Muito além dos mais belos horizontes

Reportagem Raquel Coutinho
Fotos Henry Yu/Jean Yves Donnard/Roberto Murta/Daniel Mansur
 
Minas é a geografia, o ouro e o ferro. A religiosidade marcante, o cerrado, as fazendas coloniais, o modernismo, a efervescência cultural, o pensamento de vanguarda, a linha férrea e o pão de queijo. Inevitável pensar Belo Horizonte como uma miscelânea de todas as delícias que fazem de Minas Gerais um estado ímpar. O cotidiano tranqüilo que serena o coração convive com a vibração da cidade que já nasceu moderna. Essa dupla identidade latente define a personalidade do belo-horizontino e extrapola os limites da metrópole. Vigorosamente, a profusão de tribos, espaços, olhares e nuances de uma sociedade complexa ocupa o entorno da capital.
 

Beagá é uma cidade de múltiplas raças, sabores e culturas. Sua imensa diversidade resulta de fluxos migratórios e processos históricos que se sucederam em diferentes períodos. A cidade geometricamente planejada para ser o centro administrativo do estado, ainda jovem rompeu todos os limites projetados. Prosperou nas mais diversas áreas, multiplicou atividades e, aos poucos, foi descobrindo vocações.

Sob a benção da padroeira Nossa Senhora da Boa Viagem, Beagá amadureceu sem perder seu mágico ar interiorano. Mas a capital desenhada ganhou vida, tornou-se um lugar habitado. E o sonho deu lugar às inevitáveis mudanças. Com 2,5 milhões de habitantes, a cidade enfrenta desafios inerentes às grandes concentrações urbanas, como o crescimento desordenado e o trânsito confuso.

Ainda assim, ao contrário de outras grandes metrópoles brasileiras, é fácil escapar da ‘bagunça’. Ao tomar uma das rodovias federais BR-040 (sentido Rio de Janeiro ou Brasília) e BR-381 (sentido São Paulo ou Vitória), ou pela MG-010, que liga a cidade ao Aeroporto Internacional Tancredo Neves (Confins), o viajante encontra atrativos para todos os gostos e bolsos.
 

Herança barroca
 
A Estrada Real passa por Belo Horizonte. Sobre trechos dos antigos caminhos do ouro foi construída a BR-040, assim como a MG-010. São João Del Rei, Tiradentes, Ouro Preto, Mariana, Congonhas, Ouro Branco, Sabará, Barão de Cocais, Catas Altas, Caeté, Itabirito, Serro, Conceição do Mato Dentro e Diamantina. Belo Horizonte é porta de entrada para as mundialmente conhecidas cidades históricas mineiras.

Três dos mais importantes circuitos turísticos de Minas Gerais encontram-se a poucas horas de viagem da capital. A Trilha dos Inconfidentes e os circuitos do Ouro e dos Diamantes são os destinos históricos mais procurados pelos turistas que desembarcam em BH.

Ouro Preto, eleito Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), preserva o maior conjunto da arquitetura barroca existente no mundo. O casario colonial, as suntuosas igrejas, os chafarizes e as ladeiras calçadas são testemunhos de um tempo em que a opulência do ouro desencadeou grande corrida às minas e fez da antiga Vila Rica o centro econômico e cultural do Estado.

O mais festejado artista barroco, mestre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, deixou rico acervo na cidade. Suas obras também podem ser contempladas em Congonhas, onde os 12 profetas esculpidos em pedra sabão ornamentam o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos.

A maria-fumaça do recém-inaugurado trem turístico leva os visitantes de Ouro Preto a Mariana, em uma verdadeira viagem no tempo. Na Catedral da Sé de Mariana, a organista Elisa Freixo realiza concertos periódicos, revelando acordes do órgão Arp Schnitger, construído na primeira década do século 18, em Hamburgo, Alemanha.

Inúmeras estradas secundárias ligam as cidades e vilarejos, tornando possíveis os mais variados roteiros. Partindo de São João Del Rei ou Tiradentes, o viajante pode cruzar a BR-040, próximo a Congonhas, e descer a serra de Ouro Branco até Itabirito. Ao tomar a estrada em direção a Ouro Preto, a viagem continua por Mariana, Barão de Cocais, Catas Altas, Santa Bárbara e Caeté. Contornando a região metropolitana, estradas de terra levam ao Parque Nacional da Serra do Cipó. Dali, a MG-010 sobe cortando montanhas e passa pelo município de Serro até alcançar Diamantina.
 

Nossa praia é outra
 
Se a pedida é adrenalina, sobram opções na água, no ar ou na terra. A versatilidade da capital para os esportes de aventura deu origem à campanha publicitária Eu amo BH Radicalmente, abraçada com fervor pelos belo-horizontinos. Associada ao projeto BH 360°, a idéia é aumentar a auto-estima da população e seu amor pela cidade, tomando como referência a vocação de Beagá para a prática esportiva. Em um raio de 360° ao redor da região metropolitana, a agenda de eventos ligados ao turismo de aventura recebe apoio e divulgação do BH Convention & Visitors Bureau.

De um lado, Moedinha, com 170 metros de altura e a bela Lagoa dos Ingleses à frente. Do outro, Moedão, a admirável serra de 580 metros de desnível, que termina em um mar de morros, pontilhado por vilas, coberto por matas e recortado por riachos. A Serra da Moeda, a 32 quilômetros de Belo Horizonte, abriga uma das melhores rampas de decolagem de vôo livre da América do Sul, com 1.450 metros de altitude. Todos os finais de semana, dezenas de asas colorem os céus da região, seduzindo quem passa pela BR-040.

Dizem que Minas Gerais está para o vôo livre, assim como o Hawaii está para o surf. O Estado concentra variadas condições para satisfazer inexperientes aprendizes e desafiar habilidosos pilotos. A rampa de Moeda é ponto de confraternização, troca de experiências, diversão e companheirismo. Além de jurássicos pilotos e dos bem recebidos iniciantes, amigos e curiosos freqüentam o local, que conta com boa infra-estrutura, clima agradável e uma paisagem arrebatadora. Para quem prefere manter os pés em terra firme, o restaurante No Topo do Mundo oferece chope gelado, pratos saborosos e um visual de tirar o fôlego.

Perto dali, a Lagoa dos Ingleses atrai praticantes de esportes aquáticos – jet ski, windsurf, kitesurf, wakeboard e surf. Isso mesmo! Para descobrir o ‘jeitinho mineiro’ de surfar basta colocar peso no fundo de uma lancha e acelerar. O surfista pega onda na marola que se forma atrás da embarcação.

E de prancha em prancha, feras do skate e, como não poderia deixar de ser, do mountainboard também têm espaço na cidade. Esta última modalidade, que utiliza uma prancha e rodas com pneus calibrados de acordo com o terreno, encontrou nas montanhas que cercam a BH um campo fértil para prosperar, assim como os praticantes de mountainbike. Sobre rodas ou a pé, o gosto pelas trilhas corre nas veias dos belo-horizontinos.

 
O refúgio mora ao lado
 
Também na saída para o Rio, o Parque Estadual da Serra do Rola Moça, as serras da Moeda e da Calçada, e a região de Nova Lima preservam riquezas naturais exuberantes. Essas belezas provocaram um fenômeno que vem mudando o perfil de Belo Horizonte — a ocupação do entorno da cidade por dezenas de condomínios de luxo e por uma população de alto poder aquisitivo. Rapidamente, investidores identificaram o potencial consumidor desse público e trataram de criar infra-estrutura adequada. O resultado é um reduto de centros de compra e de lazer sofisticados, restaurantes, espaços para realização de eventos, produtos, serviços e facilidades.

Do outro lado de Belo Horizonte, a mesma situação é observada na cidade de Lagoa Santa. Estrategicamente posicionado na Linha Verde, que liga o centro da capital ao Aeroporto de Confins, o município conta com excelente infra-estrutura e fica a apenas 54 quilômetros do Parque Nacional da Serra do Cipó. Impulsionada também pelo turismo de eventos e negócios, Lagoa Santa vive hoje um processo de especulação imobiliária sem precedentes em sua história.

 
Referência em ecotreinamento
 
A ampliação do Expominas e a construção da Linha Verde colocaram Belo Horizonte em posição de destaque entre as capitais da América Latina com maior capacidade de organização e infra-estrutura para receber grandes eventos. Nas maiores vias de acesso à capital, hotéis e centros de convenções recebem investimentos expressivos.

Nesse contexto, uma atividade que vem se destacando, particularmente, é o treinamento empresarial outdoor, ou ecotreinamento. Na Serra do Cipó, a Cipoeiro Expedições oferece percursos e atividades para atender a diferentes demandas de empresas. Na saída para Vitória, podem-se citar os espaços do Hotel Tauá e o arvorismo do Canela de Ema, em Caeté. Em Nova Lima há o Espaço Nature Ecotreinamento e, em Mariana, o Minas Radical, entre diversos outros.

 
Carste de Lagoa Santa
 
Dotada de formidável acervo arqueológico, Lagoa Santa foi construída sobre um maciço calcário formado há 600 milhões de anos, no período Pré-Cambriano Superior. A riqueza histórica do carste — paisagem comum em regiões com grande ocorrência de calcário, rocha sedimentar que favorece a formação de cavernas e rios subterrâneos — de Lagoa Santa atraiu o paleontólogo dinamarquês Peter Lund , que ali viveu no século 19 e reuniu uma coleção com mais de 20 mil fósseis. Tais achados contribuíram significativamente para os estudos de Charles Darwin  sobre a teoria da evolução.

A Gruta da Lapinha, aberta à visitação, conserva em seus salões magníficos espeleotemas das mais variadas formas. Com extensão de 511 metros, a gruta atinge a profundidade de 40 metros. Inserido na Área de Proteção Ambiental Carste de Lagoa Santa, o local abriga ainda o Espaço Cultural e Ambiental Dr. Lund, com exposições sobre a região e uma réplica em tamanho natural da famosa preguiça gigante.

Em 1975 foi descoberta, no sítio Lapa Vermelha IV, em Pedro Leopoldo, município vizinho a Lagoa Santa, a ossada de uma mulher apelidade de Luzia. Estudos demontraram que Luzia viveu há mais de 11 mil anos, tornando-se o mais antigo esqueleto humano já encontrado nas Américas. O achado significou um novo passo para se cormpreender a ocupação do continente.

As características geomorfológicas também fazem da região um grande centro de escalada esportiva. Praticantes de todo o Brasil e do exterior procuram as rochas calcáreas de Pedro Leopoldo, Lagoa Santa e da Serra do Cipó por sua variedade de graduação (nível de dificuldade das vias) e beleza cênica.
 

Cachaça artesanal
 
No entorno de Belo Horizonte há diversão para toda a família. Do modesto engenho de cachaça artesanal brotaram idéias, traduzidas em um espaço que reúne ecologia, história, conhecimento, aventura, empreendedorismo e diversão. Na saída para São Paulo, a 42 quilômetros de Belo Horizonte, no distrito de Vianópolis, município de Betim, o Vale Verde Alambique e Parque Ecológico recebe cerca de 4,5 mil visitantes por mês.

O carro-chefe continua sendo o alambique, com suas consagradas cachaças Minha Deusa, tradicional branquinha, e Vale Verde, envelhecida três anos. Mas a fazenda diversificou seus atrativos, aliando a delicadeza de aves exóticas e de raras orquídeas a uma belíssima área verde com atividades variadas e um excelente restaurante. Playground, charrete, bosque, trilha ecológica, tirolesa e viveiros são as atrações preferidas entre as crianças.

O parque é autorizado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a criar, produzir e comercializar aves silvestres. Dos mais de 800 pássaros que vivem ali, a maioria pertence à família dos psitacídeos, também conhecidos como ‘aves do bico torto’, a exemplo das araras, papagaios, cacatuas, periquitos e maritacas. Há também uma grande variedade de espécies nacionais e exóticas, como canários, faisões, codornas, perdizes, inhambus, emas, avestruzes, cisnes e flamingos, entre outros. O visitante pode escolher sua ave e levá-la para casa na hora, acompanhada por um guia do Ibama, nota fiscal com número de registro, certificado de origem e instruções de criação.

Com mais de 300 espécies, o orquidário é um espetáculo à parte. Os belos exemplares que decoram a fazenda já renderam importantes prêmios nacionais.
 

Arte viva
 
Ainda na saída para São Paulo, a 60 quilômetros da capital, em Brumadinho, o Inhotim Centro de Arte Contemporânea revolucionou o cenário nacional com uma proposta ousada: 450 obras de 60 artistas brasileiros e estrangeiros foram distribuídas entre sete pavilhões, em um jardim de 300 mil m2 projetado pelo paisagista Burle Marx.

O Inhotim conta com peças de Hélio Oiticica, Tunga, Vik Muniz, Amílcar de Castro, Cildo Meireles e Franz Ackermann, entre outros renomados artistas contemporâneos. Perfeitamente integradas à natureza, as obras habitam os diferentes espaços, em harmonia com espécies vegetais nativas e exóticas, como palmeiras imperiais, patas de elefante e tamareiras.

O Inhotim foi criado com o objetivo de disponibilizar o acesso à arte contemporânea ao grande público. Com diretrizes social e educativa, o centro realiza projetos junto às escolas e comunidades da região, além de ser aberto à visitação.




As estradas, cortando montanhas, levam ao Parque Nacional da Serra do Cipó.


Congonhas: onde os 12 profetas esculpidos por Aleijadinho ornamentam o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos.


Inhotim Centro de Arte Contemporânea: 450 obras de 60 artistas brasileiros e estrangeiros foram distribuídas entre sete pavilhões, em um jardim de 300 mil m2.

Eu amo BH Radicalmente: versatilidade da capital para os esportes de aventura.


O Vale Verde Alambique e Parque Ecológico recebe cerca de 4,5mil visitantes por mês.

Se a pedida é adrenalina, sobram opções na água, no ar ou na terra.

A natureza de Belo Horizonte e seu entorno é exuberante, com a terra rica em nascentes.


O Parque Estadual da Serra do Rola Moça, as serras da Moeda e da Calçada, e a região de Nova Lima preservam riquezas naturais exuberantes.