Para sempre na memória

Os dois maiores acervos do artista mineiro Amilcar de Castro estiveram expostos na Casa Fiat de Cultura e nas praças da Liberdade e JK, em Belo Horizonte, numa mostra memorável.


Por Cacaio Six
Fotos Henry Yu
 
Um mais importantes artistas plásticos brasileiros de todos os tempos foi contemplado com uma belíssima exposição em Belo Horizonte, que deu início ao calendário das atividades de 2008 da Casa Fiat de Cultura, localizada no Bairro Belvedere, em Nova Lima (MG).

Os dois maiores acervos de Amilcar de Casto (1920/2002), mineiro de Paraisópolis, foram vistos — no período de 28 de março  a 25 de maio — por um público estimado em milhares de pessoas. As obras pertencem à Coleção Márcio Teixeira (Dom Silvério-MG) e ao Instituto Amilcar de Castro (Nova Lima-MG), criado em 2004 pela família do artista. A seleção das peças ficou sob a responsabilidade de um comitê curatorial formado por Sérgio Rodrigo Reis, Márcio Teixeira e Rodrigo de Castro, com consultoria de Allen Roscoe e projeto expográfico de Vasco Caldeira.

Além das 150 peças de Amílcar — sendo que 80 trabalhos ainda permaneciam inéditos aos olhos do público —, espetacularmente expostas na Casa Fiat, a mostra foi ampliada para dois importantes espaços públicos da capital mineira. A Praça da Liberdade recebeu 17 obras e a Praça JK outras 13, uma providência que serviu “para ampliar a interação dos mineiros com a ‘linguagem’ de um de seus mais importantes artistas”, conforme comunicou a Casa Fiat de Culura.

 
Empolgação
 
A instituição acertou em cheio, pois a grandiosa beleza do trabalho de Amilcar de Castro solenemente exposto nas praças inegavelmente empolgou o público. “Eu fiquei encantada porque as obras de arte embelezaram a Praça da Liberdade de uma forma muito especial. Houve uma interação de grande intensidade entre as obras e a arquitetura da praça” diagnosticou a estudante Júlia Amaral, do alto dos seus 17 anos.

“Amilcar de Castro foi um artista universal e uma exposição desta estirpe, no meio da praça pública, remete BH ao primeiro mundo”, afirmou o médico aposentado Nazir Jabber. Para a professora Judith Mafra, 45 anos, é “fundamental” levar arte ao povo. “Tenho certeza de que um grande número de pessoas passou a admirar um artista tão genial, um mineiro que trabalhou e viveu aqui”. Já a empresária Cláudia Nogueira, de 32 anos, foi motivada a pesquisar sobre a obra de Amilcar depois de ficar “uns cinco dias seguidos” apreciando as peças na Praça JK: “Apesar de gostar de arte, confesso que não prestava atenção no trabalho dele, mas agora quero saber o máximo que puder sobre a trajetória desse grande artista”. As “formas geométricas” da obra de Amilcar encantou Beatriz Cardoso Guimarães, de 73 anos, frequentadora assídua da Praça da Liberdade: “A praça ganhou um colorido diferente, a exposição ficou muito interessante e a iniciativa foi de grande originalidade”.

 
Valorização da brasilidade
 
Para José Eduardo de Lima Pereira, presidente da Casa Fiat de Cultura, Amilcar de Castro é um grande representante da criação artística brasileira, dotado de reconhecimento internacional. “Depois de fazer duas exposições de temáticas italianas, assumimos outra vertente de trabalho, que é a valorização da brasilidade”, afirma.

Foram exibidos na Casa Fiat de Cultura esculturas em aço de corte, corte e dobra e dobra, além de desenhos. Também estiveram expostas — pela primeira vez no Brasil — a coleção de redondas (com 36 peças e 16 esculturas) de corte em madeira.

Outra estréia, uma grande novidade em uma exposição de Amilcar, foi a exposição do conjunto de quatro portais de 4,80 m de altura. Para o pintor Rodrigo de Castro, filho do artista, foi importante dar visibilidade à obra do pai. “Foi uma oportunidade para as pessoas reverem o trabalho dele”.

 
Na praça pública
 
Dois cubos de aço em grande dimensão, cada um pesando cerca de nove toneladas, estiveram na Praça da Liberdade. Outras 11 esculturas de corte, representando variações do percurso de Amilcar de Cstro durante sua trajetória artística, foram dispostas no canteiro central da praça. Produzidas a partir do final dos anos 90, elas  exemplificam o uso da massa escultórica, num encontro com a técnica mais tradicional da linguagem tridimensional. Das 13 peças, oito foram mostradas pela primeira vez.

Já a Praça JK — que fica no Barirro Sion — recebeu 17 obras de dobra e corte e dobra, sendo seis delas inéditas. Destaque para a apresentação de variantes dos três portais exibidos no interior da Casa Fiat. Na praça, foram expostos quatro portais verticais de 2,4m x 4,8m, bem como um maciço portal de 4,5m x 4,5m. Algumas de suas peças mais conhecidas, todas em grandes dimensões, a exemplo do “Prêmio Museu de Belas Artes” e do “Cavalo”, também estiveram no local.

Assim que terminou a exposição na Casa Fiat de Cultura, as peças da Coleção Márcio Teixeira foram transferidas em definitivo para a cidade mineira de Dom Silvério, terra do colecionador, para um museu a céu aberto que já está em fase de implantação.

Considerado um dos mais importantes escultores brasileiros do século 20, Amilcar de Castro sempre se destacou pela objetividade com que transformava em arte a férrea matéria-prima das Minas Gerais. “O primeiro impulso é objetivo. O segundo é adjetivo”, dizia o artista acerca de seu processo de criação.
 
 
Vida e obra de Amilcar de Castro
 
Mineiro de Paraisópolis, no Sul de Minas Gerais, Amilcar de Castro nasceu no dia 8 de junho de 1920. Em 1940, mudou-se para Belo Horizonte, onde ingressou no curso de Direito. Antes de concluir a graduação, tornou-se aluno de Guignard (1896-1962), no curso livre de desenho e pintura. Pouco depois, iniciou os estudos em escultura com o austríaco naturalizado brasileiro Franz Weissmann (1911-2005). Em 1952, casou-se com Dorcília Caldeira Garcia, com quem teve três filhos: Rodrigo, Ana e Pedro.

Também em 1952, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Naquele ano, criou a primeira escultura, de cobre, inspirando-se na Unidade Tripartida, trabalho do artista suíço Max Bill. A obra foi selecionada, no ano seguinte, para a 2ª Bienal de São Paulo. Por indicação do amigo Otto Lara Resende, iniciou carreira de diagramador e programador visual na revista Manchete, em 1956, deixando de lado a advocacia. Já a reforma gráfica para o Jornal do Brasil, realizada de 1957 a 1961, tornou-o referência na área.

Amilcar de Castro assinou, em 1959, o Manifesto Neoconcreto, documento redigido por Ferreira Gullar, ao lado de Cláudio Mello e Souza, Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim, Theon Spanudis e Franz Weissmann.

No final da década de 1960, após ganhar o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro no 16º Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro e a Bolsa Guggenheim, mudou-se com a família para os Estados Unidos, onde ficou até 1971. O artista virou referência para os artistas brasileiros, especialmente para seus alunos na Escola Guignard, em Belo Horizonte, para onde retornou em 1972.

Em Minas, começou a lecionar na Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP), depois na Escola Guignard da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), onde foi diretor de 1974 a 1977. Após esse período, tornou-se professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Fez a primeira exposição individual no Brasil, na Galeria de Artes Gráficas, em São Paulo, em 1978, onde apresentou uma série de nanquins. Dois anos depois, instalou-se no ateliê no mezanino da Papelaria Carol, na Rua Goiás, região central da capital mineira. O local, nas próximas duas décadas, tornou-se referência em arte contemporânea no Estado. Naquele ano, também apresentou, na Gesto Gráfico Galeria de Arte, sua primeira mostra individual de esculturas no país.

Em 1988, inaugurou a escultura em frente à Assembléia Legislativa de Minas Gerais, uma de suas mais conhecidas e importantes obras públicas, que se tornou símbolo da luta popular. Ainda naquele ano, iniciou a produção de gravura na Oficina Cinco, em Belo Horizonte. Um ano depois, no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, ganhou sua primeira retrospectiva.

Aos 70 anos, Amilcar de Castro aposentou-se como professor da Escola de Belas Artes da UFMG e passou a se dedicar mais à obra artística. Em 1999, abriu importante exposição no Centro de Arte Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro. No dia 21 de abril de 2001, inaugurou amplo ateliê na região de Nova Lima. Com vasta obra, reconhecida no meio artístico do Brasil e do exterior, Amilcar de Castro morreu em 2002.

Três anos após sua morte, foi realizada a primeira exposição internacional do artista, em Paris, dentro da programação do Ano do Brasil na França. Também em 2005, sua obra e seu legado artístico foram lembrados em Porto Alegre, na maior retrospectiva até então já realizada, durante a Quinta Bienal do Mercosul. Em 2008, na capital mineira, a Casa Fiat de Cultura inaugurou a maior exposição de esculturas da obra de Amilcar de Castro.



Retrato de Amilcar de Castro.



Obras na Praça da Liberdade e na Praça JK.