Construir a vida como uma obra de arte

Por Euclides Guimarães

 
De três décadas para cá a história tomou rumos inusitados. Sem deixar de ser modernos, fomo-nos tornando pós. Sem abandonar aquilo que uma vida moderna nos cobra, como a eficiência profissional, o raciocínio pragmático, a obediência ao cronômetro, o relógio de ponto, o uniforme escolar, o afã pela inovação tecnológica, o consumismo, o monetarismo, o custo/benefício, a poluição, o trânsito, o apartamento, o automóvel, a viagem de férias, a vida noturna e tantos outros hábitos tipicamente modernos, passamos também a viver num mundo high tech, de internet e namoros virtuais, de avatares e esportes radicais, de raves e corpos tatuados, de fugacidade, parques temáticos e imagens holográficas, de telas onde antes haviam janelas, de grandes hipermercados e shoppings, de ilusões e desilusões instantâneas, bairros murados e cercas elétricas, de identidades fragmentadas e da impossibilidade da fixação de hábitos, dado o frenesi das mudanças tecnológicas, logísticas e ambientais. Viver em tempos assim já é por si só uma arte.
 
É certo que a modernidade nos disciplina a ser racionais, mas à medida que os eflúvios da pós-modernidade se apresentam, também somos induzidos a extrapolar a razão para transitar pelo campo da sedução e da estética. A pós-modernidade é, sobretudo, um “estado de espírito” e, como tal, não anula e nem conspira contra a modernidade, pelo menos não tanto quanto se acopla a ela. Pautado pela relativização de tudo o que outrora fora absoluto, inclusive os valores morais, esse estado de espírito introduz uma série de sutilezas na maneira como cada indivíduo é levado a construir sua identidade e seus próprios valores. Entre elas se destaca um imenso cardápio de símbolos nem sempre claramente explicáveis, mas sempre esteticamente identificáveis. Isso quer dizer que, até por uma questão de ética, o homem contemporâneo é levado a ser estético.
 
O lugar da arte na vida é profundamente alterado por esse quadro. Tudo passa pelo requisito estilo. O bem viver, a realização pessoal e o que, por aproximação, aprendeu-se a entender como “felicidade”, revela-se pelo caminho do estilo. Cada indivíduo torna-se assim o que seu corpo, sua indumentária, seus adornos e inscrições dizem. É a própria vida que deverá ser construída como uma obra de arte. Dessa forma, a questão cultural central de nosso tempo não se refere à arte contemporânea, mas sim à contemporaneidade da arte.
 
Vivemos numa civilização das imagens onde nada faz mais sentido que uma experiência estética intensa. Esta por sua vez, pode estar associada a uma nação da mesma forma que a uma marca ou a uma visão de mundo, qualquer coisa pode se tornar objeto de culto, desde que possa ganhar uma versão espetacular. Entre as ruas e as telas uma floresta sígnica se instaura, fazendo da visibilidade a forma elementar do estar no mundo.
 
Em um tempo assim, além da diversidade de estímulos, pesa sobre o indivíduo toda a responsabilidade sobre o que ele faz de si mesmo. O homem moderno é um produto de suas escolhas, de forma que seu sucesso, assim como seu fracasso, é de sua exclusiva responsabilidade. Tornado inelutavelmente consumidor, elevado ao mais alto grau de autonomia, ele se vê, no entanto, desamparado. Concomitantemente livre e inseguro, porque abandonado à sua própria sorte, ele compensa o desamparo cercando-se de anteparos. E se vê, enquanto também tende a ser visto, através do que aos anteparos se agrega. Variando entre modelos, pelos recursos que oferecem, por serem mais ou menos novos, esses anteparos já dizem muito sobre a posição social e o requinte de seu portador, mas os símbolos, imagens e marcas que trazem são rumores identitários dos tempos estetizados em que vivemos. Tudo isso perfaz uma gama de indicadores que cada um deverá interpretar para se localizar no mundo. O localizar-se em si já se faz com o uso de ferramentas estéticas.
 
Entre tantos badulaques, considere-se ainda os novos sentidos do corpo, o qual carrega, em um só tempo, a responsabilidade e a identidade. O corpo sarado, mantido jovem e vigoroso, mostra o zelo de quem sabe cuidar de si mesmo. As tatuagens, os adornos, as vestimentas, são as pompas de quem se quer um vencedor, um tipo que sabe lidar com os desafios e colher as oportunidades que a vida oferece.
 
Os sucessos almejados que emprestam sentidos a uma vida típica desses primórdios de século, convidam a ingressar em correntes de estilo, a consumir os padrões estéticos difundidos pelas grandes marcas, mas ao homem criado nesse meio não satisfaz manter-se apenas como um igual. Em busca da diferença ele imprime seus modos particulares de combinar os inúmeros itens do grande catálogo, customizando-se e fazendo de si mesmo a tela de sua subjetividade.
 
Houve um tempo em que a teoria social alertava para o fato de que a modernidade traz consigo uma espécie de “toque de Midas”: qualquer coisa, para ser valorizada, deve antes se converter em mercadoria. Na civilização das imagens, sucessora cronológica da era moderna, um novo Midas, também chegado ao ouro, porém muito mais fashion, estaria a estilizar tudo aquilo em que toca.
 
A arte então invade todos os lugares, os ambientes, os objetos, os corpos, as roupas, como que a dizer a cada instante que nesse mundo fugaz, a maior obra de arte que cada indivíduo é convocado a realizar é mesmo a própria vida. 
 
Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC-MG.





"Na civilização das imagens, sucessora cronológica da era moderna, um novo Midas, também chegado ao ouro, porém muito mais fashion, estaria a estilizar tudo aquilo em que toca."