110 anos de transformações

Reportagem Neide Magalhães
Fotos Henry Yu
 
Fundada em fins do século 19, resultado de um arrojado projeto de arquitetura e engenharia, a capital mineira é hoje um dos centros urbanos mais importantes do Brasil, com seus mais de dois milhões de habitantes. Dos primeiros anos de sua história aos dias atuais, BH, como a chamamos, é sinônimo de desenvolvimento, com seus desafios cotidianos e sua vocação para a modernidade.


Cento e dez anos depois de sua construção, Belo Horizonte lembra muito pouco aqueles retratos de início do século 20, quando a nova capital exibia as formas de uma cidade planejada em cada detalhe, com sua avenida principal, a bela Afonso Pena, cortando o Centro com suas pistas arrojadas e suas inúmeras árvores fazendo jus à fama do clima ameno da região.

Conhecida por sua qualidade de vida e pela hospitalidade de seu povo, ainda guarda alguns traços dos tempos de sua construção, descobertos aqui e ali, preservados em meio à crescente modernização arquitetônica. Edifícios altos e arrojados dividem o cenário com prédios antigos e casas amplas, que aos poucos vão dando lugar a novas construções verticais, pautadas pela necessidade de se oferecer espaços habitados cada vez mais sofisticados.

A história desta capital estrategicamente localizada no centro do Brasil, entre Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, e servida da infra-estrutura de que uma sede de estado moderna e borbulhante demanda, foi se construindo sem atropelos. E viu, década após década, as mudanças chegarem, carregadas pelas tramas indeléveis do tempo, o dono absoluto da história.

 
Exuberância
 
Criada para ser a capital de Minas Gerais, sucedendo a então todo-poderosa Ouro Preto, que enfrentava problemas com o crescimento desordenado de sua população, Belo Horizonte nasceu cercada pelas montanhas da Serra do Curral, por matas verdes e riachos, emoldurada por uma exuberância natural que chamou a atenção da comissão encarregada de escolher a nova sede do governo mineiro.

Às vésperas do fim do século 19, o pequeno povoado de Curral del-Rei, que surgiu por volta de 1750, deu lugar a um campo de obras frenéticas, que resultaram em avenidas largas, arborizadas, casas e edifícios estilizados. Encarregado de criar a primeira cidade brasileira devidamente planejada, o engenheiro Aarão Reis a desenhou para ocupar um espaço definido, demarcado por uma avenida que a contorna, e para abrigar 200 mil pessoas em seu auge demográfico.

Tomando como modelos metrópoles mundiais como a capital norte-americana, Washington, e a francesa, Paris, e inspirados em uma arquitetura moderna, os construtores de Belo Horizonte não se fizeram de rogados e capricharam em todos os quesitos. Logo, a cidade se transformou em um centro de convergência e foi crescendo a olhos vistos.

É dessa época a construção da Praça da Liberdade, sede do governo estadual, com os prédios do Palácio da Liberdade e as imponentes secretarias, de formas ecléticas, com destaque para o estilo neoclássico. Hoje, a mesma praça — que teve o Palácio de Versailles, na França, como referência para seus jardins, fontes e caminhos — abriga símbolos daqueles tempos e prédios modernos, de diferentes estilos e escolas (confira em Belo Horizonte Adentro).  
 

Vida social
 
Fundada em 12 de dezembro de 1897, nos primeiros anos BH cresceu a passos lentos, vivendo basicamente do comércio e das poucas indústrias que aqui se instalaram. A vida social também carecia de mais atividades e o contraste entre as ruas e avenidas largas e vazias se fazia sentir em larga escala.

Foi somente nos anos 1910 que a cidade ganhou um novo rumo, com a retomada de obras inacabadas, o aparecimento de mais fábricas e a expansão do transporte coletivo, com o bonde chegando a novas regiões. A preocupação com a necessidade de se criar mais praças e jardins e arborizar seus espaços também deu à capital um atrativo a mais.

Na década seguinte, BH já era conhecida como Cidade-Jardim, título que ganhou por somar a paisagem urbana marcada pelo verde à moldura natural, cercada de belas montanhas. A população cresceu, foi construído o Teatro Municipal, salas de cinema surgiram e a vida em sociedade foi ganhando os contornos mais definidos.

Foi a época em que também surgiu uma leva de intelectuais modernistas que transformaram o cenário. Cyro dos Anjos, Carlos Drummond de Andrade, Milton Campos, Emílio Moura e Pedro Nava foram alguns desses jovens escritores que se inspiraram na então pacata capital para construir suas crônicas, poesias, romances e memórias.

O advento da Primeira Guerra Mundial (1914-18), na distante Europa, também respondeu pelo novo impulso desenvolvimentista no período posterior, com a ampliação de serviços urbanos e a construção de novos prédios, como a Igreja-Matriz da Boa Viagem, o Mercado Municipal e o Viaduto de Santa Tereza, um marco arquitetônico do período, com seus arcos e suas luminárias, hoje patrimônio histórico ao lado de outras importantes obras tombadas.

Os anos 1930 seguiram essa trajetória, vendo aparecer novos bairros (Lourdes, Sagrada Família, Barreiro, Gameleira são alguns deles). Essa expansão a largos passos também fez surgirem as primeiras favelas. E novas construções imponentes iam dando o formato futurista ao Centro da cidade, como o Cine Theatro Brasil, em art déco, uma das maiores salas de entretenimento do país e da América Latina, que durante 74 anos foi palco de estréias cinematográficas. Fechado em 1999 e tombado como patrimônio histórico municipal, o antigo cinema, que fica bem no coração da cidade, na Praça Sete, vai se transformar em um moderno conjunto cultural revitalizado, com inauguração prevista para o fim de 2008.

 
Anos JK
 
O impulso modernista continuou até que a década de 1940 trouxe ares ainda mais determinantes para que o seria a BH dos anos seguintes. Sob a égide do governo do então prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, um político de olho no futuro e com ambições muito claras de chegar ao Governo do Estado e à Presidência da República, cargos que ocupou mais tarde, a capital mineira deixou para trás a imagem de um centro urbano interiorano para se tornar em sinônimo da arquitetura moderna.

Essa ousadia política está refletida nas formas arredondadas da Igreja de São Francisco de Assis, um dos prédios do projeto criado, por encomenda de JK, pelo arquiteto carioca Oscar Niemeyer (confira em Belo Horizonte Adentro).

Os anos dourados no Brasil, como é conhecida a década de 1950, foram férteis também para a já cinqüentenária capital mineira. As indústrias se multiplicaram e novos bairros, como o Sion, nasceram dessa expansão demográfica. A cidade já tinha 700 mil habitantes e enfrentava os primeiros sinais do crescimento desordenado. Começaram, então, a aparecer edifícios mais altos, como os na Praça Sete e o Edifício JK, contrastando a art déco de 1930-40 com as linhas mais simples e arredondadas das sedes dos bancos, construídas com esquadrias metálicas, pastilhas e muitos vidros.  

Os dez anos seguintes também seriam tempos de crescimento e modernização, apesar de terem custado a destruição de algumas construções antigas, que deram lugar a mais arranha-céus espalhados pela cidade. O progresso falou mais alto, o que logo fez nascer problemas comuns a todas as metrópoles, como o trânsito caótico, a diminuição dos espaços verdes e o aumento da poluição. Com um milhão de habitantes nos anos 1970, era preciso reordenar a capital, refrear a lógica da modernidade que passava por cima da história como um trator desbravando terras.

 
Vocação verde
 
Os anos 1980, decisivos para o futuro político do Brasil, também moldaram Belo Horizonte, dando espaço para o debate dos problemas mais emergentes que poderiam se tornar insolúveis em pouco tempo. Era preciso continuar crescendo sem perder o contato com a matriz geradora do planejamento, da boa convivência, do progresso ordenado e democrático.

Vêm daí projetos de reorganização urbana, de valorização das áreas verdes, da criação de parques — como o das Mangabeiras, inaugurado em 1983, com mais de 2,3 milhões de metros quadrados —, de melhorias em avenidas, praças e jardins. Da mudança no realinhamento do transporte urbano, do início da implantação do metrô, dos primeiros projetos de despoluição da Lagoa da Pampulha, ao movimento político que ocupou as ruas e praças, a cidade deu um salto em todos os sentidos, deixando o provincianismo para trás.

Viu florescer sua vocação cultural, com o amadurecimento de grupos produtores de arte, como o Corpo e o Giramundo, ao lado de novos movimentos e de companhias teatrais como o Galpão. Seja nas artes plásticas, na música, na arquitetura, na dança, no teatro, BH sempre foi palco de artistas e espetáculos que fizeram dela um dos centros de difusão cultural mais importantes do Brasil (confira em Belo Horizonte Cultura).

Já no novo século, vem passando por importantes obras estruturais, como o Boulevard Arrudas, que canalizou parte do ribeirão que corta a cidade; a revitalização da Praça da Estação, onde está o novo Museu de Artes e Ofícios; a Linha Verde, que liga o Centro ao Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins; a duplicação da Avenida Antônio Carlos, um dos principais corredores de trânsito da capital; e a expansão do metrô.

Ultrapassou em mais de mil porcento a expectativa da população e hoje abriga mais de 2,4 milhões de pessoas, ocupando o quinto lugar entre as capitais mais populosas do Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Fortaleza são as quatro primeiras), é a terceira maior região metropolitana do país, com seus mais de 5 milhões de habitantes (atrás de São Paulo e Rio de Janeiro), e a terceira em importância sócio-econômica.

A Belo Horizonte de hoje enfrenta os desafios característicos do século 21, com a busca por soluções no espaço urbano, seja em matéria de transporte coletivo, com os projetos do metrô e das novas vias de acesso, seja em questões de segurança, com a implantação da Guarda Municipal, e de moradia, com a urbanização de favelas e a necessidade de se levar o saneamento básico a 100% da população.

 
Referência econômica e turismo de negócios
 
Hoje, a capital mineira é roteiro de eventos gastronômicos anuais, como festival Comida di Buteco, competições esportivos (é uma das cidades pré-selecionadas para sediar a Copa do Mundo de Futebol, em 2014) e culturais, como os festivais Internacional de Teatro, Dança e Mundial de Circo, que atraem pessoas de todas as regiões brasileiras e de outros países.

É referência em turismo de negócios e tem um variado calendário de congressos, workshops, feiras, seminários, cursos, de todas as modalidades. Para isso abriga o moderno Centro de Convenções Expominas, um complexo de feiras e exposições capaz de receber um público de até 45 mil pessoas diariamente.

Em seu entorno estão cidades históricas, como Ouro Preto, Sabará, Caeté, Santa Luzia e Congonhas, com seu rico patrimônio do período barroco brasileiro preservado. Além disso, há inúmeras atrações turístico-ecológicas, em uma região rica em cachoeiras, grutas, montanhas e vales para a prática de esportes radicais, como a Serra do Cipó (confira em Belo Horizonte e seus arredores).

Equipada com hotelaria de nível internacional, conta com 117 hotéis e apart-hotéis, 74 deles de nível superior (acima de três estrelas), contabilizando 8.200 leitos no total e 6.600 de categoria mais elevada, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, Seção Minas Gerais (ABIH-MG).

São três aeroportos em pleno funcionamento, entre eles o de Confins, localizado na região metropolitana e um dos melhores do país, recebendo mais de 4 milhões de passageiros por ano. A Infraero, que administra o setor aéreo brasileiro, prevê o aumento da capacidade de passageiros e a criação de novas rotas nacionais e internacionais nos próximos anos e, já em fevereiro de 2008, Confins passa a operar regularmente uma linha da TAP que ligará BH a Lisboa (Portugal).

A recém-criada Linha Verde, uma grande e moderna obra viária em andamento, com recursos dos governos municipal e estadual, faz a ligação do Aeroporto de Confins ao Centro de Belo Horizonte em apenas 35 minutos. Com 35 quilômetros de extensão, beneficia mais de 3,5 milhões de pessoas, 100 bairros de BH e 10 municípios mineiros. Além disso, a cidade possui ligações rodoviárias e ferroviárias com todo o país e é de fácil acesso para quem chega ao Brasil também pelos portos.

BH também é referência em áreas avançadas como a biotecnologia, medicina e informática, e sua região metropolitana, composta por 34 municípios, tem um dos parques industriais mais importantes da América Latina, destacando-se na produção de artefatos de aço e derivados, além de automóveis, artigos têxteis e alimentícios. Com a intensa produção de pedras preciosas e minerais no estado, região mais rica do país quando se fala em esmeralda, topázio, água-marinha e turmalina, a cidade é pólo na produção joalheira e na exportação de jóias e insumos para o exterior.

Nos setores de informática e biotecnologia é a cidade é um dos núcleos de produção de softwares, com recursos de US$ 2 bilhões; na pesquisa e desenvolvimento de novos combustíveis, como o biodiesel. Na medicina, é o principal centro de referência em oftalmologia brasileira, em genética e em reprodução humana e tem excelentes hospitais especializados no tratamento de politraumatismos, de queimados, de câncer, de cirurgia plástica e de outras áreas, além de grandes laboratórios clínicos e indústrias químicas.

Conhecida com a capital nacional do segmento da moda, tem grifes de roupas, calçados e acessórios de vanguarda que são sucesso no Brasil e no exterior. A indústria têxtil, uma das pioneiras em Minas Gerais, é responsável pelo avanço da produção de vestuário e movimenta R$ 2,5 milhões por ano, empregando 160 mil pessoas no estado.

 
Cultura e tradição
 
Centros de lazer, educação e cultura (universidades, salas de cinema, teatros, galerias, espaços multiuso) oferecem programação de qualidade o ano inteiro. Um de seus maiores atrativos, bares e restaurantes são o charme extra da cidade e apresentam a diversidade culinária mineira, cultuada pelos quatro cantos do Brasil. Seus pratos elaborados são o que há de melhor no estado, ingredientes que podem ser encontrados facilmente no Mercado Central, um dos passeios obrigatórios de quem quer conhecer as origens de BH. Sabores que misturam as tradições européia, africana e indígena fazem a alegria de mineiros e turistas.

A capital mineira tem ainda um dos melhores climas do país e é dotada de parques e áreas verdes preservadas em toda a sua região metropolitana. Bem ao centro está o Parque Municipal, com seus 180 mil metros quadrados, seus jardins floridos e suas espécies múltiplas de árvores que colorem a Avenida Afonso Pena. Dentro dele está o Teatro Francisco Nunes e o Palácio das Artes, uma construção inaugurado nos anos 1970 que é o principal espaço cultural da cidade, com moderno teatro para 1.700 pessoas, salas de espetáculos e de ensaios, galerias, lojas e cafés. (Outras informações sobre a efervescência cultural em Belo Horizonte Cultura).



BH: Já no novo século, vem passando por importantes obras estruturais, como o Boullevard Arrudas e a revitalização da Praça da Estação.


BH é uma cidade que ainda preserva importante patrimônio histórico como o magnífico Palácio da Liberdade, sede do governo de Minas Gerais, recém restaurado. Na foto a suntuosa escadaria.

Vista aérea da avenida Afonso Pena a partir da Praça Tiradentes de onde também se vê toda zona sul da cidade.


Expominas: um complexo de feiras e exposições capaz de receber um público de até 45 mil pessoas diariamente.


A Avenida Afonso Pena, onde hoje se encontra o obelisco da Praça Sete, é ainda um vibrante espaço de cultura, comunicação, política, comércio e lazer.

BH é conhecida como a capital nacional do segmento da moda, tem grifes de roupas (como a Coven, foto), calçados e acessórios de vanguarda que são sucesso no Brasil e no exterior.


A Cidade é pólo na produção joalheira e na exportação de jóias. Na foto, "Batida do Samba", jóia de Marga Premen, finalista do Anglo Gold Ashanti Designer Fórum 2004.

Viaduto de Santa Tereza, um marco arquitetônico, com seus arcos e suas luminárias.


O contraste arquitetônico da Praça da Liberdade, entre o moderno de Oscar Niemeyer e o eclético do edifício ao lado.