Boa música a bordo

O PROA é um trio mineiro que navega do punk à surf-music sem deixar entrar água no barco.
 

Por Maria Lutterbach
Fotos Paula Fortuna
 
Existem certas músicas que parecem estar coladas na memória de forma irreversível, ainda que a gente não saiba bem quando e por que justamente aquelas canções ficaram impregnadas na nossa cabeça. Assistir a um show do PROA é mais ou menos como sintonizar uma espécie de “rádio afetiva” e escutar, uma depois da outra, essas faixas especiais guardadas em algum lugar do nosso winchester. Clássicos como Brahms, hits de desenho animado e irreverência de circo são matéria-prima para as bricolagens instrumentais que a banda belo-horizontina vem fazendo desde 2005.
 
Tudo começou com traquinagens em estúdio, quando os integrantes e comparsas de longa data Daniel Saavedra (guitarra), Trotta (bateria) e Rodrigo Araújo  (baixo) começaram a arriscar invenções com todo tipo de música: desde baladas de motel até vinhetas de televisão e trilhas de filme. “Entra tudo que passa pelo nosso imaginário musical. A gente pega temas e inventa músicas em cima disso. Então são versões ‘novas’, mas todo mundo reconhece as citações”, explica Trotta.

 
Trupe anfitriã dos palcos  
 
O trio, que já foi quarteto, com o guitarrista Danilo Miranda e recentemente voltou à formação original, é uma trupe anfitriã dos palcos. Versados nos mais variados estilos, os amigos convidados a tocar com eles ajudam a reforçar a versatilidade do grupo. Citara e bandolim com Gabriel Guedes, teclados com Alexei Michailowsky, trombone com Alécio Martins, ou vocais com a dupla Cat Rena e Belle Baguette. Contribuições que fazem o som ganhar texturas para além do que sugere a sigla PROA. A saber, Punk Rock Oldies e Afins é uma piada sobre flyers do bar A Obra, reduto de bandas alternativas onde os integrantes já se sentiam em casa bem antes de subirem ao palco.

Se existe um inegável eixo punk-rock-surf-music na música do PROA, a este são agregados, sem cerimônias, ritmos e timbres tão diversos que desobrigam a banda de pertencer a qualquer seara limitada. Pelo contrário, o grupo se sente confortável para assumir rótulos temporários que se adequam a cada ocasião. “A gente pode ser surf music pra tocar no Campeonato de Surf (festival dedicado à surf music promovido há oito anos pela Obra) e instrumental pra tocar no Claro que é Jazz”, simplifica Trotta.

Com uma pegada que não bebe nos nichos de sucesso da música feita em Belo Horizonte – como os veteranos do Clube da Esquina e avalanches pop da escala do Skank e Pato Fu – o grupo foi acolhido como uma ótima novidade no cenário musical da cidade. Junto com outras boas surpresas, como o grupo de folk-rock The Dead Lover’s Twisted Heart, o PROA faz parte de uma safra musical despretensiosa que mostra frescor e um punhado de ousadia estética.  

 
Música de Perseguição e Picadeiro
 
No caso do PROA, isso pode ser conferido tanto nas divertidas performances ao vivo quanto no CD Música de Perseguição e Picadeiro. Com dez faixas, o disco traz tanto as versões para temas conhecidos quanto algumas composições totalmente originais, como Periquitaranha e Nossa Cara, que podem ser ouvidas na comunidade virtual MySpace - www.myspace.com/proabrasil.

Para divulgar o CD, produzido em escala artesanal, o grupo encarou no ano passado ondas além-Minas, quando se lançou na intitulada World Freak Tour. Uma grana arrecadada a partir de uma rifa entre amigos foi o pretexto para o grupo fazer um roteiro de shows que incluiu São Paulo, Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre. A empreitada está registrada no blog www.diariodeproa.blogspot.com, que continua sendo atualizado com as últimas peripécias do trio.

Por hora, o PROA mantém a forma mostrando novidades em um repertório novo que acaba de estrear no Oitavo Primeiro Campeonato Mineiro de Surf, realizado em março em Belo Horizonte. De tão improvável, o festival, depois de tantas edições, mantém por ironia o “primeiro” no nome. As músicas novas também serão mostradas no projeto Stereoteca de 2008, que mais uma vez traz o PROA na programação.

 
Outros Rumos
 
Também para o Stereoteca, está previsto o lançamento de uma coletânea produzida pelo guitarrista Daniel Saavedra. Além do PROA, o disco vai reunir artistas já conhecidos que trabalham com Saavedra, como a cantora Érika Machado, e nomes tão inusitados quanto Pastor Josias, evangélico que faz funk carioca (!). “A coletânea é uma tentativa de fortificar uma investida em gravadoras e distribuidoras fora de BH, para dar mais visibilidade para todos”, conta o produtor, que toca o projeto do seu próprio estúdio, Indiada Magneto.

Foi lá que o guitarrista, apontado como um dos músicos mais talentosos da atual cena mineira, produziu também trabalhos seus que foram selecionados pelo Rumos Itaú Cultural deste ano. Na categoria Mapeamento, que contempla gravações de artistas e grupos independentes, ele foi premiado pela produção dos discos No Cimento, de Érika Machado, e Coletivo Universal, da banda de mesmo nome. Já na categoria Homenagem, foi selecionado pelos remixes de músicas de Itamar Assumpção e do rapper Sabotage. Ainda neste ano, Saavedra apresenta os trabalhos premiados em um show em Fortaleza.