Metrópole múltipla
 
Reportagem Andréa Rocha
Fotos Henry Yu
 
Belo Horizonte é uma cidade cosmopolita e charmosa, localizada não muito distante do “coração” geográfico do estado de Minas Gerais. Emoldurada pelas curvas da Serra do Curral, tem um céu quase sempre azul e brilhante e é entrecortada por extensas artérias arborizadas e floridas. A beleza natural, o valioso patrimônio arquitetônico, os tradicionais costumes e a efervescência cultural da jovem metrópole — comemora 110 anos em 12 de dezembro deste ano de 2007 — fazem com que a capital mineira desvele os mais interessantes ambientes para o turista.
 

Repleta de recantos e dotada de boa infra-estrutura urbana, a terceira metrópole do país foi considerada pela Organização das Nações Unidas, no início dos anos 2000, uma das melhores cidades do Brasil para se viver. Com um clima ameno, Belo Horizonte é uma das cidades mais arborizadas do país. São 560 mil árvores na via pública, além de aproximadamente 30 parques, 500 praças e outras diversas áreas livres, dedicados especialmente à educação ambiental, ao lazer, à cultura e aos esportes. O núcleo urbano não só incorporou valores ambientais como também preservou relevante parte de seu patrimônio cultural.  Em vários pontos da cidade há registros de uma história construída há pouco mais de 100 anos.  São exemplares que expressam os estilos art-decó, neoclássico, eclético e, modernista — expressões arquitetônicas de grande valor simbólico e artístico.  

Em meio a essa paisagem convivem cerca de 2,5 milhões de habitantes, que se dedicam, em sua maior parte, à prestação de serviços e ao comércio.  Segundo pesquisas do setor, é a cidade com maior concentração de bares, botecos e similares do país: passam de 12 mil, distribuídos em todas as regiões da cidade.

Este hábito belo-horizontino rendeu à capital a fama de “cidade dos bares”, uma situação tão verdadeira que até originou uma divertida competição capaz de mobilizar muita gente. Nos meses de abril e maio, o festival Comida di Buteco elege, com o voto dos clientes, qual o melhor boteco da cidade, com os critérios de cardápio, atendimento e cerveja gelada, dentre outros itens como higiene e a  própria apresentação do boteco.
 

Do moderno ao tradicional
 
Para além dos bares e botequins, a noite em Belo Horizonte é variada. Casas de espetáculos, boates para todas as músicas e tribos, locais especializados em dança-de-salão, flamenco, samba de raiz, funk, jazz ou rock. Do moderno ao tradicional, há lugar para todo mundo. São dezenas de teatros, cinemas, museus, galerias de arte e livrarias, para quem também faz do lazer fonte de conhecimento.  

A gastronomia é outro ponto forte da cidade. Lidera o seu cardápio a culinária mineira, que é uma saborosa mistura das culturas africana, portuguesa e indígena.  Seus pratos típicos são constituídos por carne de frango ou porco; milho; mandioca; feijão e verduras. Uma refeição mineira geralmente termina com compotas de frutas ou doces feitos com ovos, e, ao final, um cafezinho, típico hábito local.  

Para variar o sabor, há muitas opções de cozinhas de quase todos os outros estados brasileiros e das cozinhas japonesa, chinesa tailandesa, árabe, persa, indiana, portuguesa, espanhola, francesa, alemã, nórdica e uma vasta opção  em restaurantes italianos.

 
A cidade
 
Belo Horizonte integra uma região de serras onduladas, no coração de Minas Gerais, região Sudeste do Brasil, com altitude média de 853, metros e temperaturas que variam de 16 a 31 graus ao longo do ano. O céu, muito claro e azul, mesmo no inverno, é recortado pelo perfil ondulado da Serra do Curral, com picos de até 1.500 metros. O inverno é seco e o verão, chuvoso.

A história de Belo Horizonte pode ser contada por suas ruas e edificações.  Começou como um simples arraial, do Curral del Rey, que foi praticamente todo desapropriado para dar lugar à nova sede do governo mineiro. O único remanescente do vestígio colonial foi antiga fazenda do Leitão. Transformada em patrimônio cultural, hoje é sede do Museu Histórico Abílio Barreto. Localizado num bairro de ruas belas e arborizadas, Cidade Jardim, o museu reúne importante acervo da história da cidade, fundada em 1897.

Aquela era uma época de grande efervescência política e social — o movimento abolicionista e a transição do império português para a república brasileira.   Como símbolo de uma nação autônoma, aberta ao futuro e rompida com o passado, o governo de Minas Gerais transferia sua sede de Ouro Preto — antiga Vila Rica, produtora de ouro para a Coroa Portuguesa — para a emergente Cidade de Minas.  O nome Belo Horizonte só viria a ser registrado em 1906, em atendimento ao pedido de seus moradores.

 
Praça da Liberdade
 
Assim nasceu Belo Horizonte, cidade planejada para simbolizar o Brasil-República. A inauguração se deu no dia 12 de dezembro, debaixo de muita chuva, no conjunto da Praça da Liberdade. Ali, espaço público onde se deu a criação da cidade, foram construídas belas e imponentes edificações, compostas pelo Palácio da Liberdade e Secretarias. A arquitetura reflete o momento de ruptura política e social. O barroco colonial ficava para trás, em Ouro Preto, antiga sede do governo mineiro e fonte de exploração da Coroa Portuguesa.

O ecletismo surge, com elementos neoclássicos, formando o conjunto da Praça da Liberdade.  As edificações, imponentes, têm, ao centro, um parque composto por belos e bem-cuidados jardins, alamedas, hermas, fontes e esculturas ornamentais. Ao longo dos anos, o núcleo foi recebendo construções de diferentes estilos arquitetônicos, mantendo, em seu conjunto, grande beleza e plasticidade.

A década de 40 também tem seu registro na Praça da Liberdade, com o estilo Art Decó e revestimentos pó-de-pedra do Palácio Cristo Rei. Nas décadas 50 e 60, são incorporados ao conjunto projetos modernistas. Entre eles, a Biblioteca Pública Luiz de Bessa e o Edifício Niemeyer, que risca o céu da cidade com suas linhas curvas. Nos anos 80 deixa a sua marca o estilo pós-moderno, em construção (o prédio ganhou da população o apelido de “Rainha da Sucata”) que hoje abriga o Museu de Mineralogia Professor Djalma Guimarães. O acervo é composto por cerca de 3 mil peças, com amostras dos principais minerais extraídos no mundo, das quais 800 estão em exposição permanente.

 
Praça da Estação
 
Outro espaço que registra a história de Belo Horizonte é a Praça Rui Barbosa, conhecida como Praça da Estação. A praça, recentemente revitalizada, reúne alguns dos  principais acervos do estilo eclético em Belo Horizonte, com destaque para o majestoso prédio da Estação Central do Brasil, construído em 1920 em substituição ao antigo.

A estação ainda mantém em circulação uma linha de trem de passageiros, com destino à Vitória, no Espírito Santo, percorrendo um bom pedaço do Leste de Minas. Ali também funciona uma das principais estações de metrô de Belo Horizonte, mantendo a tradição de grande circulação de pessoas.

Em meio a este ir e vir de passageiros, funciona um dos mais visitados centros de conhecimento da cidade, o Museu de Artes e Ofícios.  Inaugurado em 14 de dezembro de 2005, é o primeiro empreendimento museológico brasileiro dedicado integralmente às artes, ofícios e trabalho no país. Em mais de 2 mil peças, dos séculos XVIII ao XX, a coleção apresenta a riqueza da produção popular da era pré-industrial. No mesmo espaço são realizadas exposições de artes plásticas, palestras com pensadores e escritores, além de apresentações musicais.

Além do prédio da Estação da Central do Brasil, fazem parte do conjunto a Casa do Conde de Santa Marinha e a Serraria Souza Pinto, em estilo industrial, onde são realizados espetáculos culturais e eventos de negócios. Compõe o conjunto o viaduto de Santa Teresa, eternizado por poetas e escritores dos anos 50. Hoje, o espaço aberto da Praça da Estação é também palco de espetáculos culturais.

 
Mercado Central
 
Num dos pontos vitais de Belo Horizonte, ainda na região central, encontra-se mais um registro da história da cidade, o Mercado Central. Construído em 1929, mantém-se vivo como ponto de encontro dos belo-horizontinos e lugar de visitação de turistas.

Diariamente, cerca de 14 mil pessoas circulam pelo Mercado Central em busca de variedade e produtos de qualidade. Em 400 lojas e estabelecimentos, encontram-se os mais diversos tipos de queijo, castanhas, pimentas, temperos, ervas, além dos produtos mais tradicionais de açougue, verduras e mercearia. Na labiríntica composição interna, frutas frescas misturam-se a flores, gêneros alimentícios regionais e importados, e a um sem número de objetos artesanais e industriais.

O mercado ocupa a área de um quarteirão numa das principais avenidas da cidade, em frente ao Centro de Convenções Minascentro e a um quarteirão da Praça Raul Soares, onde está localizado o edifício JK, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer.

 
Centro Vivo
 
A região central de Belo Horizonte guarda o mais contundente registro da verticalização que se deu na cidade a partir da década de 40. Vários prédios construídos para a inauguração da capital foram demolidos para dar lugar a arranha-céus, entre eles o  Edifício Acaiaca, na avenida Afonso Pena e o Edifício Maletta, na rua da Bahia.  Hoje, ambos são considerados patrimônio histórico e cultural de Belo Horizonte.   

Ainda nos anos 40 foi erguido, na área central, um dos maiores centros de produção e difusão cultural de Belo Horizonte, a Fundação Clóvis Salgado. Instalado junto ao Parque Municipal, na Avenida Afonso Pena, o edifício modernista foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. É formado por galerias de arte, cinema e teatros, com destaque para o Palácio das Artes, onde são realizados espetáculos artísticos de grande porte e eventos programados.  

Ao longo de toda a avenida Afonso Pena estão importantes edificações, como a Prefeitura Municipal e a agência central dos Correios. Também estão ali construções neoclássicas como o Palácio da Justiça e o Conservatório de Música da UFMG e equipamentos de cultura e lazer, como o Parque Municipal.

Primeira área de lazer e contemplação da cidade, o Parque Municipal Américo Renné Giannetti foi inaugurado em 1897, na antiga “Chácara do Sapo”, onde residia o engenheiro Aarão Reis, responsável pelo planejamento da nova capital. Surgiu Inspirado nos parques franceses da Belle Époque, com roseiras e coreto. Em meio a muito verde, estão mais de 50 espécies de árvores e equipamentos de lazer.

A avenida Afonso Pena, onde hoje se encontra o obelisco da Praça Sete, é ainda um vibrante espaço de cultura, comunicação, política, comércio e lazer. Todas as manhãs de domingo, centenas de pessoas participam da grande Feira de Artesanato na avenida, que dispõe de barraquinhas de bebidas e comidas para os seus visitantes.

Antigo reduto cultural da cidade, a Afonso Pena é um corredor que liga o extremo Sul da cidade à região Norte - onde estão o aeroporto e o conjunto arquitetônico da Pampulha, e caminho para o aeroporto internacional de Confins, em Lagoa Santa.

 
Mangabeiras
 
Subindo a avenida Afonso Pena, em direção à região sul da cidade, encontra-se a praça Israel Pinheiro, conhecida pelos belo-horizontinos com Praça do Papa, em homenagem à missa campal que o Papa João Paulo II celebrou na cidade ainda nos anos 80.  Neste ponto, aos pés da Serra do Curral, se tem uma das mais belas vistas da cidade.

Nas imediações encontra-se o Parque das Mangabeiras, um dos maiores parques urbanos do país. São 2,3 milhões de metros quadrados de área, a maior parte coberta por mata nativa, com projeto paisagístico de Burle Marx e onde se vê, sem dificuldade, pássaros e pequenos animais como micos, esquilos e quatis. Há completa infra-estrutura de lazer e esportes, além de teatro de arena.

 
Pampulha
 
O período de efervescência cultural dos anos 40 deixou um rico legado para Belo Horizonte. Por iniciativa do então prefeito Juscelino Kubtischek, o proeminente arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer foi contratado para elaborar um projeto que iria colocar a capital mineira no mapa da modernidade. Projetado para ser um grande centro de visitação e lazer numa única área, na época distante 15 km do centro da cidade, era construído, entre 1941 e 1945, o conjunto arquitetônico da Pampulha.

Foi um projeto inovador, que ainda hoje enche os olhos dos moradores e visitantes de Belo Horizonte. Além da Lagoa da Pampulha, o conjunto é formado pelo antigo Cassino, hoje Museu de Arte da Pampulha; a Casa do Baile, transformada em espaço cultural; a igreja de São Francisco de Assis e a sede do Iate Clube, localizados em pontos estratégicos da Lagoa.

Além da beleza plástica do conjunto, a Pampulha ganhou significação por inaugurar, em suas linhas curvas e movimento sinuosos, um novo jeito de se pensar e ver o mundo. Integram o patrimônio belíssimos jardins projetados por Roberto Burle-Marx, além de painéis, pinturas e esculturas de outros artistas modernistas como Cândido Portinari, Aflredo Ceschiatti, Santa Rosa e Paulo Rossi Osir. Mais tarde, os estádios Mineirão e Mineirinho, o Zoológico e um parque ecológico foram integrados ao conjunto.

O Parque Ecológico Francisco Lins do Rego  é a segunda maior área verde pública da cidade. É um espaço com quase 1,5 milhão de metros quadrados, dedicado à recreação e lazer e ao desenvolvimento de projetos educativos, científicos e culturais.

 
Savassi
 
Além de parques e monumentos históricos e arquitetônicos, Belo Horizonte mantém charmosos e movimentados espaços de convivência. O mais conhecido deles é a região da Savassi, localizada na zona sul da cidade. Antigo ponto de encontro de políticos e da elite belo-horizontinha, a Savassi é uma agradável área urbana, com grande concentração de bares, restaurantes, lojas e prestadores de serviço.  

Nos anos 90, cafeterias e novas livrarias vieram se juntar ao conjunto da Savassi, agregando ao ambiente uma atmosfera cultural. Em suas ruas pequenas e arborizadas, são promovidos pequenos espetáculos artísticos, especialmente teatro de rua e eventos musicais. Nessa região é possível encontrar preciosidades em lojas de livros e discos antigos, e uma série de brechós, além de diversas galerias de arte e cinema. Antiquários e museus podem ser visitados nas proximidades.

Há muito para se ver, fazer e conhecer em Belo Horizonte. Todos os recantos e espaços que oferecem qualidade de vida aos belo-horizontinos estão sempre abertos aos trists de todos os cantos do mundo. O convite é para todos.



Igreja de São Francisco de Assis na Pampulha, projeto inovador de Oscar Niemeyer.


A região da Savassi mantêm charmosos e movimentados espaços de convivência.

Diariamente, cerca de 14 mil pessoas circulam pelo Mercado Central em busca de variedade e produtos de qualidade.


Museu de Artes e Ofícios: inaugurado em 14 de dezembro de 2005, é o primeiro empreendimento museológico brasileiro dedicado integralmente às artes, ofícios e trabalho no país.

A gastronomia mineira é uma saborosa mistura das culturas africana, portuguesa e indígena.


A história de Biribiri começa em 1870 com a inauguração de uma fábrica têxtil.

Parque Municipal: em meio a muito verde, estão mais de 50 espécies de árvores e equipamentos de lazer.