Pelos grandes sertões adentro

Escrever sobre Grande Sertão Veredas e seu espelho o Circuito Turístico Guimarães Rosa nos leva por um caminho que lembra o símbolo de infinito encontrado no final do romance e nos jardins da Casa de Guimarães Rosa, em Cordisburgo. Entre a obra do escritor e a vida real do sertão — organizado em formato de Circuito Turístico em 2005 — há uma intermitência e um transbordamento recíproco que nos deixa a meio do caminho quando nos perguntamos onde está a origem, por onde começar? Pela viagem que originou a obra, pela cultura sertaneja que deu vida à narrativa, ou pela história mineira que forma o pano de fundo ao que quer que se refira àquela região situada entre o Rio São Francisco e seu maior afluente, o Rio das Velhas.
 

Reprotagem Mariana Lage
Fotos
Fernando Piancastelli

Montado no lombo da mula Balalaika, o médico, diplomata e escritor João Rosa —como é chamado na região — percorre 247 quilômetros tocando 198 cabeças de gado na companhia de oito vaqueiros chefiados por Manuel Nardi, o Manuelzão. O caminho inicia-se na Fazenda Sirga, no município de Três Marias, segue geraes adentro nas proximidades de Andrequicé, Morro da Garça, Felixlândia, Curvelo e Cordisburgo e chega à fazenda São Francisco, em Araçaí. Ao todo foram 10 dias de viagens, todos minuciosamente registrados em suas famosas cadernetas penduradas ao pescoço.

Realizada em maio de 1952, a travessia de Guimarães Rosa dá origem aos livros “Grande Sertão: Veredas” e “Corpo de Baile", ambos publicados em 1956, além de outros contos e romances. Algumas décadas depois, será a vez da literatura, da vida sertaneja e do tropeirismo reunirem treze cidades próximas para compor este circuito turístico-literário.

 
Mistura de real e imaginário
 
Araçaí, Buritizeiro, Cordisburgo, Corinto, Curvelo, Felixlândia, Inimutaba, Lassance, Morro da Garça, Pirapora, Presidente Juscelino, Três Marias e Várzea da Palma — municípios situados no epicentro dos Gerais, localizados entre 200 e 400 quilômetros a noroeste de Belo Horizonte — são cenários da travessia de Rosa. Alguns deles começam seu aldeamento às margens do Rio São Francisco e seus afluentes, outras de pousos e ranchos das rotas dos tropeiros, e há outras ainda que nascem ao longo da Estrada de Ferro que corta a região, como é o caso de Corinto e Pirapora.

Muitos são os que hoje exploram esta região central das Minas Gerais à procura dos personagens de “Grande Sertão: Veredas”, “Corpo de Baile” e “Primeiras Estórias”. Se não encontram memórias e pessoas do passado que inspiraram Rosa, descobrem a cultura viva do sertão, os variados tons de azul e de verde do Rio São Francisco e do Lago Três Marias, a culinária mineira, os buritizais, as veredas, a fauna e a flora típica do cerrado: cenários de um universo agrário que, nos diz Rosa, “está dentro da gente” e “em toda parte”.

Numa mistura de real e imaginário, os caminhos sertão adentro revelam “causos”, cenas e pessoas apropriadas e (re)contadas por um Homero brasileiro, mineiro, sertanejo. Andrequicé, cidade onde morou Manuelzão e cenário dos contos “Uma estória de amor” e “Dão-Lalalão”. O pequeno rio De-janeiro, que encontra o São Francisco em Três Marias, local do primeiro encontro de Riobaldo e Diadorim. A Estação de Cordisburgo onde Sorôco embarca mãe e filha em direção ao hospício de Barbacena. Morro da Garça, “solitário, escaleno, escuro”, situado no centro geodésico de Minas, dá sete recados a Pedro Ozório, no conto “O Recado do Morro”. Além, claro, das antigas fazendas e casarões que convidam o visitante a explorar a região.
 

Áreas extensas e indomadas

“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade”. Grande Sertão Veredas.

Em uma pesquisa ampla, Janaina Amado constata que desde a chegada dos portugueses o termo sertão adquiriu acepções diversas e muitas vezes contraditórias. “Inferno e paraíso, tudo dependeria do lugar de quem falava”. Durante o Brasil colônia, o significado que figurou foi o de “terra sem fé, lei ou rei”, áreas extensas e indomadas afastadas do litoral.

O sertão retratado por Guimarães Rosa mantém a dimensão complexa e migrante do termo. Grande, fugidio e “sem lugar”, é fortemente marcado pela geografia e clima do cerrado, pela bacia do Rio São Francisco, pelo tráfego intenso de tropeiros e pelo apogeu e declínio da jagunçagem, entre o fim do século dezenove e o início do século vinte. Do ponto de vista geográfico, a região situa-se à noroeste do estado, nas divisas com Bahia, Tocantins e Goiás.

 
Tropeirismo
 
Retratadas nas obras de Rosa, boiadas, jagunços e vaqueiros são os personagens centrais da história do desenvolvimento econômico, social e cultural do país.

Tão importante quanto os ciclos do café, da cana-de-açúcar, do ouro e da borracha, o transporte de gados, gêneros alimentícios e outras mercadorias nos lombo de burros e mulas teve início nos séculos XVII e XVIII, concomitante ao desenvolvimento da mineração. Responsável pela manutenção e abastecimento dessas regiões extrativistas, as tropas também contribuíram para a ocupação e integração litoral-interior do Brasil Colônia, fazendo surgir vilas e arraiais ao longo das rotas das boiadas pelos sertões.

Do Rio Grande do Sul e do porto do Rio de Janeiro até Minas Gerais, chegavam os mantimentos e produtos manufaturados responsáveis por 90% das necessidades dos mineiros. De Minas em direção ao litoral e, posteriormente, Europa, escoava-se o ouro e o diamante extraídos. Como se sabe, enquanto a região sul dedicava-se à criação de gado e à agricultura de subsistência, a região das minas limitava suas atividades à extração. Em alguns momentos do século XVII e início do XVIII, essas regiões sofreram crises prolongadas de fome a ponto, inclusive, de interromperem os trabalhos extrativistas para produzirem alimentos.

Ao longo do século XIX, o trafego de mercadorias e ouro intensifica-se em toda a colônia com o crescimento dos arraiais e da elite mineradora. Com o advento de transportes modernos, a atividade arrefeceu no século XX. Num primeiro momento, estradas de ferro são abertas conectando o interior do estado à então capital Rio de Janeiro. Num segundo momento, mais definitivo, é a vez das estradas de rodagem, caminhões e carretas.

Eixos estratégicos para o escoamento da produção mineral, as tropas movimentaram a economia do país, abriram novos caminhos, fizeram surgir novos arraiais e toda uma cultura mineira-sertaneja — culinária e costumes nascidos diretos das cangalhas de burros e mulas.

 
Veredas e eucaliptos
 
Dos cinqüenta e seis anos que nos separam da experiência vivida pelo escritor, o sertão sofreu sucessivas mudanças trazidas com as “boas novas” da modernização.

Se durante o ciclo do ouro a região sertaneja estabelecia contato com a região costeira civilizada por meio do tropeirismo, abastecendo as vilas mineradoras de carne e farinha, em fins do século XX será a vez do agronegócio, a favor da mecanização em larga escala para explorar as grandes extensões de terra. Mais máquinas, menos mão-de-obra. Os antigos vaqueiros e sertanejos tornam-se agora subempregados nas carvoarias ou emigrantes de grandes centros urbanos.

Há muito a monotonia do “deserto verde” avança sobre a fauna e a flora do cerrado, levando consigo veredas, buritizais e outras espécies típicas como sucupira branca, jatobá, mangabeira, jenipapeira, pequi, angico, angá, gameleira e mangueiras. De longe se vê altas e densas florestas de eucaliptos intercaladas por algumas veredas que, se sabe, em pouco tempo deixarão de existir. A proximidade aos eucaliptos cederá toda a água empossada nesses pequenos vales à força esterilizadora dessa mata que, dentro e ao redor, não deixa espaço para outras vidas.

A visão de carvoarias e de milhares de hectares de monoculturas de eucalipto e soja nos lembra que o cerrado e os gerais não são os mesmos encontrados por Guimarães Rosa em 1952. O antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, autor do livro Memória/sertão – cenários, cenas, pessoas e gestos nos sertões de João Guimarães Rosa e de Manuelzão, registrava já em 1989 relatos desta gente que constatava que “os sertões do Guimarães Rosa acabaram”. Foi também ao antropólogo que Manuelzão confirmou: “Vocês não vão achar sertão mais de maneira nenhuma!... o eucalipto acabou com tudo! Fazendas velhas assim, com casas antigas? Região aqui eu não conheço, não”. “Você olha esse mundo aqui em abaixo, ó. Que está destroçado aí, na beira dessas veredas. Onde tem água tem bateria cozinhando carvão, aquela confusão toda. Você olha esse azul aí fora... e pra todo lado aqui o tanto de eucalipto que tem!... Cobra pode ter alguma dentro dessa reserva. Mas dentro de eucalipto nem cobra não fica. Nem cobra! Marimbondo, você pode andar o dia todo dentro do eucalipto, você não encontra”, complementa mais adiante.
 
 
Mais sertões, veredas e muitas águas
 
A região que abarca o grande sertão dos gerais é dona de uma imensa vocação para o turismo rural, o ecoturismo e o turismo de aventura, além da pesca esportiva ao longo do Rio São Francisco e os esportes náuticos no Lago de Três Marias. O turista também tem a opção de praticar montanhismo, caminhadas ecológicas e cavalgadas nas serras do Boiadeiro, das Araras, Santa Rita, do Repartimento, do Morro Vermelho e no Chapadão dos Gerais.

Na região de Três Marias, cidade que também integra do Circuito Lago Três Marias, pode-se praticar o turismo de aventura nos paredões e cânions da Cascata das Virgens. No Lago, visitas à prainha e à pequena ilha formada pelo represamento das águas também são convidativas. Ao longo do Rio São Francisco é possível encontrar espécies de peixes como Dourado, Pacu e Surubim.

A cidade de Buritizeiro, por sua vez, se destaca pela variedade de árvores frutíferas, características do clima quente e árido da região. Frutos como o pequi, o umbu e o caju são a matéria prima da produção de doces, geléias, licores e artesanato em geral. Próximo à cidade, é possível conhecer as cachoeira das Almas, das Andorinhas, do Córrego do Gentil, a Grande (localizada na Fazenda Santa Cruz) e a do Córrego da Areia e do Riacho Doce (na Fazenda dos Cristais).

Em Cordisburgo, cidade que também faz parte do Circuito das Grutas, existe uma das poucas grutas abertas à visitação: a Gruta do Maquiné, com seus sete salões, 650 metros de extensão e 18m de profundidade.

 
Circuito Turístico Lago Três Marias
 
Este circuito é formado por nove municípios banhados pelo represamento das águas do Rio São Francisco na atual região de Três Marias. O Lago Três Marias foi formado devido à construção da Usina Hidrelétrica, entre 1957 e 1961, pelo então presidente Juscelino Kubitschek com objetivo de regularizar o curso das águas do rio São Francisco nas cheias periódicas e utilizar seu potencial hidrelétrico. Doce Mar de Minas, como é chamado pela população local, tem 21 bilhões de metros de água e 1.040 Km2 de superfície.

Em passeio de barco pelo Lago Três Marias, é possível conhecer a Estação Ecológica de Piratininga, ilha formada em 1960 devido a construção da represa. Única no estado, a estação realiza estudos comparativos das comunidades vegetais, inventários florístico e faunístico, além de desenvolver outros projetos de pesquisa, em convênios com universidades.

Entre seus hóspedes, a estação abriga uma sucuri de 12 metros, uma cobra bico-de-jaca, espécies de jacarés com mais de dois metros e outras 160 espécies de animas que sobrevivem sem intervenção do homem em seu habitat. Às margens do Velho Chico, garças brancas e pardas, patos mergulhões, capivaras, onças, lobos-guarás e veados.

Em toda a região há abundantes cachoeiras, riachos e atividades náuticas, como passeios de barcos e pesca amadora. Além da típica culinária tropeira, o visitante também encontra pratos com peixes como Pacu, Dourado e Surubim e frutos exóticos como o murici, o araticum e o pequi. Na área do Patrimônio Histórico, é possível conhecer casarios e fazendas do século XVIII e XIX.

Em Três Marias, confira também as Cachoeiras do Guará e do Barreirama, e a Estação de Hidrobiologia e Psicultura. Em Pompeu, destaca-se a gruta das Orquídeas, com antigas inscrições nas pedras, e a montanha da Serpente.

Felixlândia tem a sua história marcada pela religiosidade e fé de seus moradores. Em agosto acontece a festa de Nossa Senhora da Piedade com a presença de milhares de fiéis e visitantes de diferentes pontos de Minas. Barraquinhas com comidas típicas e artesanato; shows e desfiles; um passeio ciclístico e uma imensa cavalgada são alguns dos atrativos. Uma procissão encerra o evento na Praça da Matriz, onde está localizada a capela de Nossa Senhora da Piedade, que abriga uma espetacular imagem de Nossa Senhora da Piedade, esculpida por Aleijadinho e recentemente restaurada pela equipe da UFMG.

Abaeté, Biquinhas, Felixlândia, Martinho Campos, Morada Nova de Minas, Paineiras, Pompeu, São Gonçalo do Abaeté e Três Marias, além de serem banhadas pelas águas do lago, possuem outra característica em comum: Todas tiveram sua origem nas fazendas e pousos que abrigaram os tropeiros que transitavam pela região transportando gados e outras mercadorias.

 
Circuito das Grutas
 
Região conhecida como berço da paleontologia brasileira por ter sido ali onde se encontrou o conhecido "Homem de Lagoa Santa", um dos mais antigos ancestrais humanos nas Américas. O Circuito das Grutas reúne 500 das três mil grutas existentes no país, duas mil destas localizadas no estado mineiro. No entanto, de todo o roteiro apenas três grutas estão abertas à visitação. São elas as mais famosas: a da Lapinha, em Lagoa Santa, a Rei do Mato, em Sete Lagoas e Maquiné, em Cordisburgo. As demais, devido a falta de infra-estrutura turística, só podem ser visitadas com a permissão do Ibama e do proprietário, quando em área particular.

O Circuito reúne os municípios de Capim Branco, Confins, Cordisburgo, Funilândia, Inhaúma, Jequitibá, Lagoa Santa, Matozinhos, Paraopeba, Caetanópolis, Pedro Leopoldo, Prudente de Morais, Sete Lagoas e Santana do Pirapama.
 


Vista do Morro da Garça, referência geográfica do sertão.


O sertão retratado por Guimarães Rosa mantém a dimensão complexa e migrante do termo. Grande, fugidio e “sem lugar”, é fortemente marcado pela geografia e clima do cerrado.

A visão de carvoarias e de milhares de hectares de monoculturas de eucalipto lembra que o cerrado e os gerais não são os mesmos encontrados por Guimarães Rosa em 1952.


Em toda a região do Circuito Lago de Três Marias existem abundantes cachoeiras, riachos e atividades náuticas, como passeios de barcos e pesca amadora.




Durante o ciclo do ouro a região sertaneja estabelecia contato com a região costeira civilizada por meio do tropeirismo.