A dança como arte mutante

Como a Mimulus Companhia de Dança reinventou a linguagem da dança de salão.
 

Por Maria Lutterbach
Fotos Guto Muniz
 
Um par dançando entrosado no salão transmite a troca de energia entre duas pessoas que se juntam num mesmo ritmo. Se apenas uma dupla tem tal poder de faísca, imagine um palco infestado dessa energia. A pegada vibrante da dança de salão foi o primeiro impulso para que o trabalho da Mimulus Companhia de Dança tomasse forma. A referência inicial ganhou peso diferente ao longo da trajetória desse grupo mineiro, mas ainda é por meio dela que se entende a força do trabalho desenvolvido pela Mimulus há quase duas décadas.

Nascida dentro de uma escola de dança de salão fundada pelos pais do diretor, Jomar Mesquita, era natural que a companhia costurasse seus primeiros passos partindo de ritmos como o samba e o chorinho, o tango e a salsa. Mas as características dos diferentes estilos foram sendo reinventadas desde os primeiros anos do coletivo. “Comecei a estudar outras linguagens do teatro e da dança porque me incomodava ver a dança de salão sempre com as mesmas propostas coreográficas. É uma técnica muita associada apenas ao entretenimento e não valorizada por seu aspecto artístico”, avalia Mesquita.

Ao se arriscar e transpor os limites formais de cada técnica, a Mimulus construiu aos poucos suas próprias (e mutantes) fórmulas. O gosto em inovar aparece a cada espetáculo, nas receitas coreográficas que fundem ousadia contemporânea à bagagem original. “A dança de salão como arte levada ao palco é algo extremamente novo”, aponta o coreógrafo e dançarino.

 
Indas e vindas
 
De 1992 para cá, a Mimulus conseguiu mostrar, dentro e fora do pais, os resultados de suas pesquisas híbridas. As montagens experimentadas pela trupe trouxeram não só o reconhecimento do grupo como uma referência nacional, mas também viagens que enriqueceram o repertório dos seus integrantes. “Dolores”, mais recente espetáculo da companhia, é só um dos reflexos do intercâmbio estabelecido entre a Mimulus e culturas estrangeiras ao longo dos últimos anos.

As trilhas sonoras e a atmosfera kitsch que são marcas do cineasta espanhol Almodóvar entram em cena como inspiração para “Dolores”. “Na medida em que começamos a ser convidados para mostrar nosso trabalho fora, o intercâmbio se intensificou. A referência para `Dolores’ não veio por acaso. A Espanha talvez seja o país pelo qual passamos mais vezes. Durante os festivais que participamos, sempre existe muita troca, seja com professores, seja com outros grupos”, explica Jomar Mesquita.

Por ser um trabalho que não se sustenta apenas na dança — apesar desta ser seu maior apoio —, a montagem demandou intenso envolvimento dos bailarinos. Depois da estréia, em novembro do ano passado, “Dolores” já recebeu convites para ser apresentado no Jacob’s Pillow Dance Festival, nos Estados Unidos, e no festival Madrid en Danza. O espetáculo anterior da Mimulus, “Do Lado Esquerdo de Quem Sobe”, também foi levado aos dois eventos, além de ter integrado a programação da Bienal de Dança de Lyon, na França, em 2006.

 
Do lado de cá
 
As andanças da companhia pelo mundo afora trazem resultados não só para o seu processo criativo, mas para a faceta formadora da Mimulus.  A escola Mimulus Dança de Salão, que deu origem ao grupo, continua na ativa em Belo Horizonte. Em um galpão no Prado, a instituição serve tanto de estrutura para a companhia, quanto de celeiro para novos talentos. Ainda coordenada por Baby Mesquita, mãe de Jomar, a escola reúne cerca de 500 alunos e desenvolve uma pesquisa permanente sobre a dança de salão vinda de diferentes países.

A proposta de resgatar (e recriar) estilos deste tipo de arte já faz parte da história da Mimulus. “Introduzi no Brasil três ritmos que ainda não haviam sido explorados   aqui: o lindy hop, que é o primeiro estilo de swing do mundo, inventado em Nova Iorque; a roda de cassino, uma salsa dançada em roda muito didática para trabalhar em aulas, e a bachata”, lembra o diretor.

Justamente por agregar tantas vertentes da dança, a companhia prefere não ser rotulada por um só estilo, apesar de ter criado uma marca inconfundível. Quando você estiver diante de um palco onde a acrobacia dá cara nova a gêneros como o fox e o tango se entende até com o samba, vai entender: a Mimulus entrou em cena.



Espetáculo Dolores: a Mimulus mostra dentro e fora do país, os resultados de suas pesquisas híbridas.


A companhia não é rotulada por um só estilo, pois criou uma marca inconfundível.