que se opõem como o perto e o longe, o claro e o escuro ou o dentro e o fora. Essa última dualidade se difere das outras pela concretude do “entre”. Entre o perto e o longe, assim como entre o claro e o escuro, há uma infinidade de tons intermediários. O mesmo não se pode dizer da dualidade dentro-fora, onde o que existe é um terceiro elemento, uma parede, uma pele, uma cerca, uma fronteira. A presença desse elemento fronteiriço faz dele um painel para que se comunique ao dentro o que se valoriza lá de fora e ao fora o que se quer anunciar sobre o dentro. Nem todas as fronteiras são físicas, mas todas, inclusive as físicas, são simbólicas. Além disso, pensar o dentro e o fora não é apenas uma referência ao espaço, mas é o ponto de partida para separar o familiar do exótico e, por conseqüência, o que é íntimo do que é estranho ou ainda, reverberando nas relações sociais, as pessoas com quem nos relacionamos por amor, que são as de dentro (do coração) e as com quem nos associamos por interesse, que são as de fora.
 
Freud nos fala de duas angústias elementares que ele acredita serem as bases de todo o processo civilizatório: a de sermos pequenos em um mundo que é grande e a de sermos passageiros em um mundo que é eterno. Talvez a primeira delas esteja na base de todos os esforços em separar o interior do exterior, que se justificam pela eterna vontade humana de se agigantar, ampliando o espaço conquistado, doméstico e seguro do dentro, enquanto empurra ao máximo as fronteiras que levam ao fora.
 
O primeiro dentro é o corpo e o que o separa do primeiro fora é a pele. De dentro do corpo somos, cada um imerso em uma solidão absoluta, por vezes incômoda, mas inelutável. De dentro do corpo virtualizamos todos os tentáculos que nos levarão aos limites das demais fronteiras, mas todos os muros, cercas e alfândegas, estarão a separar o lado de dentro do lado de fora, descrevendo assim toda a simbologia que a dualidade carrega.
 
Se a primeira fronteira é a pele também as demais serão e a que vem de imediato, consagrando a superioridade alcançada na seleção natural, é a roupa. Sintomático que as primeiras vestimentas tenham sido peles de animais caçados, pois revelam que a segunda pele pode ser de pele mesmo e demonstram que estender-se fisicamente é estender-se simbolicamente. Territorializar é se apoderar de uma porção de espaço estabelecendo politicamente uma fronteira mais extensa para a separação dentro-fora.    
 
À pele-parede-fronteira representada pela roupa sucedem-se outros níveis de expansão do dentro. O arquiteto austríaco Hundertwasser criou nos anos sessenta, uma teoria das cinco peles que sucessivamente nos envolvem. Primeiro a epiderme, segundo a roupa, terceiro a casa, quarto a identidade ou meio social e por fim o meio global incluindo o ambiente e a própria humanidade. A compreensão mais ampla de nosso lugar no mundo passa então pela melhor ambientação em face de cada uma dessas peles.
 
A peculiaridade da segunda pele, a roupa, é que, além de dar abrigo à primeira pele, ela funciona como uma parede pichada, sempre a comunicar algo a um interlocutor presente , no entanto, indefinido. O quanto nus somos intimidade é o quanto vestidos somos identidade.  E se a primeira pele separa o eu (self) do mundo, a segunda vai primar pelo esforço de superar não só a fragilidade do corpo, mas o abandono da solidão. A roupa não faz sentido senão na interação com um incerto outro, um outro que seja, pelo menos em parte, anônimo. Quando nos vestimos, mesmo que tenhamos uma boa previsão sobre por quem seremos vistos, estamos nos preparando para levar o mais nuclear de todos os dentros  para fora. Nesse sentido, a roupa é como uma fronteira itinerante, uma bolha para que, nem quando fora, deixemos de estar por dentro.
 
Se alguns povos desconsideram a roupa é porque vivem em comunidades tão personalizadas e permanentes, que não precisam separar a intimidade da identidade e se, por ocasião de um ritual em que o indivíduo deva se anular para dar lugar a uma entidade, sentem essa necessidade, se as hierarquias e os papéis carecem de claras definições, então os corpos se vestem crivando-se de adornos. Nas sociedades complexas, em que as relações são preeminentemente anônimas, e que se pautam pela constante ocupação de posições impessoais, essa situação se inverte e apenas nos ritos íntimos, as pessoas se despem.
    
Daí a grande mágica que se realiza na revelação da nudez. Tirar a roupa para alguém representa, sobretudo, permitir o acesso de um outro, que já não é mais anônimo, ao território íntimo, sendo então o sexo, simbolicamente, a eliminação momentânea de todas as fronteiras, portanto a única anulação possível e perecível da solidão inelutável.
 
Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC-MG.





"O arquiteto austríaco Hundertwasser criou a teoria das cinco peles que sucessivamente nos envolvem. Primeiro a epiderme, segundo a roupa, terceiro a casa, quarto a identidade ou meio social e por fim o meio global."