Sob a guarda de Nossa Senhora
 
Nas festas do Rosário, povos brasileiros afro-descendentes encontraram o caminho para a comunhão com seus antepassados. Dissolvida pelo regime escravocrata, a família negra trazida de Moçambique, Angola, do Congo e de outras nações buscou reconstruir sua identidade e cultivar elos por meio de manifestações de fé. O ritual sagrado que se concretiza nas vestes, no canto, na dança e na batida dos tambores ainda hoje une os irmãos do Rosário espalhados pelo Brasil.
 

Reportagem Raquel Coutinho
Fotos Marco Antonio Sá
 
As manifestações folclóricas de devoção a Nossa Senhora do Rosário preservam rica fundamentação mitológica e densa simbologia. Dentre os diversos tipos de rituais, os mais difundidos em Minas Gerais são o congado, a marujada, o moçambique, o catopê, o caboclinho, o vilão e o candombe. A hierarquia rigorosa e o respeito às tradições são elementos marcantes das festas, cujo ciclo se estende durante todo o ano, à exceção do período da quaresma.

Minas Gerais é o estado brasileiro com maior número de grupos, chamados de guardas ou ternos, que foram incorporando, por influência da cultura local, características peculiares. Para o presidente da Comissão Mineira de Folclore, Carlos Felipe Marques Horta, a opulência aurífera do período colonial foi uma das razões que levaram à proliferação das guardas na região. “O grande número de escravos trazidos para trabalhar na extração do ouro fez de Minas terreno fértil para a expansão das festas do Ciclo do Rosário. Os negros tinham acesso a uma parte dessa riqueza, os que lhes permitiu se organizarem melhor e criarem suas próprias irmandades”, explica.

A igreja católica, que tempos depois chegou a proibir a entrada dos congadeiros nas missas, foi uma das primeiras incentivadoras das festas do Rosário, com o objetivo de cristianizar a população negra e impedir divergências étnicas e culturais entre os escravos. O sincretismo religioso revela-se na fusão do culto católico aos costumes, ritmos e práticas africanos. Na década de 1970, a igreja reabriu suas portas aos irmãos do Rosário com a criação da Missa Conga, celebração que foi incorporada à tradição de várias comunidades.


Rosário de lágrimas

Muitas histórias e lendas são representadas no reinado de Nossa Senhora do Rosário, como a luta entre mouros e cristãos. Uma das lendas mais contadas entre os irmãos do Rosário diz que, certa feita, a virgem apareceu sobre as águas do mar. Os caboclos, já catequizados pelos jesuítas, rezaram, dançaram, cantaram e tocaram seus instrumentos na tentativa de fazer com que a santa viesse até eles, sem sucesso. Em seguida, foi a vez de os marujos tentarem o mesmo, mas ela permaneceu no mesmo lugar. Finalmente, quando os negros, ou catopês, foram até a praia e louvaram Nossa Senhora do Rosário, a ‘protetora dos pretos’ atendeu ao chamado e foi até eles.

Muitas irmandades, como a do Serro, representam essa lenda. Antes da procissão, os caboclos entram na igreja tocando seus instrumentos e louvando a virgem para tentar tirá-la de lá. Logo depois, os marujos fazem o mesmo. Após as duas tentativas, os catopês conseguem retirar Nossa Senhora do altar e a carregam durante a procissão. Algumas comunidades contam ainda que, quando os escravos negros eram surrados pelos senhores no tronco, a virgem chorava. No local onde caíram suas lágrimas teria nascido um pé de flor, de onde brotaram as contas que formam o rosário.

Mas a devoção das guardas não se restringe a uma única divindade. Outros santos são também homenageados nas músicas e representações, como os pretos São Benedito e Santa Efigênia, além de São Francisco de Assis, Santo Antônio de Pádua, São José e as nossas senhoras da Boa Viagem, da Piedade e do Bom Sucesso.


Compromisso

Muitos irmãos do Rosário rejeitam a classificação dos rituais de devoção como folclore, entendendo-os estritamente como expressões religiosas. “Tratam-se, no entanto, de criações do povo. Manifestações de religiosidade popular fazem parte do amplo universo do folclore”, esclarece Carlos Felipe.

A responsabilidade por zelar pela tradição é levada a sério. O congado tem sua batida e seus cânticos, que devem ser cantados em seu devido lugar e no tempo certo. A devoção passada de pai para filho exige iniciação. A sobrevivência dos rituais depende, portanto, do interesse das novas gerações por cultivarem suas raízes.

Fruto da fragmentação progressiva, o rito desdobrou-se em diferentes formas de expressão. A mais generalizada representa um cortejo real, com desfile, danças, cantigas e levantamento de mastro. Os personagens representados variam de acordo com a irmandade — rei e rainha Congo, príncipes e princesas, catopês, dançantes, marujos, caboclos, capitães e outros. Cada um tem sua obrigação.

As vestes são coloridas e enfeitadas. Os marujos trajam roupas que lembram marinheiros. Os moçambiques usam fitas entrelaçadas sobre o peito, chapéus adornados com espelhos e vidros e, nos tornozelos, amarram guisos ou latinhas cheias de pedras que marcam o ritmo quando dançam. Catopês e caboclinhos vestem roupas semelhantes às dos índios, com saiotes e chapéus enfeitados com penas.

A hierarquia é sempre respeitada. Nossa Senhora do Rosário é a autoridade maior. O capitão regente, conhecedor dos saberes religiosos, mantém a ordem e a disciplina da guarda. Reis, rainhas, príncipes e princesas são, em geral, pessoas respeitadas na comunidade, a quem os ternos prestam homenagens e reverenciam com cortejos, danças cânticos e coroações.

Os dançantes, também chamados soldados ou brincadores, são a base do terno, atuando também como caixeiros, sanfoneiros, violonistas e cantadores. Os irmãos devem estar sempre presentes, freqüentar a missa e saber rezar o rosário. Evoluir dentro da irmandade depende do compromisso, do interesse, do respeito e da participação de cada um.

Santa Bárbara, Ouro Preto, Serro, Conceição do Mato Dentro, Diamantina, São João del-Rei, Sabará, Curvelo, Uberlândia, Oliveira e Contagem são cidades que abrigam guardas tradicionais. No Vale do São Francisco, sobrevive o catopê e na Serra do Cipó, a 120 quilômetros da capital, o candombe resiste com vivacidade.


Ciclo do Rosário

Em outubro a igreja católica homenageia Nossa Senhora do Rosário. Por isso, o mês tornou-se um dos mais movimentados para o congado, assim como maio, quando se celebra a assunção de Nossa Senhora e é comemorada a abolição da escravatura. Em muitas comunidades, o ano litúrgico começa no sábado de Aleluia, data em que é aberto o Ciclo do Rosário. A partir desse momento, a irmandade tem licença para festejar. As celebrações costumam se estender até o final de outubro, quando, então, recolhem-se novamente.

A bandeira hasteada anuncia a proximidade da festa. Desde o tempo da escravidão, tropeiros e viajantes ajudavam a espalhar a notícia quando avistavam a bandeira de aviso, com a imagem do principal santo de devoção da irmandade. O mastro permanece levantado por alguns dias, enquanto acontecem reuniões para rezar o rosário e os pagadores de promessas cumprem seus compromissos.

Há sempre um almoço para a comunhão entre os irmãos do Rosário. Seguem-se, então, os festejos, as danças, os cantos, os cortejos e as coroações. Em muitas comunidades, a missa conga é celebrada em frente à igreja. Com infinitas variações, essa costuma ser a programação geral da festa.


Resistência

Para desestruturar os grupos étnicos de origem e evitar conspirações, os donos de escravos compravam africanos de línguas e origens diversas. Mas esses povos, companheiros na luta pela sobrevivência, encontravam formas de se comunicar e criavam dialetos. Muitas guardas se formavam quando membros de uma mesma tribo conseguiam se reunir.

Um dos mais primários rituais do ciclo do Rosário, que só existe em Minas Gerais, o candombe lembra antepassados e preserva mistérios. Os três tambores que marcam o ritmo — santana, santaninha e chama —devem ser escavados no próprio tronco da madeira. Milton Nascimento, em seu disco Tambores de Minas, exalta as belezas do candombe, do congado e das demais expressões de religiosidade negra celebradas no estado.

Em todas as manifestações folclóricas afro-brasileiras predominam os instrumentos de percussão. Sua manufatura demanda conhecimentos técnicos e utiliza materiais simples, como taquaras, cabaças e sementes. A vibração dos chocalhos, caixas, tambores e guisos produz um som forte e contagiante.
 

Futuro incerto

É justamente na tradição oral do reinado de Nossa Senhora do Rosário que reside uma de suas maiores ameaças. Além da necessidade de despertar o interesse e a curiosidade dos jovens para que os rituais não morram com as pessoas mais velhas, Carlos Felipe aponta a proliferação das igrejas evangélicas como obstáculo para a perenidade do ciclo. “Quando se convertem, os congadeiros são obrigados a deixar as irmandades. Obviamente, há aspectos positivos na atuação dessas instituições religiosas, como o estímulo ao abandono de vícios e a alfabetização das pessoas para que leiam a bíblia, mas a massificação da cultura é sempre uma grande perda”, acredita.

Uma possível alternativa para a perpetuação das festas do Rosário é seu aproveitamento turístico. No entanto, para consolidar os rituais como atrativos, seria necessário superar empecilhos e evitar o turismo depredatório. Carlos Felipe lembra que o congado e as demais manifestações não são estáticos, como um monumento ou uma cachoeira. “Se procurarem as irmandades em maio, facilmente os visitantes terão a oportunidade de conhecer um pouco do ciclo do Rosário. Mas é difícil precisar as datas em que as festas serão celebradas ao longo do ano”, diz.

Não existem calendários disponíveis para consulta e muitas comunidades são resistentes à idéia de que seus cultos possam ser aproveitados turisticamente. A não aceitação do ritual como folclore demonstra o respeito e seriedade com que os irmãos do Rosário preservam suas tradições. Obviamente, a idéia não é ‘cobrar ingresso’, mas gerar renda por meio do fomento à economia local, com a comercialização de produtos e serviços associados às festas.

Para José Bonifácio da Luz — presidente da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Contagem, da comunidade negra dos Arturos (veja quadro nesta reportagem) —, essa prática desvirtuaria o ritual. “Temos muita alegria em receber pessoas de fora, mas a fé não pode ficar em segundo plano. Se houver ambição, corremos o risco de perder a essência do congado”, acredita.

O turismo, nesse caso, esbarra em problemas de ordem prática e ideológica. A beleza das festas não é facilmente percebida por qualquer pessoa. Há que se ter conhecimento e sensibilidade para apreciar os significados expressos nos rituais. Apesar da simplicidade das pessoas, da indumentária e das instalações, a riqueza histórica e cultural do ciclo do Rosário é verdadeiramente admirável.



O congado tem sua batida e seus cânticos, que devem ser cantados em seu devido lugar e no tempo certo. A devoção passada de pai para filho exige iniciação.


Manifestações de religiosidade popular fazem parte do amplo universo do folclore.

A sobrevivência dos rituais do congado depende do interesse das novas gerações por cultivarem suas raízes.


Os personagens representados variam de acordo com a irmandade — rei e rainha Congo, príncipes e princesas, catopês, dançantes, marujos, caboclos e capitães.

Santa Bárbara, Ouro Preto, Serro, Conceição do Mato Dentro, Diamantina, São João del-Rei, Sabará, Curvelo, Uberlândia, Oliveira e Contagem são cidades que abrigam guardas tradicionais.



Nobreza escrava de Chico Rei: os dançantes, também chamados soldados ou brincadores, são a base do terno, atuando também como caixeiros, sanfoneiros, violonistas e cantadores.


Filhos de Arthur: a comunidade negra dos Arturos conserva as festas do moçambique e do congado.